Entre a hipotermia e a escuridão. Como se sobrevive 11 dias debaixo dos escombros do sismo

17 fev, 17:45
Sobrevivente do sismo resgatado com vida em Hatay, na Turquia (EPA/STR/Lusa)

Mesmo passados onze dias depois de o terramoto ter arrasado parte da Turquia e da Síria, continuam a ser resgatados sobreviventes do sismo que resultou na morte de mais de 41.000 pessoas. Especialistas em medicina de catástrofe explicam como estas pessoas sobreviveram tanto tempo debaixo de escombros

“Como está a minha mãe, como estão todos?", pergunta Mustafa Avci enquanto está a ser transportado de maca. Está calmo, mas do outro lado um amigo responde com a voz embargada, incrédulo. “Todos estão bem, estávamos todos à tua espera, vou agora para aí”. O sorriso de Mustafa acentua o contraste dos olhos pesados e só é interrompido quando ele beija as mãos de um dos socorristas que o carrega. “Que Deus seja feliz contigo mil vezes", diz-lhe.

Quando o telefone desligou, tinham passado 261 horas desde que Mustafa, de 33 anos, ficou preso nos escombros de um edifício que ruiu na província de Hatay, Turquia. Foi o poderoso e devastador terramoto que fez desabar o mundo como o conhecia e assistiu a tudo preso num hospital onde tinha ido nesse dia fazer uma consulta de rotina. Hoje, imagens mostram-no novamente num quarto de hospital, mas desta vez abraçado à mulher e à filha recém-nascida.

Mustafa abraça novamente a mulher e a filha recém-nascida/ D.R

A sobrevivência de Mustafa contradiz as expectativas da maior parte dos especialistas, que dizem ser invulgar que as pessoas resistam mais de 100 horas presas em escombros e que os salvamentos mais bem sucedidos ocorrem geralmente em 24 horas. Mas não se trata de um milagre, porque, no fim de contas, é através da ciência que se explica como passados 11 dias do terramoto ainda há pessoas a serem resgatadas, defendem especialistas em medicina de catástrofe à CNN Portugal.

“Não há milagres”, começa por dizer Nelson Olim, cirurgião especializado em Medicina de Catástrofes, que trabalha atualmente para a Organização Mundial de Saúde como coordenador regional de equipas de emergência médica. “É claramente possível”, insiste. Isto porque a sobrevivência dá-se por três fatores. “Em primeiro lugar, ficaram numa bolsa com ar respirável”, permitindo ter acesso a oxigénio no meio dos destroços. Em segundo lugar, explica, tudo depende dos ferimentos a que a vítima foi submetida nos primeiros momentos do terramoto e, por último, se tiveram acesso a água e alimentos.

É isto que, muitas vezes, pode ditar a diferença entre a vida e a morte. Hüseyin Berber, um diabético de 62 anos, sobreviveu 187 horas depois de as paredes do seu andar térreo terem sido sustentadas por um frigorífico e um armário, deixando-lhe uma poltrona para se sentar e um tapete para o manter quente. Ele tinha uma única garrafa de água e, quando acabou, bebeu a sua própria urina. Foi resgatado nove dias após o grande terramoto.

 

Hüseyin Berber no hospital após ter sobrevivido 187 horas preso nos escombros/ AP

Na mesma linha, explica o médico Gustavo Carona, que se tem dedicado a missões humanitárias desde 2009, a janela de sobrevivência é maior quando as pessoas são mais jovens. “O estado de saúde prévio é um fator indiscutivel e a idade por si só acrescenta morbilidades”, mas os ferimentos a que foram sujeitas podem tornar essa janela cada vez menor. “Alguém que tenha fratura exposta ou que esteja a sangrar é muito menos provável de sobreviver”.

Além disso, a temperatura a que o corpo está sujeito nestes momentos tem uma importância crucial, isto porque a hipotermia mata “muito rapidamente”. “É um flagelo muito difícil, basta apenas uma noite”, explica Gustavo Carona, sublinhando que dentro dos escombros podem existir ocasiões em que as pessoas ficam sujeitas a um “aquecimento significativo” fundamental para a sua sobrevivência. 

Também Nelson Olim reitera que “quem sobreviveu até agora esteve claramente protegido do frio”. “Se só foram resgatados agora é porque estavam bem dentro de um edifício no momento do terramoto, logo mais protegidos”, afirma o cirurgião, acrescentando que o acesso a agasalhos e a cobertores durante o momento do resgate é importante nesse sentido.

Por entre todas estas histórias de longas horas de sobrevivência, há também uma que é contada em instantes. O instante em que um prédio em Jindires, uma cidade no noroeste da Síria fortemente atingida pelo grande terramoto, desabou. O instante em que uma mulher grávida deu à luz dentro desse prédio. O instante em que a recém-nascida foi resgatada ainda presa pelo cordão umbilical à mãe. Aya, que na língua árabe significa “sinal da grandeza/existência de Deus” sobreviveu, a mãe não. Acredita-se que tenha dado à luz cerca de sete horas após o sismo.

Aya, a bebé resgatada dos escombros em Jindires, na Síria/ AP

Para Gustavo Carona, o “mecanismo do parto por si só” pode explicar esta situação. Ao dar à luz, a placenta tem de ser retirada por inteiro da mãe rapidamente, se isto não acontecer o seu útero contrai e ela pode sangrar até à morte. Por oposição, “o cordão umbilical muito rapidamente entra em isquemia”, quase que apodrece, “daí que a criança já não sangre”. 

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