O último líder soviético e o homem que se vê "abaixo apenas de Deus". Como Putin está a destruir o legado de Gorbatchov

31 ago, 01:25
Mikhail Gorbachev (REUTERS)

De uma era marcada por acordos de controlo de armamento entre as duas maiores potencias mundiais, a uma das guerras mais violentas desde a Segunda Guerra Mundial, o mundo concebido por Gorbatchov está a mudar

“A crise no nosso país continuará por algum tempo, possivelmente vai levar a uma reviravolta ainda maior. Mas a Rússia escolheu irrevogavelmente o caminho da liberdade, e ninguém pode fazê-la voltar ao totalitarismo”, escreveu Mikhail Gorbatchov no seu livro de memórias, em 1996, durante um dos períodos mais conturbados da história da Federação Russa. 

Nem mesmo nos difíceis dias da década de 90, o antigo líder soviético, que morreu esta terça-feira, aos 91 anos, sonhou com que toda aquela que foi a obra da sua vida fosse completamente destruída pelos seus sucessores. De uma era marcada por acordos de controlo de armamento entre as duas maiores potencias mundiais, a uma das guerras mais violentas desde a Segunda Guerra Mundial, o mundo concebido por Gorbatchov está a mudar.

E essa mudança estava mais próxima do que ele alguma vez poderia pensar. Para muitos Gorbatchov representa a reabertura da Rússia ao mundo, mas para outros, como o atual presidente russo, é sinónimo do colapso da União Soviética, algo que Putin imortalizou num discurso em 2005 como “a maior catástrofe geopolítica do século” e que ele acredita estar a corrigir com a invasão da Ucrânia.

Nas suas declarações públicas, Gorbatchov oscilou entre os elogios a Vladimir Putin e alguma crítica controlada. Embora tenha afirmado que Putin fez muito para restaurar a estabilidade e o prestígio da Rússia após o período conturbado da década de 90, que se seguiu ao colapso soviético, Gorbachev protestou contra as crescentes limitações à liberdade de imprensa e, em 2006, comprou um dos últimos jornais investigativos da Rússia, o Novaya Gazeta, com o dinheiro que recebeu do Prémio Nobel da Paz, em 1990.

Questionado sobre o que achava de Vladimir Putin, o antigo líder soviético disse que o presidente russo se vê “abaixo apenas de Deus” e que nunca procurou o seu conselho. Nos últimos anos, mesmo com a sua influência diminuída, alertou para o que considerava ser o perigo da expansão da União Europeia para o leste, expressando mesmo a possibilidade de ser criada uma nova Guerra Fria.

Em 2016, Gorbatchov deu uma entrevista à revista do The Sunday Times onde admitiu que faria o mesmo que Vladimir Putin fez em relação à Crimeia, quando anexou o território através de um controverso referendo, caso fosse presidente da Rússia. "Estou sempre com o livre arbítrio do povo e a maioria das pessoas na Crimeia queriam reunir-se com a Rússia", disse Gorbatchov na entrevista, onde acusou os Estados Unidos da América de estarem a "esfregar as mãos de alegria" com a queda da União Soviética.

Essas declarações levaram a que o último presidente da União Soviética fosse banido da Ucrânia em 2016, dois anos após os separatistas pró-russos terem pegado em armas e começado a guerra no Donbass. Ainda assim, o homem que acabou com a Guerra Fria mostrou-se sempre contra a qualquer conflito armado. Um dia depois do ataque russo, na madrugada de 24 de fevereiro, a fundação do político publicou um comunicado a pedir “uma cessação precoce das hostilidades e início imediato das negociações de paz”.

“Não há nada mais precioso no mundo do que vidas humanas. As negociações e o diálogo com base no respeito mútuo e no reconhecimento de interesses são a única maneira possível de resolver as contradições e os problemas mais agudos”, afirmou.

Um antigo intérprete de Gorbatchov, Pavel Palazhchenko, que trabalha para o centro de estudos Gorbatchov, revelou à Fox News dois dias antes da invasão que o antigo presidente sempre alertou para o facto de que “coisa muito perigosas” poderiam acontecer entre a Rússia e a Ucrânia. “Para ele, emocionalmente, era muito trágico”, disse.

Caminhar sempre em direção à paz foi talvez um dos legados mais importantes de "Gorby", enquanto líder da União Soviética. Prova disso foi a ordem de retirada das tropas soviéticas do Afeganistão, depois de uma invasão que se arrastou durante nove anos e é vista internamente como um desastre, que tirou a vida de mais de 15 mil soldados russos e acelerou o processo do declínio soviético. “Todos [no governo] concordaram: é impossível resolver o problema afegão por meios militares.”, recordou anos mais tarde.

Gorbachev foi um dos maiores defensores do controlo de armamento e chegou mesmo a discutir a potencial eliminação de armas nucleares com o presidente americano Ronald Reagan numa cimeira, em Reykjavik, em 1986. Anos mais tarde, durante a presidência de Donald Trump, os EUA abandonaram o tratado que impedia os dois lados de possuirem mísseis com alcances entre os 500 e o 5.500km de distância. O continente europeu respirou de alívio. Agora, o último acordo entre EUA e Rússia que limitam estas armas está prestes a sofrer um golpe possivelmente mortal com a suspensão de inspeções mútuas por parte da Rússia. Ao mesmo tempo, vários países aumentam o número e a qualidade do seu arsenal nuclear pela primeira vez desde o início da Guerra Fria e outros países começam a enriquecer urânio.

Em 1985, quando foi nomeado secretário-geral do Partido Comunista Soviético, com apenas 54 anos, Gorbatchov aspirava revitalizar um sistema soviético que se encontrava em decadência ao tentar introduzir alguma liberdade política e económica no sistema. Essas mudanças ficaram para sempre conhecidas por “glasnost” (transparência) e “perestroika” (restruturação). O glasnost, a política que aspirava dar uma maior abertura à União Soviética, garantia aos cidadãos soviéticos uma maior liberdade de expressão do que atualmente na Rússia de Putin, onde os cidadãos arriscam penas de prisão por expressar ideias consideradas impróprias pelas autoridades.

“Talvez seja compreensível que durante a fase inicial ele tenha usado certos métodos autoritários em sua liderança, mas utilizar métodos autoritários como uma política para o futuro – eu acho que isso errado. Acho que isso é um erro”, afirmou Gorbatchov numa palestra em 2011.

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