Professor português, 22.374€/ano; suíço, 66.972€ - uma análise a partir do que Marcelo disse (e como o Presidente está certo e não está)

26 jul 2023, 20:17
Novo dia de luta para os professores. Fenprof e STOP com ações de protesto em Lisboa (Lusa/TIAGO PETINGA)

Marcelo vetou diploma do Governo sobre progressão na carreira dos professores. Ao mandar a lei para trás, o Presidente decidiu sublinhar que os países onde a Educação é líder mundial são aqueles onde os professores recebem dos melhores salários da função pública, até acima de "carreiras especiais". Fomos ver se Marcelo tem razão - e descobrimos que tem razão em parte. E há outro ponto no meio disto tudo: às vezes há algo tão ou mais importante que o dinheiro, que é o prestígio que cada sociedade atribui aos seus professores (e que cada Governo atribui também - e nisso Marcelo está descontente com Costa)

O Presidente da República exorta Governo a equiparar o tratamento dado aos professores portugueses àquele que é dado noutros países tidos como “exemplos de liderança na educação”. Num texto enviado à Presidência do Conselho de Ministros e no qual devolve ao Governo o diploma de progressão na carreira dos professores, o Presidente da República escreve: “Não foi por acaso que países exemplos de liderança na educação o foram porque escolheram os melhores e lhes pagaram aquilo que não pagavam a tantos outros e respeitáveis trabalhadores do setor público, mesmo de carreiras especiais”.

De acordo com dados compilados pela Agência de Execução Europeia da Educação e da Cultura (EACEA, sigla do nome em Inglês) e pela Eurydice, uma rede europeia que está sob a alçada da Comissão Europeia e compila a informações sobre Educação, a média dos salários dos professores da União Europeia ronda os 25 mil euros brutos anuais. Por outro lado, os dados da Eurydice relativos ao ano de 2021/2022 mostram diferenças salariais significativas entre os professores de todos os países da Europa.

O salário anual bruto de um professor pode ir dos 4.233 euros na Albânia aos 69.076 euros no Luxemburgo. Portugal ocupa o 17º lugar, atrás de países como o referido Luxemburgo mas também Suíça (quase igual ao Luxemburgo e três vezes mais que em Portugal), Alemanha, Suécia, Espanha, Finlândia e até Chipre. A pagar menos aos professores do que em Portugal está a generalidade dos países de Leste, como Polónia, Bulgária, Roménia ou Sérvia, assim como a Grécia.    

Salários iniciais brutos anuais dos professores (2020/2021) em euros:

Países  Salários
Luxemburgo 69.076
Suíça 66.972
Alemanha 54.129
Dinamarca 47.980
Islândia 45.468
Noruega 40.479
Áustria 39.179
Países Baixos 38.413
Irlanda 37.692
Suécia 37.512
Bélgica 33.825
Espanha 30.992
Finlândia 30.002
França 26.839
Itália 24.297
Chipre 24.189
Portugal 22.374
Eslovénia 19.777
Malta 17.509
Lituânia 15.781
Estónia 15.780
Croácia 14.158
República Checa 13.807
Grécia 13.104
Montenegro 9.983
Letónia 9.480
Eslováquia 8.862
Turquia 8.330
Hungria 8.063
Roménia 8.027
Polónia 7.908
Bulgária 7.731
Macedónia 7.291
Sérvia 6.646
Bósnia e Herzegovina 6.120
Albânia 4.233

O salário anual médio bruto de um professor só fica acima dos 50 mil euros em três países: Luxemburgo, Suíça e Alemanha (54.129 euros). Um professor em França (26.839 euros) e em Itália (24.297 euros) ganha menos de metade do que um professor alemão.

Ainda assim, se olharmos para os salários dos professores em Paridade Poder de Compra (PPC) nos vários sistemas de ensino europeus analisados, assistimos a enormes disparidades. A Alemanha encabeça a lista com um salário anual de 50.357 PPC, seguida do Luxemburgo (46.066 PPC) e Suíça (38.601 PPC). Portugal fica-se pelos 25.440 PPC, cerca de metade daquilo que aufere um professor alemão.

Salários iniciais brutos anuais dos professores em Paridade Poder de Compra (PPC) (2020/21):

País Salários
Alemanha 50.357
Luxemburgo 46.066
Suíça 38.601
Dinamarca 33.627
Áustria 32.865
Países Baixos 32.350
Espanha 31.609
Bélgica 29.069
Islândia 28.862
Suécia 28.745
Turquia 28.455
Irlanda 26.542
Noruega 26.041
Chipre 25.465
Portugal 25.440
França 24.563
Lituânia 23.709
Itália 23.601
Finlândia 23.423
Eslovénia 22.673
Croácia 21.257
Estónia 19.162
Malta 19.148
Chéquia 19.065
Montenegro 18.678
Roménia 16.365
Macedónia 15.841
Grécia 15.435
Bulgária 15.159
Polónia 14.338
Hungria 13.465
Letónia 12.739
Sérvia 12.703
Bósnia Herzegovina 11.786
Eslováquia 10.750
Albânia 7.824

Pedro Barreiros, secretário-geral da Federação Nacional da Educação, lembra que não se podem olhar para a comparação dos salários nos diferentes países de uma forma isolada. “É uma questão de médias”, afirma em declarações à CNN Portugal. “Os professores no topo de carreira auferem de um salário relativamente bom, mas quando faz média com um professor em início de carreira, resulta num salário efetivamente baixo. É como dizerem que um professor tem em média 12 alunos. Mas tem em conta todos os professores, até aqueles que trabalham em câmaras municipais ou noutros sítios e não dão aulas e sabemos que, na realidade, há professores com turmas de 30 alunos”, exemplifica.

Na realidade, lembra Pedro Barreiros, o salário de um professor à entrada na profissão é tão baixo que constitui mais um fator de desmotivação dos jovens para o ingresso na profissão.  O dirigente da FNE lembra que mais do que a questão salarial é importante comparar a “questão do status”. Ou seja, da importância que cada país atribui a um professor na sociedade. “Na Suécia, a média para se entrar num curso via ensino é das mais altas”, exemplifica.

E é para essa importância da profissão que Marcelo também alerta no texto que enviou para o Conselho de Ministros. “Todos sabem que os professores, tal como os profissionais de saúde, têm e merecem ter uma importância essencial na nossa sociedade e em todas as sociedades que apostam na educação, no conhecimento, no futuro”, lembra o Presidente da República.

Comparemos, então, o salário que aufere um professor com um enfermeiro ou um médico em Portugal e noutros países europeus. Tomemos como exemplo a Finlândia, tida por muitos como um grande exemplo em termos de políticas de Educação. De acordo com o site EduNation, que reúne informação sobre a Finlândia para quem quer ir viver para o país, um enfermeiro ganha por mês entre 3.032 e 3.352 euros e um médico ganha entre 7.015 e 7.253 euros. Um professor ganha cerca de 2.500 euros por mês. Ou seja, aqui não se confirma o que Marcelo diz e que está no início deste artigo - e que repetimos aqui: “Não foi por acaso que países exemplos de liderança na educação o foram porque escolheram os melhores e lhes pagaram aquilo que não pagavam a tantos outros e respeitáveis trabalhadores do setor público, mesmo de carreiras especiais”.

Outro exemplo desta parte em que Marcelo não tem tanta razão: na Alemanha, de acordo com o site Doctor in Germany, um médico ganha em média 8.960 euros mensais, num espectro que pode ir dos 3.290 aos 15.100 euros. Se dividirmos o salário bruto anual de um professor na Alemanha por 12 meses, constatamos que ganha em média por mês 4.510 euros (menos ainda se dividido por 14).

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