Um acredita na simbologia do sótão, o outro só parou para o aniversário do filho: os bastidores da disputa Pedro Nuno Santos-José Luís Carneiro

11 dez 2023, 07:00
José Luís Carneiro e Pedro Nuno Santos

Os socialistas abrem o jogo. E revelam como está o PS a viver a disputa interna. No mar de críticas de parte a parte, emerge uma convicção: no dia a seguir às diretas, o partido vai falar a uma só voz. Até lá, é isto que se ouve, fala e vê no Largo do Rato, nos grupos de WhatsApp, nas iniciativas e campanha (e nas conversas mais privadas)

São adversários internos, mas têm as equipas a trabalhar debaixo do mesmo teto. O PS disponibilizou uma sala a cada candidatura na sede do partido no Largo do Rato, em Lisboa. Pedro Nuno Santos ficou colocado ao pé do refeitório. E nessa localização ninguém viu grande simbolismo.

Mas José Luís Carneiro tem a campanha interna preparada a partir do sótão do edifício. Algo que tem alimentado comparações e esperanças à candidatura. É que, outrora, também António Guterres e outros socialistas conspiraram contra Mário Soares no sótão da casa de Algés do atual secretário-geral da ONU. “Brincamos com isso”, conta um elemento da campanha.

Neste retrato dos bastidores, todos preferem falar off the record. Até porque isso permite um retrato mais exato do que se vive entre os socialistas por estes dias. Qualquer que seja o lado em que se posicionem da barricada, concordam numa coisa: o sentido de voto dos militantes está mais do que definido. Até porque numa eleição interna “as pessoas conhecem os candidatos, já têm a sua opinião formada”.

“De um lado ou de outro, a convicção é a de que Pedro Nuno Santos vai ganhar. A questão é saber a diferença. Mas se até o PSD foi capaz de superar a diferença mínima de Rui Rio [nas diretas contra Paulo Rangel], quem seria o PS para não se unir no dia seguinte às diretas”, conta um militante, apoiante de Pedro Nuno Santos.

A candidatura de José Luís Carneiro não atira a toalha ao chão. “Posso dizer que, mesmo que não vença, o que ainda acredito que possa vir a ser possível, deixa uma marca muito forte naquilo que é a comprovação do ADN do PS”, descreve um socialista apoiante do atual ministro da Administração Interna à CNN Portugal.

A lista dos apoios está praticamente fechada, mas de ambos os lados “é claro” que ainda se “contam espingardas”. É uma parte determinante de todo o processo. A uma semana das urnas abrirem, ainda havia esperança de que novos nomes se pudessem juntar. Como veio a acontecer, por exemplo, na quinta-feira à tarde com o presidente do partido, Carlos César, a alinhar por Pedro Nuno Santos.

(Lusa)

WhatsApp e discursos: onde se separam e encontram

Não é só no percurso, no estilo e no alinhamento político que Pedro Nuno Santos e José Luís Carneiro se distinguem. É também na forma como lidam com os diferentes momentos da campanha e com os próprios apoiantes.

Além das iniciativas públicas, que vão permitindo medir a mancha humana que apoia cada um, há todo um outro lado. O da comunicação dita informal, onde os grupos de WhatsApp – como é sabido nestas coisas – têm grande importância.

À CNN Portugal, diferentes apoiantes de José Luís Carneiro reconhecem que o candidato a secretário-geral socialista marca presença nesses fóruns, chegando mesmo a responder a alguns desafios e propostas que lhe fazem chegar. “Nos grupos em que participo, José Luís Carneiro está presente. Existe essa interação”, confirma um militante.

Com Pedro Nuno Santos é diferente. Os grupos de apoiantes que existem, segundo foi possível apurar, foram surgindo de uma forma mais ou menos natural. São os naturais ciclos de influência replicados nos canais digitais. Se o candidato anda por lá, ninguém o viu. Há até quem o aconselhe a não o fazer. Tanto seria o material para ver e analisar, tanta a gente a que dar atenção.

Sabemos bem que um político é também a sua capacidade de oratória. Neste campo, há algo que junta Pedro Nuno Santos e José Luís Carneiro: são ambos avessos a discursos escritos. Preferem improvisar, deixar o lado emocional vir ao de cima. O que não quer dizer, confirmam fontes de ambas as candidaturas, que não se preparem ao mais ínfimo pormenor.

“Ele é muito metódico e organizado, prepara sempre as suas intervenções. Discute ideias com várias pessoas, de militantes a pessoas mais próximas. Pondera aquilo muito bem. E depois é capaz de articular aquilo rapidamente”, conta um socialista muito próximo de Pedro Nuno Santos.

Já José Luís Carneiro, com uma agenda limitada pela sua condição de ministro, reúne-se muito por videochamada com a equipa. Dá-lhes “máxima liberdade”, confia nas prioridades que definem, mas a validação final passa sempre por ele. Nos discursos, prepara os tópicos que quer abordar em cada paragem da campanha, para aproveitar as especificidades dos territórios.

Nenhum tem o discurso de vitória preparado. Mas a equipa de José Luís Carneiro gaba-se de ter “agendada a primeira entrevista como secretário-geral do PS”.

(Lusa)

Os conselhos para Pedro Nuno abrandar

Montar uma campanha é sempre um quebra-cabeças. Em especial quando o tempo para prepará-la é tão curto como nesta. Ninguém antecipava a queda de António Costa.

Do lado de José Luís Carneiro, admite-se que o grande desafio foi começar esta corrida, porque o adversário, embora também apanhado de surpresa, há muito que se vinha preparando. Os apoiantes insistem mesmo que o “crescimento” da candidatura os surpreendeu. Os rivais respondem deste modo: quando se começa com nada, qualquer crescimento parece sempre muito rápido e inesperado, “mas estagnaram ao fim de uns dias”.

Para a equipa de Pedro Nuno Santos, o principal problema foi a “falta de tempo, com uma campanha muito curta, que criou um problema de estruturação da mesma, até porque o candidato fez questão de ir a todo o país”. “Só fez uma pausa. Teve de conciliar com os anos do filho. É verdade, os políticos também têm uma vida”, sublinha um militante muito próximo do candidato.

Por agora, não há sinais de cansaço. Quem rodeia Pedro Nuno Santos admite que às vezes se preocupa com esse lado, que aconselha o candidato a abrandar. “Disse-nos que ficava o tempo que fosse preciso no contacto com militantes. Depois do comício lá no distrito, ainda esteve uma hora a falar com pessoas.”

(Lusa)

Um mar espinhado de críticas

Basta pedir aos socialistas para contarem como está o clima eleitoral no partido para perceber para que lado pendem. É que, à primeira resposta, desdobram-se sempre em críticas ao outro candidato.

Quem alinha por Pedro Nuno Santos lamenta-se que José Luís Carneiro tenha adotado o “discurso da direita” para atacar o rival, procurando afirmá-lo como radical, em contraste com a postura mais moderada que a candidatura tem procurado promover. “Está enclausurado nesta coisa de estar constantemente a provocar o Pedro Nuno”, diz um deles. “É uma candidatura ansiosa, nervosa. Isso nota-se nas declarações do candidato”, completa outro.

Entre os que apoiam José Luís Carneiro, reconhece-se que a candidatura nasce de uma necessidade de resposta a um projeto para o PS com que “muitos não se identificavam”: o de Pedro Nuno Santos. E daí os elogios à “serenidade, bom senso” e à “tradição democrática” do atual ministro da Administração Interna, contra uma “retórica plástica, fabricada”.

Na próxima sexta-feira e sábado, haverá eleições a decorrer no PS. As urnas fecham no segundo dia, pelas 22:00. É expectativa partilhada que uma a duas horas depois, os socialistas (e o país) fiquem a conhecer o último nome na corrida a primeiro-ministro.

(Lusa)

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