Gravações de crianças africanas a falar chinês tornaram-se uma moda na China. O conteúdo chega a ser racista: "Sou um monstro negro e o meu QI é baixo"

CNN Portugal , HCL
16 jun, 15:00
Vídeo controverso nas redes sociais

Encomendar um vídeo gravado por uma criança pobre em África tornou-se um negócio na China. Algumas mensagens são inofensivas - uma felicitação numa ocasião especial ou uma mensagem de parabéns - mas outras revelam conteúdos racistas

Em fevereiro de 2020, um vídeo chocante começou a circular nas redes sociais chineses. Nele, um grupo de crianças africanas está a ser instruído, por uma voz fora da câmara, a entoar frases em mandarim. As crianças repetem as palavras com sorrisos e entusiasmo - mas não compreendem que o que lhes é dito. E o que lhes estão a pedir para repetir é: "sou um monstro negro e o meu QI é baixo".

O vídeo foi colocado numa conta chinesa de redes sociais chamada "Clube de Piadas contra Negros" e fez com que uma equipa de reportagem da BBC investigasse quem o fez, e o porquê de o ter feito.

Publicação do vídeo numa rede social chinesa

De acordo com a investigação do canal britânico, este tipo de vídeos em que crianças negras gritam frases e palavras em mandarim, que não compreendem, tornou-se uma tendência e um negócio na China. Pedir um vídeo destes com mensagens personalizadas de parabéns ou de felicidades podem custar entre os 10 e os 70 dólares.

O vídeo em que as crianças são levadas a dizer que têm um QI baixo foi gravado no Malawi, onde um empresário chinês fez sucesso a gravar vídeos com crianças. Os locais tratavam-no por ‘Susu’ - que significa tio em mandarim - e pagava meio dólar por dia para gravarem mensagens para o público chinês, incluindo em dias em que eram suposto estar na escola.

A partir da geolocalização dos vídeos produzidos por este homem apelidado de ‘Susu’, a equipa de investigação conseguiu identificar duas contas de redes sociais que publicavam conteúdo a partir do mesmo local no Malawi. 

Nessa vila, os jornalistas encontraram Bright, uma criança de seis anos, que era uma das mais escolhidas por ‘Susu’ para aparecer nos vídeos. Adquiriu mesmo um estatuto de destaque, com a sua imagem a sorrir a fazer parte do logótipo das próprias contas de redes sociais onde os seus vídeos eram publicados.

Num dos vídeos, Birght carrega um balde até o encostar aos pés de ‘Susu’ que lhe acaricia a cabeça enquanto o obriga a lavar-lhe os pés. “Beliscava-nos quando fazíamos erros e quando fazíamos algo de errado ele batia-nos com um pau, metia-nos de castigo”, contou a criança à reportagem da BBC.

Em declarações gravadas pela equipa de reportagem com uma câmara oculta, o produtor de vídeos ‘Susu’ explica que “não podemos tratar os negros como amigos. Nunca tenhas pena deles, nunca, nunca, independentemente da situação familiar, é assim que deves tratar os negros, não te esqueças disso”.

Noutro momento, o homem chinês é depois confrontado abertamente pela jornalista sobre o seu trabalho. "Só quero espalhar a cultura chinesa, a música e a dança”, justifica-se.

Também ao ser interrogado pela BBC, Pilirani Wazili, o pai de uma das crianças do vídeo controverso, confessa ter ficado magoado por o filho ter sido ludibriado a participar no vídeo de ‘Susu’. “Nós lutamos para educar as nossas crianças e, de repente, alguém vem e usa-as como mercadoria. Se ele se fosse embora, ficávamos felizes”, garantiu.

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