Romance brasileiro vence National Book Award e será editado em Portugal em 2024

Agência Lusa , AM
21 nov 2023, 08:55
Stênio Gardel e Bruna Dantas Lobato nos 74 National Book Awards (AP)

“A palavra que resta” disputou o prémio, que foi anunciado na quarta-feira passada, com outras nove obras originalmente escritas em árabe, holandês, francês, alemão, coreano e espanhol

O romance de estreia de Stênio Gardel, “A palavra que resta”, vencedor do National Book Award, nos Estados Unidos, um acontecimento inédito na literatura de língua portuguesa, vai ser publicado em Portugal pela Dom Quixote no próximo ano.

Natural do Ceará, no Brasil, Stênio Gardel lançou em 2021 o seu primeiro romance, que acompanha a trajetória de Raimundo, homem analfabeto que na juventude teve o seu amor secreto brutalmente interrompido e que por cinquenta anos guardou consigo uma carta que nunca pôde ler.

Com esta estreia, o escritor de 43 anos foi não só finalista do mais tradicional galardão literário do Brasil, o Prémio Jabuti, como conseguiu o feito inédito para a literatura brasileira de vencer o National Book Award, um dos mais conceituados prémios de literatura dos Estados Unidos, na categoria de tradução, com o título “The words that remain”.

“A palavra que resta” disputou o prémio, que foi anunciado na quarta-feira passada, com outras nove obras originalmente escritas em árabe, holandês, francês, alemão, coreano e espanhol.

A Dom Quixote anunciou entretanto, através das suas redes sociais, que publicará o livro em 2024.

Em “A palavra que resta”, Stênio Gardel explora o poder universal da palavra escrita e da linguagem, e como estas afetam todos os relacionamentos humanos.

De acordo com o júri do National Book Award, este romance é uma exploração do desejo ‘queer’, da violência e da vergonha, e do poder transformador da palavra escrita.

“Ao crescer como um garoto 'gay' no interior do nordeste do Brasil, era impossível pensar ou sonhar em tamanha honra. Mas ao estar aqui nesta noite, como um homem 'gay', recebendo este prémio por um romance sobre a história da jornada de outro homem 'gay' rumo à autoaceitação, eu gostaria de dizer a todos que já se sentiram em desacordo consigo mesmos, que o seu coração e o seu desejo são verdadeiros, e você merece, como qualquer outra pessoa, ter uma vida completa e alcançar os seus sonhos”, disse o escritor, no discurso de aceitação, citado pela imprensa brasileira.

“A palavra que resta” conta a história de Raimundo que, aos 71 anos, decide aprender a ler e a escrever para conseguir ler uma carta que guardou e que o assombrou toda a vida.

A carta foi escrita por Cícero, um rapaz que amou na juventude, mas que partiu sem deixar pistas, exceto aquela carta, quando o amor dos dois foi descoberto.

Essa leitura vai trazer de volta memórias daquele primeiro amor, de uma infância pobre e analfabeta, em que o narrador se viu impedido de ir à escola para poder ajudar o pai no trabalho na roça, e da vida construída depois de deixar a família e a vida no sertão para trás, segundo a Companhia das Letras, que editou a obra no Brasil.

“Com uma narrativa sensível e magnética, o escritor cearense Stênio Gardel nos leva pelo passado de Raimundo, permeado de conflitos familiares e da dor do ocultamento de sua sexualidade, mas também das novas relações que estabeleceu depois de fugir de casa e cair na estrada, ressignificando seu destino mais de uma vez”, acrescenta a sinopse.

O romance vencedor do National Book Award na categoria de ficção foi “Blackouts”, de Justin Torres, enquanto “The rediscovery of America: Native peoples and the unmaking of U.S. history”, de Ned Blackhawk, venceu na não-ficção.

“A first time for everything”, de Dan Santat, foi o escolhido na categoria literatura juvenil, e “from incorporated territory”, de Craig Santos Perez, levou o prémio de poesia.

Na cerimónia de entrega dos prémios, mais de uma dúzia de finalistas subiram ao palco para ler uma nota sobre a situação na Faixa de Gaza, condenando o “contínuo bombardeamento” em Gaza e apelando a um cessar-fogo.

Os autores foram aplaudidos de pé, após esta manifestação, mas pelo menos um patrocinador do prémio, Zibby Media, ainda antes da cerimónia, retirou o seu apoio, por receio que esta manifestação fosse antissemita ou anti-Israel, segundo a Associated Press.

No dia seguinte, a editora de poesia da revista do The New York Times, Anne Boyer, demitiu-se do cargo, por discordar da guerra levada a cabo por Israel contra o povo de Gaza, com o apoio dos EUA, e da cobertura noticiosa que está a ser feita pelo jornal.

Esta sequência de acontecimentos levou o escritor e editor Dan Sheehan a escrever na revista Literary Hub que foram “24 horas espantosas para os escritores demonstrarem coragem moral”, qualificando de "extraordinária" a carta de demissão, em que Anne Boyer "ataca diretamente a linguagem utilizada pelo seu (agora antigo) empregador na cobertura da guerra em Gaza".

A categoria de literatura traduzida do National Book Awards foi criada em 1967 e perdurou até 1983, premiando autores como Julio Cortazar, Italo Calvino, Bertold Brecht, Paul Valéry, Miguel de Unamuno, Cesare Pavese e Gustave Flaubert, entre outros.

O prémio foi retomado em 2018, tendo distinguido no ano passado a escritora argentina Samanta Schweblin pelo livro “Sete casas vazias”.

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