Leite sem grandes aumentos em janeiro mas resto do ano ainda é incógnita

Agência Lusa , MM
17 dez 2022, 11:33
Leite (Pexels)

Leite e seus derivados sofreram aumento abrupto, mas necessário, defendem produtores

O preço do leite e dos seus derivados não deverá ter uma grande alteração no início de 2023, mas o resto do ano continua a ser uma incógnita face à evolução dos custos de produção e ao contexto externo, adiantaram os produtores à Lusa.

“Em janeiro, pressuponho que não vai acontecer nenhuma alteração de grande monta. Durante o ano, é impossível estar a fazer algum tipo de conjeturas porque depende de fatores a que nenhum analista nos consegue dar respostas”, afirmou o secretário-geral da Federação Nacional das Cooperativas de Produtores de Leite (Fenalac), Fernando Cardoso, em declarações à Lusa.

No entanto, espera que se verifique “alguma acalmia”, uma vez que os rendimentos dos consumidores estão já a ser pressionados.

Fernando Cardoso referiu que uma nova subida do preço do leite estará sempre dependente de fatores como o custo da energia e a evolução da guerra da Ucrânia.

Ainda assim, disse esperar que os produtores consigam recuperar algum do seu rendimento, que foi perdido nos últimos anos.

“A passagem do ano é uma mera data que não tem uma importância decisiva em termos de preços”, notou.

No mesmo sentido, o secretário-geral da Associação dos Produtores de Leite de Portugal (Aprolep), Carlos Neves, disse não haver, neste momento, qualquer indicação que aponte para uma subida do preço do leite pago aos profissionais do setor e, consequentemente, do valor pago pelo consumidor final.

“Se houver alguma coisa, será muito ligeira”, sublinhou.

Porém, lembrou que o leite é um produto processado, estando assim sujeito a outros custos, como transporte, pasteurização e embalamento, que podem afetar o seu valor final.

“A evolução dos custos energéticos para os agricultores e para a indústria também é uma questão importante e não sei até que ponto pode afetar [o valor pago pelo consumidor]”, sublinhou, apesar de esperar que o impacto não seja significativo.

Quase 30 cêntimos de aumento

Segundo dados compilados pela Deco, organização de defesa do consumidor, um litro de leite UHT meio gordo custava 0,68 euros em 23 de fevereiro deste ano, valor que ascendeu a 0,96 euros no dia 07 de dezembro.

Neste período, um litro de leite UHT meio gordo registou o seu valor mais alto em 30 de novembro (0,97 euros).

Por sua vez, uma embalagem de 200 gramas de queijo flamengo fatiado passou de 1,99 euros para 2,65 euros, enquanto uma embalagem de 250 gramas de manteiga com sal passou a custar 2,32 euros, quando, em 23 de fevereiro, estava em 1,85 euros.

Já uma embalagem de 200 gramas de queijo curado fatiado teve um aumento, até 07 de dezembro, de 0,47 euros, passando de dois euros para 2,47 euros.

Um ‘pack’ de quatro unidades de iogurte líquido aumentou, no período em causa, 0,23 euros, estando o seu valor em 2,16 euros, enquanto um ‘pack’ de oito unidades de iogurte com aroma passou de 1,83 euros para 1,87 euros, tendo chegado a custar 1,89 euros.

Aumento tardio, abrupto, mas necessário

Uma evolução que os produtores consideram tardia, abrupta, mas necessária face à pressão que os custos de produção exercem no setor desde 2021.

“No caso do leite e dos produtos lácteos, a questão que se põe é mais por que é que aconteceu tão tarde? Nós já vínhamos a viver, até previamente à guerra da Ucrânia, com um aumento enorme da energia e dos alimentos para os animais produzirem leite”, defendeu o secretário-geral da Federação Nacional das Cooperativas de Produtores de Leite (Fenalac), Fernando Cardoso, em declarações à Lusa.

A invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro, fez disparar o preço da energia e também dos cereais.

Assim, conforme defendeu, “mais tarde ou mais cedo” teria que haver uma transmissão dos custos do produtor para o consumidor.

Esta transmissão acabou por acontecer muito tarde, levando a uma escalada repentina dos preços, situação que o setor reconhece, mas não deixa de notar ser imprescindível para a sua sobrevivência.

“O produtor não podia suportar mais este aumento de custos. É uma atividade que vive de margens reduzidas e teve mais um ano de défice”, referiu.

Fernando Cardoso lembrou ainda que rubricas como a energia, alimentos para animais, fertilizantes, fitofármacos e mão-de-obra representam entre 80% a 90% dos custos de produção do leite, daí a necessidade de se verificar um aumento.

“Houve um acumular de situações que não foram transmitidas e quando chegou, aconteceu de uma forma muito marcada para o consumidor e nós reconhecemos que isso aconteceu, mas teria que acontecer. Não podia ser de outra forma”, reiterou.

O secretário-geral da Associação dos Produtores de Leite de Portugal (Aprolep), Carlos Neves, por seu turno, lembrou ainda que para este aumento também contribuiu a seca, que levou mesmo muitos produtores a abaterem os seus animais.

“Não tendo forragens e pastagens e tendo a ração muito cara, muitos produtores optaram por abater animais, o que levou a reduzir a produção e obrigou os vários compradores a subirem o preço ao agricultor e a repercutirem isso no preço de venda”, explicou.

Questionado sobre se o preço ao produtor também aumentou, Fernando Cardoso adiantou que Portugal está agora “muito mais perto” da média comunitária.

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