Tenham sentido de humor. E orgulho. E respeito (à procura da rainha entre o aeroporto e Buckingham)

Lina Santos , enviada especial a Londres
12 set, 10:41
Homenagens à rainha Isabel II

São tantas as homenagens a Isabel II. Recomendações para quem anda nas ruas de Londres: abstenham-se de usar plástico ou de deixar sandes de marmelada

É preciso fazer uns bons 500 metros dentro do aeroporto de Gatwick, Londres, para se encontrar uma referência à rainha e à sua morte. E nem se pode dizer que seja intencional: é um mosaico de grande dimensões que recria duas imagens de Isabel II - na coroação e outra mais atual - com milhares de fotos de pessoas que as enviaram para a BB. E o mosaico nem sequer é recente: foi pensado para o jubileu de diamante e está aqui desde 2012. Mas hoje há quem pare para fotografar a homenagem acidental.

Enquanto as estradas da Escócia se enchiam de pessoas para ver passar o caixão da rainha, no aeroporto o cortejo move-se com menos pompa e circunstância mas também de forma lenta. “Estão a chegar muitas pessoas para a rainha”, diz a funcionária do serviço de fronteiras. Tanto para assistir às exéquias fúnebres como para trabalhar, garante. 

À medida que se entra na cidade, as referências começam a surgir. Condolências institucionais no comboio, no metro, em outdoors na rua, no supermercado e até na montra de uma clínica dentária. São homenagens discretas, quase sempre lembrando a família real. “As nossas condolências ao rei e à família real.” Quase se poderia pensar que nada de grande se está a passar… até chegarmos ao centro da cidade.

Este domingo, a estação de metro de Green Park, a mais próxima do local para deixar flores à rainha, mesmo ao lado do Palácio de Buckingham, sofreu alterações de funcionamento - só se podia sair - para evitar multidões, segundo a TFL - Transport for London (e foi reaberta esta segunda-feira de manhã).

Milhares de pessoas, acompanhadas dos filhos, de todos os formatos e a falarem inglês mas também italiano, espanhol, alemão, hebraico (e outras indecifráveis), atravessaram os parques à volta para chegar ao local desejado - os portões do Palácio de Buckingham. À saída de St. James Park, uma das estações de metro usadas para chegar, estão duas mulheres vestidas a rigor - fatos negros e chapéu de coco - prontas para ajudar quem está perdido. Trabalham habitualmente na estação de Victoria mas este domingo “pediram-nos para vir para aqui”. Tentam dirigir quem chega para o local certo, quase em vão, apesar do aviso: “É uma espera de duas horas”.

Apesar dos pedidos para que as pessoas se dirigissem ao local do tributo em Green Park - uma área verde sob as árvores preparada para receber todas as flores -, contornando o Palácio de Buckingham, muitos querem fazer o caminho principal. Da avenida chamada Mall, agora adornada com bandeiras da Union Jack, até aos portões da casa mais emblemática da rainha Isabel II. O trânsito foi cortado, há polícia por todo o lado (10 mil em toda a cidade, segundo as últimas informações) e muita gente a montar barreiras, WC portáteis. 

Uma multidão compacta aglomera-se junto às barreiras da rotunda do palácio. Estão quase lá, mas muita gente já desistiu de levar as flores até lá e começa a colocá-las nos portões de St. James ou na rotunda. 

Judy, de mão dada com a neta de 10 anos, diz à CNN Portugal que tinha mesmo de ir até ali. É um evento de família: foi com a filha e o marido desta, os dois netos. A viagem não foi longa, são de West London, mas, diz, “tínhamos de vir”. 

Já foi dito: a longevidade de Isabel II garantiu-lhe lugar na memória da maioria. E Judy repete-o. “Ela é tudo o que conhecemos, partilhamos muitos marcos de vida com ela, parece que há uma ligação pessoal.” A filha, Imogen, entra na conversa. “Esperemos que Carlos seja um bom rei. Este é o fim de uma era. A rainha mostrou como ser líder, não de cima, mas a liderar”, diz, e acrescenta: “Temos de seguir o exemplo da rainha. Aceitar, aprender, ter sentido de humor. Ela mostrou como devemos ter orgulho e respeito”. 

O passado imperial do Reino Unido tem sido agora amplamente debatido e Imogen é a primeira a falar disso. “Temos uma história difícil, é difícil assumir. O país beneficiou, temos de aceitar a responsabilidade e pedir desculpa”, diz esta inglesa, de 31 anos, com outra preocupação em mente: a economia do país e o rumo seguido pelos conservadores. “Temos governos conservadores desde que eu tinha 19 anos, acho que estão a levar o país para baixo. Espero que não fiquemos muito centrados em nós mesmos como começou a acontecer com o Brexit. O Reino Unido que conheço é acolhedor, são todas as pessoas.” 

As grades abrem-se e a família entra, por fim, na rotunda de Buckingham - cada vez mais perto da entrada do palácio, aquela por onde Carlos III entrou na sexta-feira depois de ter parado à porta para cumprimentar a população ao lado da rainha consorte, Camilla. 

Apesar das recomendações para não se usar plástico, abundam cartões, bandeiras, ursos Paddington e até sandes de marmelada (em referência ao sketch do jubileu). São retiradas amiúde e levadas para Green Park, o lugar oficial para as depositar, de acordo com as informações que vão sendo dadas, e que também já está repleto de homenagens - sem plástico ou velas. Vão ficar aqui até sete dias depois do funeral da rainha, na segunda-feira, dia 19. 

O corpo da rainha chega a Londres esta terça-feira e será velado durante quatro dias e quatro noites em Westminster Hall. 

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