"Muitos espectadores não vão ver o palco": engenheiros e arquitetos avaliam o altar para o Papa e não sabem como é que pode ser reutilizado

30 jan, 21:18
Um altar-palco construído em cima de um aterro e com três andares de altura: uma construção de polémicas

Carlos Moedas disse que sim, esta estrutura é para reutilizar. O seu vice também disse o mesmo. Os especialistas têm muitas dúvidas sobre isso - eis o que dizem (e apontam sobretudo problemas de visibilidade e de som)

Durante a apresentação do palco-altar que vai servir para receber o Papa Francisco na Jornada Mundial de Juventude (JMJ), o vice-presidente da Câmara de Lisboa, Filipe Anacoreta Correia, sublinhou o facto de a utilização do altar-palco não se esgotar neste evento e afirmou que já estão a ter “manifestações de interesse” para que o palco seja utilizado em “futuros eventos” de cariz musical ou cultural, embora não tenha especificado. Especialistas ouvidos pela CNN Portugal levantam várias questões acerca da viabilidade do projeto para eventos futuros.

“É uma obra que exorbita as suas necessidades. O palco-altar até poderia ser uma obra de arte que nos envaidecesse mas não o é. A partir de 100 metros as pessoas já não veem o palco. É preciso ter aquela altura toda?”, questiona o engenheiro António Segadães Tavares, especialista responsável pela edificação da cobertura do pavilhão de Portugal na Expo 98.

O especialista responsável pela edificação da cobertura do pavilhão de Portugal na Expo 98 sublinha que o recinto, onde são esperadas 1,5 milhões de pessoas, está localizado num aterro e é relativamente plano. Esse facto implica que muitos dos espectadores não vão ter qualquer visibilidade para o palco.

Os especialistas reconhecem que é difícil avaliar o projeto sem ter conhecimento detalhado do plano que a Câmara Municipal de Lisboa quer implementar, no entanto os arquitectos ouvidos pela CNN Portugal afirmam que existem vários problemas na solução que é conhecida. Para o bastonário da Ordem dos Arquitetos, tanto para a Jornada Mundial da Juventude como para futuros eventos é importante ter em conta a visibilidade dos espectadores e não é certo que esse fator tenha sido acautelado.

“Avaliar um projeto a partir de uma perspetiva é pouco, mas espero que o projeto tenha sido estudado. É, por exemplo, muito importante salvaguardar que as pessoas têm uma boa visibilidade, embora acredito que este projeto seja apoiado com grandes ecrãs de imagem aproximada, uma vez que estamos a falar de distâncias muito grandes”, sublinha Gonçalo Byrne em declarações à CNN Portugal.

Dias depois do anúncio, o próprio presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, insistiu que estas estruturas são para ser reutilizadas no futuro e não devem ficar restritas ao uso durante a Jornada Mundial da Juventude. "Nós queremos que esse palco e muitas dessas infraestruturas fiquem para o futuro", explicou o autarca, embora não tenha especificado que tipo de eventos a autarquia planeia para usar a infraestrutura.

Outros problemas

O arquiteto Júlio Rodrigues sublinha o facto de a estrutura estar direcionada a norte numa zona muito ventosa pode colocar em causa a qualidade do som, caso o espaço seja utilizado para concertos. “A estrutura está virada a norte numa zona extremamente ventosa, o que poderá afetar a qualidade do som e da sua projeção em eventos como concertos, por exemplo.”

Segundo detalhou o vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Filipe Anacoreta Correia, o palco vai ter capacidade para 2.000 pessoas (1000 bispos, 300 concelebrantes, 200 membros do coro, 30 intérpretes de língua gestual, 90 elementos de orquestra, 'staff' e equipa técnica), terá dois elevadores e uma escadaria central, numa área de implementação de 5.000 metros quadrados (equivalente a meio campo de futebol).

“É uma megaestrutura difícil de mobilização e reutilização, parece-me sensato dividir em várias estruturas que se pudessem unir de forma a reutilizar em elementos mais pequenos, ou seja, vários palcos que se podiam unir ou não”, sugere Júlio Rodrigues.

Um dos elementos mais controversos do projeto é a cobertura desenhada para o palco, que, devido ao peso que exerce num terreno pantanoso, obriga a maiores cuidados no que toca às estruturas onde assentam os alicerces da obra. Para o engenheiro António Segadães Tavares, esta solução aparenta “não ter sido pensada” e deviam explorara-se “as melhores soluções possíveis e escolher a mais adequada”, algo que garante não ter sido feito.

“Porquê esta solução? Há soluções muito mais económicas. Há soluções que não obrigam a ter estas intervenções. A solução nem me parece pesada. Mas porquê uma solução do tipo de vela, com tirantes e lonas ou material que permita a cobertura do recinto. É utilizado noutros sítios e resulta”, afirma.

Questionado sobre se a cidade de Lisboa irá beneficiar a longo prazo com esta intervenção, Gonçalo Byrne explicou que o investimento deveria ser acompanhado de um plano económico que avaliaria o “custo benefício” da obra, para determinar a sustentabilidade da mesma. Porém, o bastonário admite que talvez existam potencial custo-benefício para a cidade. “Não se deve fazer um investimento deste tipo sem haver um plano prévio do custo-benefício. Isso é uma das condições da sustentabilidade de uma obra. Não lhe sei dizer se é muito ou se é pouco. Talvez fosse possível existir soluções com um custo benefício melhor.”

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