"Ainda há tempo para recuar nos exames digitais do 9.º ano": professores de Informática lançam apelo ao novo Governo

21 mar, 18:00
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Fenprof avançou com pré-aviso de greve dos docentes de TIC aos trabalhos de reparação de computadores. Diretores e pais veem no protesto um fator adicional de “instabilidade” e de “nervosismo”

Faltam menos de três meses para os exames nacionais do 9.º ano, que se vão realizar pela primeira vez em formato digital. Com a aproximação das datas do exame de Matemática (12 de junho), Português (17 de junho) e Português Língua Não Materna (14 de junho) avolumam-se as preocupações de pais, professores e diretores escolares, que garantem que “não há condições para garantir a equidade de todos os alunos”. A greve dos professores de Informática decretada pela Fenprof, em coordenação com a ANPRI (Associação Nacional de Professores de Informática) ao trabalho suplementar de reparação de avarias de computadores e sistemas informáticos vem acrescentar mais um fator de “instabilidade” e “nervosismo”.

Fernanda Ledesma, presidente da ANPRI deixa um apelo ao novo Governo, que há-de entrar em funções a 2 de abril: “Ainda há tempo para recuar nos exames digitais do 9.º ano.” “Resta-nos esperar que haja alguma ação do novo Governo. E para o ano preparar as coisas atempadamente. Sabemos que há um financiamento europeu por trás deste projeto de digitalização das escolas e não sabemos quais as implicações de um adiamento, mas tem de ser avaliado”, insiste.

“É sempre um risco nesta avaliação em formato digital. Quando a possibilidade de constrangimentos não é acautelada, esse risco é muito maior”, acrescenta Fernanda Ledesma, em declarações à CNN Portugal.

A professora e dirigente associativa sublinha ainda que, a avançar no próximo ano letivo, com a digitalização dos exames de fim de ciclo, é preciso fazer uma preparação atempada: “Não pode ser deixar passar os exames, começar a escola no dia 1 de setembro e ninguém falar disso, chegar a dezembro e ninguém falar disso… não pode ser! Tem de se começar a preparar desde o dia 1 de setembro!”

"Instrutores de condução também não reparam carros"

Com uma expectativa de adesão à greve a este trabalho suplementar elevada, Fernanda Ledesma lembra ao novo Governo que os professores de Informática não são técnicos. A função destes docentes é dar aulas e não arranjar computadores.

Filinto Lima, presidente da ANDAEP (Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas), não poderia estar mais de acordo. “Reconheço que, com muito boa vontade, têm feito trabalho de técnicos. Técnicos que resolveriam muitos dos problemas, de computadores que neste momento estão encostados nas escolas”, diz o representante dos diretores.

De acordo com o estatuto da carreira docente, “o professor não tem de se assumir como técnico", nem precisaria de haver greve. "Bastaria recusarem-se a fazer aquelas funções ou exercerem essas funções, mas sob recusa e deixar um documento escrito para depois se agir judicialmente”, corrobora Pedro Barreiros, secretário-geral da Federação Nacional de Educação (FNE).

“É quase como pôr o instrutor de condução a arranjar carros. Ele sabe ensinar a conduzir, mas não tem de arranjar o carro da escola”, compara Filinto Lima.

Por isso, defendem todos, é fundamental o Governo acautelar a contratação de técnicos de informática para as escolas, garantir a distribuição de computadores a todos os alunos e a reparação dos kits informáticos que estão avariados e uma internet de qualidade para utilização de alunos e professores nas escolas.

Formação de professores e preparação dos alunos

Mas não é só: se os exames em formato digital avançarem mesmo, é preciso garantir uma formação atempada dos docentes. “E não é só um mês ou dois antes, e só aos professores que vão garantir a introdução dos dados no sistema. É a todos os docentes que vão fazer acompanhamento das provas”, defende.

A Confederação de Associações de Pais (CONFAP) confirma que há alunos ainda sem kit digitais atribuídos, “nomeadamente no 9.º ano” e “algumas avarias” que podem prejudicar a realização dos exames em formato digital.

“Sabemos de todo o esforço que os diretores foram fazendo e sabemos também que muitos pais suportaram os custos das reparações dos computadores, quer tenha sido por mau uso quer tenha sido por desgaste natural do material. Mas o facto é que, ao longo do ano, nem todos os alunos tiveram condições de preparação”, sublinha Mariana Carvalho, presidente da CONFAP, em declarações à CNN Portugal.

“No dia da avaliação, até acredito que possa correr tudo bem do ponto de vista informático. Mas o que nos preocupa não é o dia da avaliação é tudo o que está para trás. Faltam professores, muitos alunos não tiveram os conteúdos que vão precisar para os exames. E se os alunos não tiveram condições para estudar com o kit como é que vão fazer o exame?”, questiona a representante dos pais.

Ainda assim, a CONFAP não toma uma posição concreta de apelo ao fim ou ao adiamento dos exames de final de ciclo em formato digital. Mariana Carvalho diz que a CONFAP tem “auscultado as famílias” e solicitou uma reunião com o IAVE (Instituto de Avaliação Educativa). Quer “ouvir todas as partes envolvidas”, mas sabe que é preciso pelo menos “pensar bem sobre o assunto” e diz que “ainda estamos a tempo de pensar bem sobre o assunto”.

"Uma temeridade", dizem diretores

Manuel Pereira, presidente da direção da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, sublinha que não é contra a utilização de ferramentas digitais no ensino, mas diz que não está garantida a equidade entre os alunos.

“As provas de aferição no 1.º ciclo e mesmo no 5.º ano já são uma temeridade. Conheço turmas inteiras que, no 2.º ano, não sabem escrever, quanto mais usar um computador. Em relação aos 8.º e 9.º anos, a situação é parecida: a maior parte dos alunos não tem tanta facilidade no uso das tecnologias quanto parece. Sabem jogar, têm facilidade no uso das redes sociais, mas para usar as tecnologias como ferramenta de trabalho não estão preparados”, refere.

“As escolas não têm recursos técnicos para responder a todos os problemas, no caso dos agrupamentos é ainda mais complicado, porque temos um professor na sede de agrupamento que não se pode desdobrar por todas as escolas que o compõem. Se esse professor estiver em greve no dia do exame, pior ainda… Não temos professores de informática que cheguem. Não podemos garantir que todos os alunos possam usar o computador de forma sustentada”, alerta Manuel Pereira.

Filinto Lima é mais contundente e diz mesmo que “seria prudente não se realizar em formato digital” este ano e fazer um recuo para o papel e esferográfica. Mas teme que tal não seja possível. “Os exames envolvem uma logística imensa. Começam a preparar-se exames em papel em outubro ou novembro. E os serviços do IAVE estão focados para que os exames sejam em formato digital. Mas, se tiverem um plano B, acho que era prudente adiar a digitalização dos exames este ano”, sublinha.

“Quem dera que fosse possível e exequível”, remata.

Novos modelos de avaliação

Cristina Mota, porta-voz do movimento cívico de professores Missão Escola Pública, é professora de Matemática e testemunha o nervosismo que se vive nas salas de aula em torno da digitalização de um exame que tem uma ponderação de 30% na nota final do aluno.

A docente está preocupada, sobretudo, com a equidade entre os alunos e levanta outra questão: as escolas que estão a adotar novos modelos de avaliação que nem sequer passam pelos tradicionais testes. “Há muitas onde a avaliação é feita por projetos, o que faz com que estes alunos estejam a perder a preparação para este tipo de exames, o que lhes traz ainda uma condicionante adicional”, considera.

A suspensão da digitalização dos exames do 9.º ano foi uma das reivindicações que o movimento apresentou ao novo Governo, numa carta que enviou a Luís Montenegro, ainda antes deste ser indigitado como primeiro-ministro, e ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

A Missão Escola Pública não quer o fim dos exames de final de ciclo, porque lhes reconhece importância na responsabilização dos alunos e no cultivo de exigência que é preciso devolver às escolas. Mas, argumenta, para já é preciso dar um passo atrás e voltar, pelo menos este ano, à caneta e ao papel.

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