Um Mundial por dia: 2006, a epopeia de Portugal, a cabeça de Zidane e o tetra da Itália

7 dez 2022, 09:10
Itália campeã do mundo em 2006 (Foto Getty)

Viagem à história do Campeonato do Mundo em histórias, imagens, figuras, números, frases e curiosidades

Enquanto se escreve nova história no Qatar, o Maisfutebol olha para o que está para trás. De 1930 a 2018, um Mundial por dia em pequenas histórias, figuras, números, frases, curiosidades ou o percurso de Portugal. Pistas para recordar do que falamos quando falamos do Campeonato do Mundo.

Alemanha 2006

9 junho a 9 julho 2006

Anfitrião: Alemanha

Campeão: Itália

2ª lugar: França

3º lugar: Alemanha. 4º lugar: Portugal

Jogos: 64

Golos: 147 (2,3 por jogo)

Melhor marcador: Miroslav Klose (Alemanha), 5 golos

Portugal

O segundo melhor Mundial da história da seleção. Depois de chegar à final do Euro 2004 e da despedida de históricos como Rui Costa ou Fernando Couto, além de um afastamento temporário de Luís Figo, Portugal voltou a disputar uma qualificação e fê-lo de forma convincente, garantindo o apuramento em primeiro lugar com seis vitórias, três empates e zero derrotas, numa campanha que teve momentos altos como a vitória por 7-1 sobre a Rússia. Na Alemanha, a seleção orientada pelo campeão do mundo em título Luiz Felipe Scolari arrumou a qualificação logo ao segundo jogo, após vitórias sobre Angola e Irão. Depois venceu o México, para seguir em frente o pleno de triunfos na fase de grupos. A seguir bateu a Holanda nuns oitavos que ganharam nome próprio para a história dos Mundiais, superou a Inglaterra em mais uma epopeia decidida nos penáltis e caiu frente à França na meia-final. Outra vez. Um penálti convertido por Zidane representou o fim da linha para Portugal, que perderia depois o jogo de atribuição do terceiro lugar, frente à Alemanha. Esse jogo assinalou duas despedidas históricas. Foi o último jogo de Pauleta, então o melhor marcador de sempre da seleção, com 47 golos. E de Luís Figo, que liderou a seleção em todas as partidas naquele Mundial e saiu com um recorde de 127 internacionalizações, antes de passar o estrelato e o número 7 a Cristiano Ronaldo, que viveu ali o seu primeiro Mundial. 

O Mundial

A Itália voltou a ser feliz, 24 anos depois e mais uma vez saindo por cima de um Mundial onde não era favorita, não seduziu e onde chegou, tal como em 1982, depois de um escândalo doméstico de manipulação de resultados, o Calciopoli, que abalou a Serie A. Mas tornou-se em Berlim apenas a segunda seleção a somar quatro títulos de campeã do mundo, depois do já pentacampeão Brasil. A «Azzurra» foi avançando e deixou pelo caminho na meia-final a Alemanha, anfitriã de um Mundial que foi uma festa dentro e fora dos estádios, ainda que, também ele, viesse a ver-se envolto em suspeitas de corrupção no processo de atribuição da organização.

Foi um Campeonato do Mundo global como poucos, com todas as confederações representadas e nada menos que oito estreantes: de Angola a Trindade e Tobago, passando por Gana, Costa do Marfim, Togo, e ainda três países saídos dos novos desenhos geopolíticos na Europa: Ucrânia, Chéquia e a Sérvia e Montenegro, juntos pela primeira e única vez.

O campeão Brasil e a Argentina prometeram muito, mas caíram nos quartos de final, dando lugar a umas meias-finais exclusivamente europeias. A França deixou pelo caminho Espanha e Brasil, antes de voltar a matar o sonho português na meia-final e marcar encontro com a Itália para a decisão do título, ganho pela «Azzura» nos penáltis depois do momento de loucura de Zidane.

A Final

Itália-França, 1-1 ap (5-3 gp)

Estádio Olímpico, em Berlim

Itália: Buffon, Zambrotta, Cannavaro, Materazzi, Grosso, Perrotta (Iaquinta, 61m), Pirlo, Gattuso, Camoranesi (Del Piero, 86m), Totti (De Rossi, 61m), Luca Toni. Treinador: Marcelo Lippi

França: Barthez, Sagnol, Thuram, Gallas, Abidal, Vieira (Diarra, 56m), Makelele, Ribery (Trezeguet, 100m), Zidane, Malouda, Henry (Wiltord, 107m)

Marcadores: 0-1, Zidane (7m gp); 1-1, Materazzi (19m)

A final ao minuto no Maisfutebol

Figura

 

Zidane

Zizou tinha anunciado em abril que terminaria a carreira no Mundial 2006. Após o Euro 2004 tinha decidido abandonar a seleção, mas voltou um ano mais tarde, para capitanear uma seleção em transição, já sem muitos dos jogadores que levaram os Bleus ao topo do mundo. Naquela primavera, quando completou 34 anos, o mundo preparou-se para assistir à última dança do maestro que espalhou magia pelos relvados e ganhou tudo o que havia para ganhar. O seu terceiro Mundial foi aquele em que fez mais jogos – só não defrontou o Togo, na última jornada da fase de grupos. Liderou a equipa até à final, marcando nos oitavos, frente à Espanha, e batendo o penálti que eliminou Portugal na meia-final. Em Berlim, colocou a França na frente logo aos sete minutos, em nova grande penalidade. Depois a Itália empatou, num golo de outro dos protagonistas daquele dia, Marco Materazzi. O jogo arrastou-se até ao prolongamento. Zidane ainda obrigou Buffon a uma grande defesa, antes de o mundo assistir incrédulo ao que seguiu. Ele viu muitas vezes vermelho ao longo da carreira – é o único jogador, a par de Song, expulso duas vezes em Mundiais -, mas aquilo foi fúria cega. A imagem de um dos jogadores mais inteligentes com a bola nos pés que já pisaram um relvado de cabeça baixa, a passar ao lado da Taça que seria entregue pouco depois à Itália, marcará para sempre a história dos Mundiais.

Frase

«Zidane é um ídolo desde sempre, admiro-o muito»

Dois dias depois da final, Marco Materazzi falava assim sobre Zidane, a tentar pôr paninhos quentes na ressaca da cabeçada mais famosa da história. As versões de ambos nunca coincidiram. O italiano disse que «apenas» insultou a irmã de Zizou no calor de uns agarrões e de uma troca de palavras a quente: «Agarrei-lhe a camisola durante alguns segundos e ele virou-se para mim, olhou-me com arrogância e perguntou-me se eu queria a camisola dele. Eu respondi com um insulto: prefiro a p*** da tua irmã.» Em campo, Zidane virou costas a Materazzi e ainda deu dois ou três passos, mas depois voltou para trás e fez aquilo O francês garantiu durante muito tempo que ouviu um insulto à sua mãe, que estava numa cama de hospital naquele dia. A cabeçada de Zidane a Materazzi virou canção – ‘Zidane il l’a frappé’, quem se lembra? -, virou jogo, virou livro – escrito por Materazzi, com uma seleção de 249 insultos - e virou estátua. Zidane lamentou muitas vezes o que aconteceu, mas durante muito tempo disse que não perdoava Materazzi. Mas os dois acabaram por arrumar o assunto, quatro anos mais tarde, por causa de… José Mourinho.

 

Número

16 cartões amarelos e 4 vermelhos para uma Batalha

Portugal e Países Baixos fizeram história no Mundial a 25 de junho de 2006. E não foi bonito. Chamaram-lhe Batalha de Nuremberga e é o jogo com mais cartões de sempre. Começou logo aos dois minutos, com um amarelo para Van Bommel. Cinco minutos mais tarde, até devia ter sido outra a cor do cartão para Boulahrouz. O defesa viu amarelo por uma entrada de pitons sobre Cristiano Ronaldo que acabaria por forçar a saída do português pouco depois da meia hora. A partir daí, o árbitro russo Valentin Ivanov tentou controlar um jogo quentinho, mas que no fim das contas não teve mais que 25 faltas, à força de sacar cartões. Ainda antes do intervalo, Costinha já estava na rua. Depois lá foi Boulahrouz e a seguir Deco, que viu dois cartões em cinco minutos e teve pouco depois a companhia de Van Bronckhorst. Os dois adversários, companheiros de equipa no Barcelona, sentados lado a lado junto à linha a assistir ao final do jogo é uma das imagens que fica para sempre. Pelo meio, um golo de Maniche pôs Portugal nos quartos de final. Recorde aqui o relato ao minuto do jogo. Aquele Mundial viu aliás cartões como nenhum outro, um recorde de 345 amarelos e 28 vermelhos.

 

Histórias

Ricardo de novo herói com a Inglaterra (depois da piscadela)

O Portugal-Inglaterra do Euro 2004 foi uma epopeia e o jogo dos quartos de final do Mundial 2006 esteve à altura. De novo nos quartos de final, Portugal não tinha Costinha e Deco, baixas da Batalha de Nuremberga, mas protagonizou um jogo empolgante, que ficou marcado pela expulsão de Rooney ao fim de uma hora, depois de pisar Ricardo Carvalho. A piscadela de Cristiano Ronaldo, a celebrar o sucesso da pressão para que o seu companheiro de equipa no Manchester United visse o vermelho, fez correr rios de tinta. O jogo arrastou-se sem golos, de novo até aos penáltis. Ricardo já tinha sido herói na Luz, em 2004, mas agora fez o que ninguém tinha feito: defendeu três grandes penalidades. Está aqui o relato ao minuto. A Inglaterra de Sven-Goran Eriksson, que tinha sido acompanhada nesse Mundial pelo circo das companheiras dos jogadores a passearem-se na Alemanha seguidas por batalhões de paparazzi, ficou outra vez a chorar a sina dos penáltis. E Portugal seguiu para a segunda meia-final da sua história, a primeira em 40 anos. A terceira perdida para a França em grandes competições, depois de 1984 e 2000. Dez anos antes de espantar finalmente o fantasma e ganhar o Euro 2016 à custa dos Bleus.

Três amarelos no mesmo jogo para Simunic

Há erros bizarros, depois há o que aconteceu a Graham Poll no Croácia-Austrália da última jornada da fase de grupos do Mundial 2006. Num jogo decisivo e intenso, com muita confusão no final, o árbitro inglês expulsou Simunic ao fim de… três cartões. O defesa croata viu o primeiro aos 61 minutos e quando viu o segundo, em cima dos 90 minutos, afastou-se de mansinho. E continuou em campo. Só quando foi embirrar com o árbitro, depois do apito final que selava a eliminação da Croácia, é que viu novo amarelo. O terceiro. E, aí sim, o vermelho. Basicamente, Poll baralhou-se ao segundo cartão. «Quando mostrei o amarelo ao minuto 89, escrevi o número da camisola certo, mas o nome errado. Atribuí inadvertidamente o cartão ao número 3 da Austrália, Craig Moore.» Porquê? A explicação é genial: o que baralhou Poll foi o sotaque australiano de Simunic, que nasceu e foi criado «Down Under», mas optou pela seleção da Croácia. O árbitro confundiu-o com um jogador australiano. O erro podia ter tido consequências graves, mas como a Austrália se apurou ficou por ali. Quem não ficou foi Poll, que não voltou a apitar no Mundial.

Todos os Mundiais:

1930, a aventura da primeira vez

1934, Itália na Coppa do regime

1938, de novo a Itália entre os ventos da Guerra

1950, quando o Uruguai gelou o Maracanã

1954, quando a Alemanha travou a magia

1958, com o menino Pelé o Brasil enfim deu certo

1962, o génio de Garrincha à solta no bicampeonato do Brasil

1966, Eusébio para a lenda na festa inglesa

1970, a perfeição no tri do Brasil e de Pelé

1974, quando a Alemanha ganhou mas a revolução foi o Futebol Total

1978, a primeira vez da Argentina e muito para lá de futebol

1982, da fiesta aos choques e de Sarriá ao tri da Itália

1986, o recreio de Maradona

1990, e no fim ganhou a Alemanha

1994, o tetra do Brasil na festa made in USA

1998, um Fenómeno perdido na primeira vez da França

2002, o Fenómeno renascido no penta do Brasil

Leia aqui mais informação sobre os Mundiais, os resultados e as histórias contadas no livro «O Essencial dos Mundiais Para Ler em 90 Minutos», do Maisfutebol

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