"Ciganofobia em Portugal". Associações ciganas apresentam queixa contra presidente da Câmara de Elvas

Agência Lusa , DA
17 out, 15:11
Família Cigana

Bruno Magalhães, vice-presidente da associação Letras Nómadas, afirma que não vai “permitir que sejam os políticos a reforçar a ciganofobia em Portugal”. Isto depois de Rondão de Almeida, presidente da Câmada de Elvas, ter desafiado o “pessoal da etnia cigana” a ser “capaz de apresentar um contrato de trabalho” que se verifique “rendimentos para poder pagar uma renda acessível”

Associações ciganas e a organização SOS Racismo acusaram, esta terça-feira, de discriminação o presidente da Câmara de Elvas, Rondão de Almeida, que disse duvidar da capacidade dos ciganos para conseguirem arrendar fogos municipais.

Em declarações à Lusa, Bruno Magalhães, vice-presidente da associação Letras Nómadas e um dos subscritores de um pedido urgente de audiência com a secretária de Estado da Igualdade e Migrações por parte de várias associações ciganas, acusou o autarca de “reforçar o estereótipo de que os ciganos não trabalham”.

“Existem estes mecanismos democráticos que nos permitem fazer queixa contra tudo isto e não vamos permitir que sejam os políticos a reforçar a ciganofobia em Portugal”, afirmou Bruno Magalhães, adiantando que 11 associações ciganas já fizeram uma queixa coletiva junto da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR).

Numa cerimónia a 6 de outubro, de lançamento da Estratégia Local de Habitação de Elvas, Rondão de Almeida, hoje eleito por um movimento independente, evocou o seu passado de autarca socialista e reagiu às críticas da oposição local que o acusavam de estar a lançar a primeira pedra para 60 fogos que seriam destinados à população cigana.

“Meus caros amigos, se o pessoal da etnia cigana for capaz de apresentar um contrato de trabalho e, nesse contrato de trabalho, se verificar que tem rendimentos para poder pagar uma renda acessível, estaremos abertos. Duvido é que apareça alguém, neste caso da etnia, com contrato de trabalho para poder ir para aquilo que hoje vai ser inaugurado”, disse o histórico autarca, na presença da ministra da Habitação, Marina Gonçalves.

“O que nós vimos é lamentável e repudiável”, com um autarca a “dirigir-se a uma comunidade, excluindo-a automaticamente de um equipamento que vai ser construído com dinheiro do PRR”, afirmou Bruno Magalhães, criticando o facto de Rondão de Almeida considerar que “não há nenhum cigano, português e elvense, que tenha requisitos para concorrer aos fogos que, em breve, irão ser construídos na cidade”.

Essas palavras foram ditas “na presença da ministra da Habitação, que, de forma passiva, deixou que aquele senhor passeasse pelo preconceito”, acusou o dirigente.

“Não podemos aceitar que os portugueses ciganos sejam excluídos à partida, para acalmar as hostes de alguma população racista em Elvas”, acrescentou o responsável associativo, que exige uma “resposta clara” do Governo quanto a esta matéria.

“Ou então nós vamos fechar as nossas portas, porque não adianta trabalhar neste país, porque temos um governo que permite estes discursos”, sublinhou.

Por seu turno, a SOS racismo acusou, em comunicado, o autarca de Elvas de estar a reforçar “estereótipos prejudiciais e falsos”.

“Rondão de Almeida demonstrou hoje, sem margem para dúvidas, a sua convicção de que não há nenhum membro da comunidade cigana com contrato de trabalho em Elvas. No entanto, é de notar que nas eleições locais, foram, sem dúvida, os votos dos elvenses ciganos que contribuíram para a sua eleição, por uma margem mínima”, pode ler-se no comunicado da SOS Racismo.

A agência Lusa tentou obter um comentário do presidente da Câmara de Elvas sobre esta polémica, mas fonte do gabinete do autarca remeteu para mais tarde uma resposta.

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