Como Jerónimo de Sousa foi parar a deputado sem saber fazer uma lei: "Conhecia a vida" (entrevista na íntegra)

CNN Portugal , Anabela Neves
30 dez 2021, 22:24

Jerónimo de Sousa diz à CNN Portugal nesta entrevista exclusiva que tentou salvar o OE no domingo anterior ao chumbo mas afirma que o PS já tinha tudo tão "dramatizado" que não era possível evitar as eleições. Facto que lamenta: "Era possível ter dado passos adiante" se o Governo continuasse em funções

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Este caminho é o seu caminho habitual aqui dentro da Assembleia da República há muitos anos.

É verdade, com muitos anos. Foi uma vida…

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Uma vida…

Em termos de participação, como deputado constituinte, depois da Assembleia da República. Fiz ali uma pausa em 1993, creio, mas depois regressei.

Claro. Gostas destas passadeiras vermelhas? São uma espécie de ex-líbris aqui da ‘casa’.

Sim. Primeiro, tinham uma imagem pesada, tendo em conta as características do edifício, mas o vermelho sabia bem ver, exatamente.

Dizia-lhe alguma coisa o vermelho, não é? (risos)

É um facto. É um facto.

Operário metalúrgico sem pergaminhos na luta contra o fascismo. Como é que veio parar aqui? Dizem que caiu no goto do Álvaro Cunhal.

Pois, eu não sei. Sei que, um dia, fui chamado na altura à (Rua) António Serpa, sede do partido e, num conjunto de quatro camaradas, aqueles fundadores do partido e tal, chamaram-me, eu entrei e disseram: “Então olha, Jerónimo. Estivemos a ver-te e tu vais para deputado para a (Assembleia) Constituinte”.

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Apanhou um susto?

E eu, sério, perguntei: “Mas o que é que é isso, ser deputado à Constituinte?”.

Tem toda a razão. Quer explicar às pessoas o que foi ser deputado à Constituinte? Há muita gente que não sabe, como imagina.

Em primeiro lugar, eu repito esta história muitas vezes, isto (Assembleia da República) era um fervilhar de gente, e veio um contínuo com os papéis para preencher, o cartão de deputado, portanto, para a previdência e tal. O homenzinho, muito respeitoso: “Faz favor, senhor doutor”. 1975, operário metalúrgico…

Eu imagino (risos)

E eu pus a minha cara n. º3 e disse “Eu não sou doutor!”. E o homem: “Ai desculpe, senhor engenheiro.”

Eram todos doutores ou engenheiros. Ainda são, ainda há um bocadinho isso.

Mas depois, portanto, foi a própria descoberta, que esses camaradas me explicaram: eu vinha para deputado, não sabia fazer uma lei, mas conhecia a vida.

Passados estes anos todos ainda acha que faz sentido um partido comunista com uma certa ortodoxia, porque ainda a mantém, a perder eleitorado. Ainda faz sentido?

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O partido… chamar-lhe ortodoxo é exagerado.

No seu caso pode ser exagerado. Não tem esse ar tão ortodoxo.

É manifestamente exagerado. A Anabela (Neves) estará de acordo comigo que ainda é uma força, mesmo no plano eleitoral, de grande significado. Com as câmaras que tem, com os dois mil eleitos nas autárquicas, com maiorias em grandes concelhos…

Deixe-me só dizer aqui aos telespetadores, que não o estão a ver neste momento, que aqui temos a entrada para os gabinetes do PCP, onde costuma estar e de onde eu vi sair muitas vezes João Oliveira, líder parlamentar, e não apenas, vários dirigentes com os dossiês a caminho das reuniões da maioria de esquerda, da chamada Geringonça. Foi um período extraordinário da relação à esquerda, esses primeiros quatro anos? Viu provavelmente, também, alguns desses momentos, eles a saírem com os dossiês.

É uma nova fase da vida política nacional. Criou-se a ideia errada da existência de um Governo de maioria quando não, era um governo minoritário do Partido Socialista. E dizemos isto à vontade porque o resultado das eleições e a relação de forças permitiram, digamos, encontrar essa nova fase.

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Mas gostou da Geringonça? Valeu a pena essa maioria de esquerda

Valeu a pena por aquilo que conseguimos a alcançámos para bem dos trabalhadores e dos portugueses. Fizemos o melhor que sabíamos e podíamos…

Já agora só uma pergunta: muitos telefonemas para António Costa ao longo destes anos? Em particular, a partir deste gabinete. Muitas conversas? Tinham uma boa relação, sempre tiveram. Ainda a mantêm?

Mantém-se porque, no nosso relacionamento, houve sempre uma coisa que em o Partido Comunista Português esteve bem: foi sempre a procura de soluções, a franqueza, a seriedade com que colocávamos as questões, as propostas. Um debate muito intenso…

Mas continua a falar com ele pelo telefone?

Se necessário, sim. O último foi em relação, por exemplo, à questão da pandemia, em relação às medidas que o governo iria anunciar. Houve um telefonema que nós consideramos importante porque, independentemente do desfecho da solução política encontrada, nós continuamos a pensar que valeu a pena.

Então vamos lembrar alguns dos momentos agora no sítio onde eles aconteceram, ali à Sala do Hemiciclo. (Entram na sala). [Entrámos pelo] corredor do PCP.

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Partilhado por outros.

Exatamente, estamos aqui a fazer o seu trajeto habitual. Lembra-se dos – com certeza que se lembra – dos primeiros apertos de mão da Geringonça, no primeiro Orçamento do Estado, quando António Costa sai da bancada do Governo e vem aqui cumprimentar?

No fundo, é o reconhecimento pelo papel do Partido Comunista Português. A grande questão é que estavam a ser deitadas para trás das costas questões importantes, estruturantes. Por exemplo: a questão dos salários. Salário mínimo, salário médio. Hoje temos um problema sério, em que há centenas de milhares de trabalhadores com vínculos precários, com um salário mínimo em que levam 500, 600 euros para casa…

Fez alguma diligência de última hora (por causa do Orçamento do Estado)? Tive a informação que teria feito uma diligência de última hora.

Sim, sim. Houve ali um esforço, um empenhamento. Porque nós não chegámos e ali e dissemos “temos estas propostas, ponto final parágrafo”. Não, nos apresentámos as propostas e até uma possível reconsideração de algumas questões, designadamente em relação ao valor, e a sua aplicação, do Salário Mínimo Nacional (SMN).

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Ou seja, a proposta final teve a ver com o valor do SMN?

Sim, foi uma última diligência, em último esforço que fizemos, de que era possível 800 euros para o ano de 2022. Mesmo em relação à contratação coletiva, chegámos a estar ali à beira de uma consideração da suspensão desse instrumento. Mas depois as coisas começaram, digamos, a ficar mais dramatizadas. E quando digo que há um momento em que António Costa decide “se é assim, então vamos para eleições” …

Acha que a culpa foi dele?

A culpa é uma opção.

Os eleitores podem penalizar o PCP.

Basta agarrar no que foi alcançado, no que foi conquistado, no que foi reposto para os trabalhadores, PME, agricultores, trabalhadores em lay-off, creches, manuais escolares.

Deixe-me só recordar esse dia, porque foi um dia um pouco dramático. Não houve palmas nesta sala quando o Orçamento foi chumbado. Eu nunca tinha, como repórter parlamentar, nunca tinha assistido. Normalmente, quando se derruba ou chumba alguma coisa, a oposição aplaude. Estava tudo com um ar sombrio. Sentiu esse ambiente?

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Sim porque, obviamente…

Nem a direita parecia contente.

Esses avanços que tinham sido alcançados poderiam ser colocados em causa numa reconsideração resultante de uma outra relação de forças.

Se a direita voltar ao poder, não se sente responsável. Pode acontecer, é uma escolha do eleitorado.

Não. Não porque a vida faz-se, e a política faz-se com realismo, com sinceridade e com clareza e, neste caso concreto, verificámos que o Partido Socialista, não querendo reconsiderar essas suas propostas… eu não estou a dizer que o PS governe com um programa do PCP, mas o que lhes dizemos é que, para o bem, para os avanços, contam com o Partido Comunista Português em qualquer circunstância.

Podem contar no próximo ciclo? Vê novamente António Costa aqui a negociar consigo, ou acha que António Costa pode ir à vida dele.

Isto não se repete, mas há uma coisa que o Partido Comunista Português defende neste momento que é, perante os problemas, perante as necessidades do país, a possibilidade de convergência de forças e setores democráticos. Convergência, naturalmente, verificando os seus conteúdos.

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Mas nada de acordos escritos? Isso está claro?

Claro.

Mas como é que quer construir alguma coisa sólida, uma maioria à esquerda novamente, num segundo ciclo depois deste, sem um acordo, sem nada?

Como é que eu quero? Então, o que a Anabela está a dizer é que nós temos, com fatalismo, de aceitar medidas que comprometem a vida, a qualidade de vida e os direitos de quem trabalha. É uma opção, mas o PCP fez outra opção. Fez a opção do lado de quem trabalha, dos que menos podem.

Não se sentiu pressionado pelo Comité Central nesse caminho?

Não!

Porque parecia triste. Eu peço desculpa, eu lembro-me desse dia, parecia triste aqui nesta bancada.

Porque era possível ter dado passos adiante que hoje ainda estariam, portanto, na ordem do dia, mas o Partido Socialista fez uma opção. Faça um Orçamento que responda aos problemas das pessoas e vai ver que as pessoas estão de acordo.

Eu não sei com que parceiro…

A vida dá muitas voltas.

Pedro Nuno Santos?

Eu… eu não gosto nada de me meter na vida de outros partidos.

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Mas pode não haver António Costa no próximo ciclo e pode ser Pedro Nuno Santos. Para uma maioria de esquerda. Se for um outro, tipo Fernando Medina, provavelmente não vai acontecer.

Uma coisa lhe garanto: nós não vamos votar a favor do Pedro nem de outro qualquer dentro do Partido Socialista. É uma questão que diz respeito ao Partido Socialista porque ‘quem sabe do convento é quem vive lá dentro’.

Isto é uma boa deixa para a parte seguinte da nossa conversa. Vamos até lá

(Em Pirescoxe)

Viveu toda a sua vida aqui em Pirescoxe. Aliás, é uma das aldeias mais famosas por causa de ser onde viveu. A sua vida não mexeu muito durante esses anos. Parece um bocado como o PCP ou não?

Não, não se alterou em termos de formas de estar na vida, forma de intervenção, de realização pessoal, naturalmente. Nasci aqui nesta terra que tem muitas particularidades. Em primeiro lugar, o castelo, que sempre nos permitia sonhar com cavalos e cavaleiros.

É quase uma personagem de “Esteiros”, da belíssima obra de Soeiro Pereira Gomes. Porque os homens que não miúdos não têm tempo de ser miúdos. Foi o seu caso?

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Sim, creio que se pode aplicar.

Começou a trabalhar aos 14 anos.

Aos 14 anos porque era a idade legal permitida. Mas toda uma experiência vivida aqui em Pirescoxe… em que sabíamos que íamos ter à fábrica. Não era uma questão fatalista, era uma questão de objetividade, realista. Não valia pena pensarmos se iríamos ser doutores ou engenheiros, não. Iríamos ser operários. Ali, na fábrica, ganhei a chamada consciência de classe.

Pois, isso eu sei. E foi aí que os olheiros do PCP ‘olharam’ e viram.

Exatamente. Eu era um jovem, mas um bocado atrevido, combativo. Nos plenários reivindicativos, era ali o porta-voz.

Fundou aqui a Associação Recreativa e Cultural de Pirescoxe, costuma jogar às cartas lá. E costumava dar uns pés de dança, que ainda dá. Eu lembro-me de uma campanha em que andou a dançar. Bom bailarino, bom dançarino.

Acho que aquilo foi um efeito surpresa. Eu próprio fiquei surpreendido com a admiração de eu dançar quando considerava, ao longo dos anos aqui, nos bailaricos aqui do lugar… e eu tinha a mania que dançava bem.

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E dançava! Eu tenho quase a certeza que dançava!

E isso, digamos, também criava uma forma de estar na vida.

Quando chegou, num registo muito popular, à liderança, quase há 17 anos… adágios que lhe saíam, ditados que lhe saíam da boca para fora, muito humor… mas o que se sente é que também perdeu um bocadinho disso, parece mais cansado ou não? É a idade, é o peso desta Geringonça, o que é que aconteceu?

É evidente que os anos passam e pesam. Isso acontece a todos, naturalmente. Mas não estou cansado, não estou. Seja no plano anímico, seja no plano emocional. Agora, o peso das responsabilidades, esta conjuntura que nós vivemos no plano nacional, e mesmo no internacional, isso pesa naturalmente no esforço e no empenhamento, nas iniciativas e nas grandes realizações.

Mas deixe-me só interromper. Imagino que saiba que já olham para si como um “avôzinho” que deveria estar em casa e não andar nisto. Isto até é ternurento, acho eu, em muitos momentos. Não devia já estar mesmo em casa a descansar?

Não. Aliás, a própria reação mais sincera é, por exemplo, das pessoas. “Ah, mas você parece muito mais novo! Ah, você é mais alto!”

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A televisão é terrível…

É uma reação em que, naturalmente, não me tratam por novo nem eu finjo isso.

Havia uns ‘zum-zuns’ que sairia até março, aproveitando o facto do centenário do PCP. Poderia ter sido uma boa hipótese se não acontecesse esta crise?

Não. Há a afirmação de que um dia sairei. É lógico. Aliás, temos ali – pena não poder apresentar – uma oliveira com 3 mil anos. Eu não quero durar tanto, mas vou tentar. Desdramatizando, porque tem mesmo de ser desdramatizado. Como é sabido, a direção do meu partido, o Comité Central, tem todas as condições…

Mas tem como hipótese a saída?

Nós fazemos a avaliação com a minha opinião, naturalmente, com a minha contribuição. Mas eu quero dizer-lhe que, seja qual for a decisão do Comité Central, agora ou mais à frente, eu tenho uma tranquilidade imensa de ter procurado fazer aquilo que sei fazer, procurando fazer o melhor.

João Ferreira. Dizem que é muito querido pelas bases, que é tão bom dirigente, que é tão boa pessoa. Eu não sei, não o conheço pessoalmente. Vê-lo-ia com bons olhos a ‘calçar os seus sapatos’?

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Em termos de boa visibilidade, também estou nesse grupo que admira a capacidade do João Ferreira. Mas quando afirmamos que, naquele Comité Central, existem quadros dirigentes jovens com uma grande capacidade… Eu não afunilava tanto no João Ferreira.

Tem mais opções?

Sim, temos. Figuras como o João Oliveira, como o próprio Bernardino Soares, um [João] Frazão... Um conjunto de quadros [tão bom] que o partido vai ter dificuldade em encontrar solução. Embora com esta ideia: o Comité Central decidirá bem de certeza. Posso garantir-lhe com franqueza, aqui aos telespetadores que, aquilo que a direção do meu partido me diz é para continuar. Há que continuar.

Consigo?

Comigo.

Então ainda está a imaginar-se para lá do dia 30 de janeiro

Dia 30 de janeiro deve ser a marca para ver resultados e tirar as conclusões políticas. Estamos a falar no plano da direção. Dá-me um conforto tão grande sentir o apoio e a solidariedade de muitos e muitos camaradas, particularmente do Comité Central.

Mesmo que o resultado não seja bom, continuar mais algum tempo?

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Não sei o futuro, mas acho que, em relação a essa questão, a direção do partido está consciente que da vida, da realidade, da minha idade, mas, simultaneamente, essa confiança que nos dá uma força tremenda.

Ainda é o melhor ativo do PCP para continuar, é isso que quer dizer?

Isto elogio de boca própria não dá (risos). Mas sabe, eu tenho esta… quando falava em tranquilidade, é a certeza de que um dia, naturalmente, haverá a substituição. Mas esta ideia de que vou continuar lá pelo PCP… não é para fazer qualquer vigilância ou andar por aí. Mas estarei, com alteração das responsabilidades, no meu partido. Sempre. Essa é a convicção profunda e conto com esses meus camaradas, os mais novos, com dinâmica e capacidade, para defender este partido. E isso dá-me um conforto enorme, imenso. Não estou a olhar para trás ainda.

Muito obrigada por esta entrevista!

Obrigado eu!

E deixo-o a gozar o dia, está assim meio chuvoso, mas ainda vale a pena gozá-lo.

Isto é muito bonito. Valeu a pena ter nascido nesta terra.

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Muito obrigada, Jerónimo de Sousa

Saúde.

 

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