Só há uma mulher nos deputados do Chega. E é antifeminista

31 jan, 21:18

Ao eleger 12 deputados, o Chega tornou-se a 3ª força política do país. Entre os novos parlamentares há 11 homens e apenas uma deputada - Rita Maria Matias: “Acho que é indiferente ser a única mulher. Estamos lá pelo mérito e não por ser de um sexo ou de outro”. A CNN explica-lhe quem são e o que fazem os eleitos pelo Chega que estão a caminho da Assembleia da República

Rita Maria Cid Matias tem 23 anos, durante algum tempo geriu as redes sociais do Chega e é o único elemento feminino do grupo de 12 deputados eleitos pelo Chega.  A politóloga assume-se como grande defensora da família tradicional e é contra a despenalização do aborto. E não esconde a sua total oposição ao conceito de “feminismo que está hoje representado no parlamento e em algumas associações”.

“Não falam das reais necessidades das mulheres”, diz, argumentando que não compreende a ideia de esse femininismo "radical " preconizar que o sexo feminino deve ter uma voz através de “uma competição entre homem e mulheres” , colocando “as pessoas em oposição”

“As causas das mulheres, laborais e familiares, ganham mais com os homens do nosso lado. Não é com um dialogo de agressão que vamos conseguir conquistar o quer que seja.” Segundo a nova deputada, que iniciou a sua atividade política próxima da Juventude Popular do CDS-PP, tendo decidido mudar de partido quando surgiu o Chega de André Ventura, as feministas ignoram até certos assuntos. “Há temas, como as duas mil portuguesas que não tiveram os contratos renovados por estarem grávidas ou a violência obstétrica, de que esse feminismo não fala. Mas depois lutam de forma histérica por outras pequenas conquistas”, diz Rita Matias, que é filha do ex-líder do Partido Pró-Vida/Cidadania e Democracia Cristã (PPV/CDC) Manuel Matias, assessor e ex-cabeça de lista do Chega nas legislativas de 2019.  

Rita Maria Matias, eleita nas legislativas de domingo por Lisboa , diz assim ser “antifemininista nessa forma de opor o homem e mulher e na procura de vitimização”.

Ser a única mulher no grupo parlamentar do Chega não é, garante, um fator importante. “Acho que é indiferente. O Chega é um partido meritocrata. Estamos lá pelo mérito e não por se ser homem ou mulher.” Foi convidada a entrar na direção do partido por André Ventura no II Congresso do Chega

Além de André Ventura,  o grupo parlamentar conta com mais 10 homens. 

António Filipe Dias Melo Peixoto, 33 anos, gestor

Conhecido como Filipe Melo, é formado em relações internacionais. Foi bancário durante 15 anos no antigo BES. É gestor de empresas há seis anos. Esteve envolvido em várias polémicas e recentemente a concelhia de Barcelos do Chega retirou a confiança politica à direção distrital de Braga, órgão liderado Melo. A decisão foi tomada depois de a distrital de Braga ter feito duas ações de campanha em Barcelos sem antes se reunir com a concelhia.

Esteve também envolvido numa outra polémica no partido, ao ser acusado de xenofobia pela ex-dirigente do Chega de Braga Cibelli Pinheiro de Almeida. “Qual será a verdadeira razão de ser perseguida dentro do partido? Será porque sou cristã, brasileira, branca ou mulher?”, questionou num artigo que publicou.

Filipe Melo consta ainda da lista pública de execuções do Ministério da Justiça, estando envolvido em três processos no Tribunal Judicial da Comarca de Braga com uma dívida de 80.493,55 euros ao Estado.

Foi eleito por Braga.

Pedro Miguel Soares Pinto, 44 anos, empresário no ramo da organização de espectáculos

Cabeça de lista pelo círculo eleitoral de Faro, é atualmente secretário-geral adjunto do Chega. Tirou o curso de Relações Internacionais na Universidade Autónoma de Lisboa, foi empresário e jornalista, tendo sido ex-diretor da Revista “Ruedo Ibérico”, dedicada ao acompanhamento da tauromaquia.

Pedro Pinto foi dirigente do CDS-PP de Portalegre mas desfiliou-se do partido em 2019, altura em que tomou a liderança da distrital de Beja do Chega e foi cabeça de lista pelo Chega ao círculo eleitoral desse distrito.

Na sua página de Facebook oficial chama as alterações climáticas “uma charada politicamente correta” e defende que o “lugar dos assassinos, violadores, pedófilos é ficar na cadeia para sempre”.

Foi eleito por Faro.

Gabriel Sérgio Mithá Ribeiro, 57 anos,  professor e investigador

Foi filiado no PSD durante 15 anos, de onde saiu para se juntar ao partido de André Ventura. Gabriel Sérgio Mithá Ribeiro teve uma ascensão rápida à vice-presidência do partido. É licenciado em história pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 

Defende que o racismo “deixou de existir no século XXI”, com o fim da colonização europeia e do apartheid na África do Sul. Numa intervenção numa conferência da Fundação Alexandre Gusmão defendeu uma nova designação para a palavra racismo,  “sem a mesma forte carga histórica entretanto desaparecida”. Na mesma intervenção propôs que as escolas alterem a forma como ensinam o período colonial, destacando que é "preciso também olhar para as coisas boas". "Os europeus trouxeram a escrita, a higiene e o vestuário", enlencou como fatores positivos da época colonial.

Foi eleito por Leiria.

Rui Paulo Duque Sousa, 53 anos, empresário agrícola

Foi simpatizante do CDS-PP e dirigente do Partido Aliança em Santarém, onde chegou a ser cabeça-de-lista por esse partido nas eleições legislativas de 2019. É empresário agrícola e a sua formado é em Gestão. Mas começou a sua atividade profissional dedicado à área de informática.

No Chega liderou a Comissão de Ética, que suspendeu 12 militantes do partido no espaço de três meses e que esteve associada à “lei da rolha” imposta por Ventura em dezembro. De acordo com essa norma, a partir do dia 2/12/2020 foram "imediata e severamente sancionadas todas as publicações [na Internet ou outros meios] de militantes" que se destinassem "a continuar este permanente clima de guerrilha que favorece os que querem destruir o Chega”

Foi eleito por Lisboa.

Pedro Manuel de Andrade Pessanha Fernandes, 54 anos, Reserva Naval Oficial dos Fuzileiros

Foi militante do CDS, de onde foi expulso em 2013, e integrou o Movimento Independente “Ser Cascais”. É licenciado em Gestão Imobiliária. Fez uma pós-formação em Gestão Imobiliária pelo IST. Ex-dirigente do CDS como presidente do Núcleo de Cascais. Saiu do país em 1975 quando tinha 9 anos e regressou em 1986, com 20 anos.

Foi eleito por Lisboa.

Rui Pedro da Silva Afonso, 42 anos, bancário

Tem 42 Anos, é bancário e presidente da distrital do Chega no Porto. Em julho de 2021 foi criticado internamente por ter dito que o Chega é “um partido muito jovem" e "permeável a ações de guerrilha, desencadeadas por pessoas ressabiadas, algumas delas ex-líderes partidários com sede de poder e que olham para o partido como a tábua de salvação para as suas frustrações pessoais e para os seus problemas profissionais e financeiros”. Defende a castração química de pedófilos, a prisão perpétua e classifica o orçamento do Serviço Nacional de Saúde como uma "rede de interesses do PS".

Foi eleito pelo Porto.

Diogo Velez Mouta Pacheco de Amorim, 73 anos, assessor parlamentar

Neto de Diogo Pacheco de Amorim, um monárquico próximo de António de Oliveira Salazar que foi deputado na Assembleia Nacional de 1935-1938 e de 1945-1949, é visto como um dos ideólogos do Chega. É licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra.

Fez parte de movimentos estudantis que contestavam a descolonização e teve ligações com o Movimento Democrático de Libertação de Portugal. Foi assessor do vice-primeiro Ministro Diogo Freitas do Amaral no 1º Governo da AD e chefe de gabinete do grupo parlamentar do PP entre 1995 e 1997.

Esteve no CDS 15 anos, de onde se afastou, voltando ao partido com a chegada de Manuel Monteiro. Devido às eleições presidenciais de 2021 foi o nome escolhido para substituir André Ventura no Parlamento para este se dedicar à campanha, mas o pedido foi rejeitado.

Foi eleito pelo Porto.

Pedro Saraiva Gonçalves dos Santos Frazão, 46 anos, veterinário

Vice-presidente do Chega e vereador da oposição na Câmara de Santarém.  Ganhou notoriedade no segundo congresso do Chega, foi processado por Francisco Louçã depois de ter escrito no Twitter, no dia 14 de novembro de 2021, que o antigo líder do Bloco de Esquerda foi avençado do Banco Espírito Santo. O caso tem julgamento marcado para este mês.

Quando Joacine Katar Moreira abandonou o Parlamento, Pedro Frazão publicou uma mensagem onde tapou duas letras de um autocolante à porta do gabinete da ex-deputada em que em vez de "descolonizar" se passou a ler "desco**nizar".

Pai de 8 filhos, foi candidato à Câmara Municipal de Santarém nas autárquicas de 2021, distrito por onde foi eleito nas legislativas e onde o PCP não conseguiu eleger António Filipe. “Quando se soube, fizemos um brinde e o Ventura deu-me um abraço”, contou Pedro Frazão à CNN Portugal.

Foi eleito por Santarém.

Bruno Miguel de Oliveira Nunes, 44 anos, vereador em Loures

Ex-deputado da Assembleia de Loures, eleito em 2017 como independente pelo PPM em coligação com o PSD e candidato à presidência da Câmara de Loures em 2021. Consultor e administrador de empresas. Ao jornal O Setubalense disse que Ventura era o “Ronaldo da política” e, no Twitter, atacou Joacine K. Moreira, dizendo que a ex-deputada “fez mais para alimentar o racismo num mês que os racistas nos últimos 50 anos”.

Foi eleito por Setúbal.

Jorge Manuel de Valsassina GaIveias Rodrigues, reformado, 69 anos

Presidente da mesa do conselho nacional do Chega, aquando da reeleição de Ventura em novembro de 2021 esteve no centro da impugnação de uma das listas concorrentes à eleição de delegados na distrital de Lisboa, referindo que essa mesma lista apresentou “irregularidades insanáveis”. Foi ainda coordenador autárquico do Chega na região Centro. 

Foi gestor e realizador de uma produtora de spots publicitários e programas de televisão e entre 2010 e 2019 esteve à frente de uma empresa de gestão turística chamada Lisbon Holidays. No início de 2020 reformou-se.

Foi eleito por Aveiro.

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