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Óscar, estás a ouvir? Crónica de uma festa anunciada

24 mar, 21:00

A Academia de Hollywood prepara-se para celebrar o melhor do Cinema debaixo de críticas. A exclusão de oito óscares da cerimónia gerou um mal-estar que parece impossível de ultrapassar. Porque todos os artistas devem estar em pé de igualdade, Jessica Chastain pode faltar à passadeira vermelha

Quem viu os Óscares nos últimos anos, verá uma festa diferente este domingo à noite. Para encurtar um espetáculo demasiado longo e cada vez com menos audiências e menos receitas, a produção subtraiu várias categorias ao alinhamento do que se vai mostrar ao mundo, a partir de Los Angeles.

Na prática, isso significa que há oito Óscares que vão ser anunciados e entregues enquanto as câmaras ainda estiverem apontadas para a passadeira vermelha e, dessa forma, as respetivas classes artísticas passam para um segundo plano, menos exposto, quase clandestino.

Sem surpresa, a evidente despromoção foi recebida como um insulto pelos profissionais da Montagem, Caracterização, Banda Sonora, Direção Artística, Som e Curta-Metragens em documentário, animação e imagem real. Mas não só.

Do mal-estar dos nomeados à indignação coletiva, foi um passo. Com um pedido expresso para reverter a decisão, mais de 70 personalidades da indústria cinematográfica apressaram-se a assinar uma carta aberta à Academia de Hollywood.

Os realizadores James Cameron e Guillermo Del Toro, a produtora Kathleen Kennedy ou o compositor John Williams, entre outros, reconhecem que é preciso encontrar novos públicos para os Óscares, mas não aceitam que esse esforço seja feito à custa de alguns dos ofícios da sétima arte.

Um exemplo? A caracterização que transformou Jessica Chastain na tele-evangelista Tammy Faye ao ponto de quase não reconhecermos a atriz na encarnação da personagem real. Os maquilhadores e cabeleireiros envolvidos estão nomeados para o Óscar, mas, se ganharem, só vamos ver o momento num vídeo pré-gravado e depois editado. 

Inconformada com a decisão da Academia, Chastain (que, aliás, é a favorita ao Óscar de Melhor Atriz, depois de ter conquistado o prémio do Screen Actors Guild com o filme em questão), já fez saber que vai assistir ao anúncio do Óscar de Melhor Caracterização, nem que para isso tenha de faltar à passadeira vermelha. Será uma forma de honrar quem a ajudou a brilhar, mesmo que os senhores dos Óscares não queiram saber.

Esta festa também é para surdos

É preciso recuar a 2017 para lembrar a primeira grande vitória do streaming na festa dos Óscares. “Manchester by the Sea”, da Amazon, arrebatou o Óscar de Melhor Filme, depois do protagonista Casey Affleck ter recebido o Óscar de Melhor Ator. O que, na altura, parecia um caso isolado, hoje é visto como primeiro sinal de uma revolução tranquila, mas profunda.

Por causa e em consequência da evolução tecnológica e da transformação dos hábitos de consumo, a indústria do entretenimento mudou e, com ela, o paradigma da produção: as plataformas de streaming transformaram-se em autênticos estúdios com capitais multimilionários para investir não só em quantidade, mas também em notoriedade a médio e longo prazo.

Não admira, portanto, que este ano os dois grandes favoritos ao Óscar de Melhor Filme sejam filhos de quem são: a Netflix está na corrida com “O Poder do Cão”, o western de Jane Campion que é, aliás, o filme com mais nomeações (12); a Apple TV faz-se representar com “CODA: No Ritmo do Coração”, um drama familiar entretanto distinguido ao mais alto nível pela Associação dos Produtores e pelo Sindicato dos Atores.

Marlee Matlin, uma das protagonistas de “CODA”, foi a primeira surda a ganhar o Óscar de Melhor Atriz com “Filhos de um Deus Menor”. Trinta e seis anos depois, está acompanhada por outros atores surdos como Troy Kotsur (provável vencedor do Óscar de Melhor Ator Secundário) numa pequena produção de 10 milhões de dólares que é bem capaz de arrebatar o momento mais alto da noite.

O Óscar do Twitter

Apesar de haver 10 nomeados para o Óscar de Melhor Filme, por insensibilidade ou preconceito, a Academia de Hollywood deixou de fora alguns dos filmes mais vistos 2021, afastando-se assim (mais uma vez) do chamado gosto popular. Claro que se repetiram as críticas de outros anos, mas, desta vez, a polémica mereceu uma resposta digital.

Numa parceria com o Twitter, a Academia de Hollywood anunciou uma espécie de Escolha do Público. O #OscarFanFavourite (decidido com os 20 votos diários possíveis de cada utilizador até 3 de março) será assim a única oportunidade de consagrar sucessos comerciais como “Homem-Aranha: Sem Volta a Casa” que, com quase 2 mil milhões de dólares de receitas, se tornou no 6º filme mais visto de sempre.

O que terá parecido uma boa ideia no papel não foi recebido dessa forma na própria Academia. Houve quem acusasse o embaraço, dizendo que o Óscar do Twitter, em vez de promover a reconciliação com a maioria das pessoas que vão ao Cinema, só acentua o afastamento porque, na prática, as nomeações continuam a ignorar os fenómenos de massas.

Assim sendo, como agradar a essas massas numa celebração que se quer vistosa e muito vista? Cortar oito Óscares da transmissão em direto, dar mais tempo a momentos de comédia e homenagens e apostar em três anfitriãs são o plano deste ano. Se os resultados nos EUA não recuperarem do recorde negativo de 9.85 milhões de espectadores em 2021, estarão os Óscares a transformar-se num espetáculo de nicho?

Claro que, pelo prestígio profissional que significa e pela história quase centenária que representa, a estatueta dourada continua a ser o maior reconhecimento que um profissional do Cinema ainda pode receber. O luso-canadiano Luís Sequeira, por exemplo, está nomeado para o Óscar de Melhor Guarda-Roupa com “O Beco das Almas Perdidas”, mas, como disse à CNN Portugal, não trabalha pelos “awards. Quanto ao resto? “Vamos ver o que dá”.

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