Gostaria de vos apresentar a verdadeira Marilyn Monroe (opinião)

CNN , Christina Newland (artigo originalmente publicado em janeiro)
5 ago, 09:00
Marilyn Monroe (John Rodgers/Redferns)

Faz hoje 60 anos que morreu Marilyn Monroe

Nota de Editor: Christina Newland é uma crítica de cinema e uma jornalista premiada. Participa na série Original da CNN ‘Reframed: Marilyn Monroe’, que reexamina a vida e o legado da estrela de Hollywood.

É muito difícil para Marilyn Monroe ser vista como uma pessoa real. Sobretudo após todas estas décadas em que foi considerada um símbolo, uma deusa do sexo, uma bomba loira ou uma ‘vela ao vento’. Como disse a autora Sarah Churchwell, cujo livro The Many Lives of Marilyn Monroe - (As várias vidas de Marilyn Monroe – tradução livre): “O que pensamos sobre Marilyn é o que pensamos sobre as mulheres.” Na década de 1950, isso provou ser um juízo condenatório.

Dada a sua trágica overdose de barbitúricos em 1962, é fácil fazer de Monroe uma vítima que não dispunha dos mecanismos de sobrevivência ao sucesso. Mas estas são apenas verdades parciais, na melhor das hipóteses, fundamentadas por décadas de rumores, mitos e suposições sobre esta mulher.

Monroe foi constantemente descrita como vaidosa e estúpida por tirar partido da sua aparência para proveito próprio. Sofreu agressões sexuais e escreveu sobre isso, embora as suas palavras tenham tido eco em ouvidos moucos. Viveu uma vida que foi singular e extraordinária, mas as mulheres continuam a identificar-se com ela. Enquanto eu estava a ser entrevistada para a realização deste documentário, ao falar de Monroe, a certa altura, dei por mim, inesperadamente, a limpar as lágrimas dos olhos. A afinidade que sentimos com Monroe é, em parte, o que suspeito ter levado tantas pessoas a considerá-la uma fonte de inspiração contínua.

O corpo, rosto e cabelo de Monroe são símbolos culturais e de marketing. Ela também o sabia na altura. Hoje em dia, são também veículos de ideologia sobre feminismo, sexo, Hollywood e do movimento #MeToo. Devido a toda essa influência, a sua vida real pode por vezes parecer ter sido apagada, dominada pela força do seu próprio poder enquanto estrela de cinema. Mesmo os seus filmes - e muitos deles são verdadeiramente bons, incluindo “Some Like it Hot”, “Gentlemen Prefer Blondes” e “The Misfits” - são por vezes postos em segundo plano a favor da imagem da deusa da tela.


Marilyn Monroe, na praia, com a mãe, Gladys Baker, por volta de 1929. (Foto: Silver Screen Collection/Hulton Archive/Getty Images)

Tendo nascido com o nome Norma Jean Mortenson, filha de uma mãe solteira institucionalizada com problemas de saúde mental, a menina que veio a ser conhecida como Marilyn Monroe foi criada numa série de lares adotivos. Na altura em que conseguiu chegar aos estúdios de cinema - e obteve os seus primeiros papéis, verdadeiramente notáveis, em dois filmes seguidos em 1950 (“Asphalt Jungle” e “All About Eve”) - já tinha tornado a sua imagem muito mais sofisticada.

Não se tratou de uma subida linear e estratosférica à fama, mas de uma série de eventos de pára-arranca. E a imagem de Monroe, enquanto ícone sexual e estrondosa loura platinada não surgiu, assim, de um momento para o outro. Ela foi uma participante muito ativa no processo de criação da sua imagem de estrela, desde a mudança do seu nome até ao cabelo pintado, o seu andar “Jell-O on strings” até à história, provavelmente inventada, de que colocou berlindes nas pontas do seu sutiã para criar um maior sex appeal. Monroe compreendeu como maximizar o seu potencial de estrela. Trabalhou com um maquilhador pessoal, Allan “Whitey” Snyder e concordou em desenvolver uma série impressionante de truques promocionais a mando do seu estúdio.

Independentemente dos desafios que a vida lhe lançasse, ela era astuta, ambiciosa e autossuficiente: longe do cliché de “rapariga perdida” com que era tão frequentemente conotada. Em 1952, por exemplo, a descoberta da sessão fotográfica de Monroe nua na revista Playboy ameaçou arruinar a ascensão da sua carreira. A equipa de publicitários da 20th Century Fox insistiu que as fotos arruinariam a sua carreira, mas Monroe -- sabiamente – deu resposta aos rumores. Admitiu abertamente que era ela nas fotografias e explicou que a razão pela qual aceitara posar tinha sido simplesmente por estar prestes a ser despejada, na altura, e precisar do dinheiro.

Foi um risco calculado, e compensou: em vez de arruinar a sua carreira, o escândalo impulsionou-a ainda mais. A América de meados do século era, no geral, um país socialmente conservador, mas o poder ‘va-va-voom’ da imagem pinup e das bombshells durante os anos de guerra provavelmente abriram o caminho para uma imagem mais arriscada da feminilidade americana.

Mas o encanto por Monroe foi frequentemente referido na imprensa com frases bem reveladoras de que os escritores eram normalmente homens: os comentários incidiam sobre as suas curvas “tridimensionais” e a sua “prateleira”. Os jornalistas masculinos bajulavam-na ao mesmo tempo que a menosprezavam, aparentemente incapazes de compreender que a sua inteligência e a sua aparência poderiam não se excluir mutuamente. Passariam décadas até que as mulheres jornalistas e escritoras começassem verdadeiramente a procurar perceber Marilyn e o fenómeno à sua volta, desde Joyce Carol Oates até Gloria Steinem. Mas, na altura, Marilyn deve ter-se sentido muito só. Darryl F. Zanuck, o chefe da 20th Century Fox, chegou a afirmar, certa vez, que todo o seu talento estava “acima e abaixo do seu umbigo.”

Quando ela quebrou o seu contrato com Zanuck e se ausentou para Nova Iorque no auge da sua popularidade, tinha já mais maturidade e estava cansada dos papéis de “loira burra” que lhe atribuía e com os quais ele a tinha conotado. Algumas atrizes já se tinham revoltado contra o controlo do poder hierárquico destes grandes estúdios -- Bette Davis tinha-se rebelado contra o sistema e Olivia de Havilland ganhou um processo contra a Warner Brothers em 1943, prolongando a continuidade do seu contrato. Mas tomar uma posição contra um poderoso estúdio era ainda um grande risco, e, muitas vezes, difícil de vencer. Estes magnatas tendiam a levá-la a peito.

Quando, em 1954, Marilyn anunciou a fundação de Marilyn Monroe Productions, Zanuck entrou em pânico e suspendeu o seu contrato, mas ela recusou-se a implorar pelo seu lugar. Em vez disso, acusou-o de estar a fazer bluff, sabendo o quão popular era junto do público, e recusou-se a voltar até que fossem feitas grandes mudanças no seu contrato com a 20th Century Fox.

Surpreendentemente, em 1955, ela ganhou a sua batalha contra a 20th Century Fox. A Fox subiu o seu salário e garantiu que ela aprovaria o seu guião, realizador e até mesmo o cineasta em cada um dos seus filmes. Isto foi bastante inédito na altura, provando, uma vez mais, que Marilyn era muito mais criadora da sua própria imagem e da sua carreira, do que os homens dominadores da sua vida.

Talvez o ponto de viragem na nossa compreensão de Monroe tenha sido explicado de melhor forma por Gloria Steinem, ícone da segunda vaga feminista e fundadora de Ms. Magazine. Num ensaio de 1986 intitulado “The Woman Who Will Not Die.” - (A Mulher que não morrerá – tradução livre) - Steinem escreve: “Acima de tudo, as leitoras lamentaram que Monroe tivesse vivido numa época em que havia tão poucas formas de saber que estas experiências eram partilhadas com outras mulheres, que ela não estava sozinha.”

Para muitas mulheres, Monroe representa uma ferida que nunca cicatriza, e as suas batalhas para conseguir esculpir a sua própria identidade e ser “levada a sério” ainda constituem um pensamento incómodo para muitas de nós. No entanto, a vibrante rebeldia dos seus papéis em filmes como “Os Homens Preferem As Loiras”, quando a sua personagem diz, “Eu consigo ser inteligente quando é importante. Mas a maioria dos homens não gosta disso.”, dá-nos um consolo infinito.

Em última análise, não me interessa muito se aplicamos o rótulo de “feminista” ou “proto feminista” a alguém da sua época. Ela fez coisas inquestionavelmente pioneiras, e foi igualmente vitimada e forçada a tolerar uma misoginia sem limites. O que importa é que a sua história e o seu trabalho são, hoje em dia, um ponto de referência para uma compreensão cultural mais profunda e para uma maior aceitação das vontades e dos desejos das mulheres. Marilyn Monroe tinha um grande poder, e ao admirá-la, também nós o temos.

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