Aos 17 anos era top mundial, aos 31 diz que o melhor está por vir

12 abr, 10:18

O top-10 júnior e o segundo melhor lugar português no ranking ATP já lá vão, mas o melhor Gastão Elias está de volta e cheio de ambição

«Mais longe e mais alto» é uma rubrica do Maisfutebol que olha para atletas e modalidades além do futebol. Histórias de esforço, superação, de sucessos e dificuldades.

Nas duas últimas semanas, um nome soou mais alto do que todos os outros no ténis português: Gastão Elias.

O nome está longe de ser desconhecido. Na verdade, dispensa apresentações.

Mas o facto de ter vencido dois torneios Challenger em duas semanas já seria suficiente para ser destacado.

Mais ainda, quando se tornou no português com maior número de finais de Challengers disputadas (21) e mais torneios conquistados na mesma categoria (10).

E ainda mais, porque parece que temos de volta ao melhor nível um dos mais promissores atletas do ténis português e aquele que detém o segundo melhor ranking ATP de sempre no país: 57.º, em 2016.

Prova disso, a subida esta segunda-feira ao lugar 156 do ranking mundial, a melhor classificação de Gastão Elias desde 2018.

Contudo, nenhum destes dados deslumbra muito o tenista de 31 anos, natural da Lourinhã.

Aliás, ele desarma-nos a cada tentativa.

Ora vejamos.

Duas vitórias em semanas consecutivas de torneios Challenger…

«Estando bem física e mentalmente, pode acontecer o que aconteceu estas duas semanas. Mas não vão ser só rosas daqui para a frente. Tenho e de focar-me no meu trabalho, não desesperar quando não aparecerem resultados e continuar na linha que tenho vindo a traçar. Estes resultados mostram que estou num dos caminhos certos, mas é muito difícil estar sempre em cima.»

Pelo menos, lá deu para se tornar no português com mais títulos Challenger…

«O recorde é ótimo. Ser o português com mais vitórias em Challenger é uma marca assinalável, mas tenho a fasquia mais lá em cima. Gostava era de ser o melhor em torneios ATP. Mas para lá caminharemos».

Bem, mas certo é que estamos a assistir ao renascimento do melhor Gastão Elias.

«Não diria renascer. Mas antes que, finalmente, consegui meter em prática outra vez o jogo que não tinha conseguido fazer nos últimos anos. Já me sentia a jogar bem nos últimos meses e agora surgiram estes resultados.»

Falamos do melhor lugar no ranking dos últimos quatro anos?

«Acredito que tenho boas possibilidades de chegar aos 100 primeiros esta época. Consegui somar muitos pontos nestas duas semanas, o que me dá margem para poder continuar pontuar. Tenho de aproveitar ao máximo isso, continuando nos bons resultados.»

Será caso para desistir?

Nem por sombras. Até porque a conversa com o Maisfutebol flui de forma relaxada, pontuada com a ambição, mas também o bom-humor do tenista que, este ano, é o 90º do mundo com mais pontos conquistados para o ranking ATP.

E nem o vamos deixar argumentar sobre isso!

Podia ter sido o motocrosse, mas foi o ténis que o levou para os EUA aos 16 anos

É quase umbilical a relação de Gastão Elias com o desporto. O pai foi piloto de motocrosse e esse até foi um dos primeiros desportos que deu a experimentar ao filho.

Em criança, Gastão passou ainda pelo futebol, natação, karaté e, claro, o ténis, que experimentou pelos quatro anos e que lhe viria a traçar o destino.

«Talvez fosse aquele para o qual tinha mais jeito. Comecei a ganhar torneios, fui ganhando o gosto e tive um crescimento natural. Aos 10 ou 11 anos comecei a competir internacionalmente e deu para perceber que estava mais ou menos num nível similar aos melhores da Europa», recorda.

Desde cedo, a ligação ao ténis obrigou Gastão Elias e os pais a viajar bastante. Sem campos de ténis na Lourinhã, começou por ser Peniche o primeiro sítio onde treinava, outras vezes nas Caldas da Rainha e, a partir dos 13 anos, o destino passou a ser Lisboa, onde tinha tenistas da sua idade com quem treinar.

A isto, juntavam-se as inúmeras viagens por todo o país para competir ao fim de semana, e, com os títulos nacionais conquistados aos 12 e 14 anos, as cada vez mais frequentes competições internacionais onde passou a marcar presença.

A maior viagem de todas, contudo, aconteceu aos 16 anos e foi revolucionária na vida e carreira de Gastão Elias.

Com essa idade, um ano depois de se ter estreado surpreendentemente no quadro principal do Estoril Open com apenas 15 anos (!!), Gastão Elias atravessou o Oceano Atlântico rumo aos EUA. Afinal, o profissionalismo era a ambição e esse desejo justificava todos os esforços.

Gastão Elias estreou-se no quadro principal do Estoril Open com apenas 15 anos

«Comecei a ganhar noção de que se continuasse a progredir, podia vir a ser um bom jogador a nível profissional. Por isso, decidi investir totalmente no ténis, fui viver para uma academia na Flórida, onde fiquei até aos 18/19 anos», começa por dizer.

«Na altura, tinha algumas empresas de agenciamento de atletas interessadas em gerir a minha carreira. Juntamente com os meus pais, decidimos que aquela academia era uma boa opção para mim, pelas condições que oferecia e também porque já tinha formado vários tenistas de topo», acrescenta.

Na IMG, academia por onde passaram nomes como Andre Agassi, Tommy Haas, Boris Becker, Serena Williams, Maria Sharapova, entre muitos outros, Gastão Elias desenvolveu o seu ténis, ao mesmo tempo que tinha um contacto diário com tenistas de nível mundial.

Ali, além de se ter crescido num contexto competitivo que fez dele um dos melhores tenistas sub18 do mundo – chegou a sexto do ranking mundial de juniores – Gastão Elias retirou aprendizagens que lhe têm sido muito importantes ao longo da carreira.

E isso quase o fez esquecer que era um adolescente a deixar a casa dos pais e o seu país para ir em busca de um sonho.

«Fui com um tutor e não tive problemas para me ambientar. Todos cuidaram sempre de mim da melhor maneira. Mas agora, olhando para trás, nem consigo imaginar como deve ser para uns pais mandar um filho de apenas 16 anos para outro país assim», analisa, ainda que sem qualquer ponta de arrependimento.

«Foi um período muito importante na minha carreira, para me desenvolver e aprender. Fiquei lá três anos e acabei o secundário à distância. Foram anos de aprendizagem muito bons. Sentia-me rodeado de pessoas boas, dos melhores profissionais do mundo e conseguia ter mais ou menos noção do que era o mundo profissional», reconhece.

Passar «de estrela mundial» a «um peixinho no oceano»

Os resultados que ia obtendo como júnior e o nível que apresentava aos 17 anos fizeram com que o tenista português tomasse uma opção que teve tanto de arriscada como de ambiciosa.

«Abdiquei do meu último ano de sub-18 e optei por entrar no circuito profissional a full-time. Essa é sempre uma transição difícil. Como júnior, estava habituado a ser dos melhores do mundo e a ganhar muitos jogos. E de repente passas a jogar contra homens, grandes atletas e não vales nada.  És apenas um peixinho no oceano», descreve.

«Tive um ano e meio difícil, perdi muitos jogos e não estava habituado a isso. Mas, de certa forma, esse enfrentar da realidade foi bom para mim. Passas de ser uma estrela mundial nos juniores para um nível onde ninguém te conhece ou dá importância. E comem-te vivo. Por isso é que há muitos jogadores com dificuldades em passar para esse mundo», analisa, olhando para trás.

Contudo, as derrotas que Gastão foi somando, e que eram mais do que as vitórias, nunca o fizeram duvidar do seu valor.

«Eu perdia muitos jogos, mas acreditava que estava no caminho certo. Achava que era o percurso normal, até porque tinha visto a realidade do que acontecia com tantos tenistas na academia nos EUA», destaca o tenista que aos 19 anos se mudou para o Brasil, país de origem do treinador com quem escolheu trabalhar.

A evolução que teve foi-lhe dando cada vez mais garantias de estar a seguir o caminho certo, como quando, com apenas 22 anos, esteve à porta do top-100 mundial.

«Em 2013, cheguei a n.º 103 do mundo. Ou seja, a minha entrada no quadro profissional foi mais ou menos rápida. Até porque nessa altura, havia pouquíssimos jogadores da minha idade à minha frente no ranking. Isso mostrava que eu estava a fazer as coisas bem», defende.

O que é certo é que foi por essa altura que começaram também a surgir algumas pequenas lesões que foram impedindo o tenista de ter a consistência necessária para entrar no lote dos 100 melhores do mundo.

«Faltava-me regularidade, o que é fundamental para estar no top-100. Mas depois em 2016 alcancei essa regularidade. Tive um ano em que consegui competir sem problemas físicos e obtive vários bons resultados, como duas meias-finais de torneios ATP», destaca.

O ano de 2016 foi, de resto, muito especial para Gastão Elias.

Em 2016, Gastão Elias venceu Gael Monfils, então n.º 7 do Mundo

Além de ter chegado a 53.º do ranking ATP – o tal segundo melhor lugar de um tenista português, apenas superado por João Sousa que já foi 28.º - Gastão venceu pela primeira vez um jogador do top-10 mundial.

Aconteceu em Estocolmo, diante do francês Gael Monfils.

«Ganhei-lhe na melhor época da carreira dele. Umas semanas depois foi jogar o Masters [torneio de final de época disputado pelos oito melhores classificados de cada ano]. Mas eu também estava a jogar o melhor ténis da minha carreira nessa fase.», orgulha-se.

Ainda em 2016, somos obrigados a recordar o tenista, houve mais um evento desportivo em que também se destacou.

«Ah, claro! Os Jogos Olímpicos. Às vezes esqueço-me que fui aos Jogos», reage numa gargalhada.

«Foi uma experiência inacreditável. Realmente incrível. A cerimónia de abertura no Maracanã. Estar a competir pelo país, o que no ténis é raríssimo. Conseguir alcançar a primeira vitória de sempre para o ténis português nuns Jogos. Os tenistas por norma não valorizam tanto os Jogos Olímpicos como outros desportistas, mas claro que foi um grande orgulho», sublinha.

«Poucos se podem orgulhar de ter derrotado um vencedor de Grand Slam»

Além dos Jogos Olímpicos e das conquistas já relatadas, Gastão Elias pode dizer com vaidade que, em várias ocasiões, foi colega de treino de Roger Federer e Rafael Nadal que, juntos, somam 41 títulos de Grand Slam.

Mas o feito que realmente enche de orgulho o tenista português é outro e aconteceu em 2017, em Lyon, a uma semana do torneio de Roland Garros.

«Ganhar ao Del Potro, que venceu o US Open em 2009, foi um dos dias mais especiais da minha carreira. Ele na altura até estava fora do top-10 do ranking ATP, mas considero que essa é a minha maior vitória até hoje», introduz.

«Há poucas pessoas no mundo do ténis que possam dizer que ganharam a um vencedor de Grand Slam. Depois de eles terem o vencido, claro. Ganhar a um gigante – em todos os sentidos! -, depois de ter assistido a tantas vitórias dele, contra Federer, Nadal, Djokovic... é inesquecível. E ter conseguido ganhar em dois sets foi mesmo muito marcante», realça.

Esse ponto alto de Gastão, porém, antecedeu o início dos problemas físicos que o afastaram dos melhores do mundo durante quase dois anos… que se transformaram em quatro.

«Em 2017 comecei a ter algumas lesões. Mudei de equipa e de preparadores físicos – que considero dos melhores do mundo -, mas o meu corpo não se adaptou à nova forma de trabalho. Primeiro, parei por causa do ombro; depois começou a doer-me o punho; depois tive problemas na mão; num torneio em Portugal, fiz uma rotura do posterior; também comecei com dores na lombar», enumera, num lamento.

«Não conseguia competir um mês sem ter problemas físicos e quando conseguia voltar a competir, nunca estava na melhor forma física, como é normal».

Positivo por natureza, Gastão Elias não se deixou abalar por essa fase. Até porque como desportista de alto-rendimento desde tão tenra idade, sabe que esse é um risco a que qualquer um está sujeito.

«Não vou dizer que não foi frustrante. Mas é uma realidade normal na carreira de um desportista. Até então, tinha tido um percurso sem lesões e em 2017, comecei a ter lesões que exigiam mais tempo de recuperação. Mas nunca desisti. Sabia que tinha nível para voltar ao top-100 e tive de aprender a lidar com isso», aponta.

O pior é que esta fase de que fala surgiu imediatamente antes de a pandemia ter parado o mundo.

«Quando me sentia pronto para voltar, surgiu a pandemia. Isso é que foi realmente frustrante. Porque tirou-me mais dois anos do que seria de esperar. O ranking ficou congelado, e eu estava nos 600 e tal porque tinha estado lesionado antes», nota.

A pergunta torna-se, por isso, quase obrigatória: onde poderia ter chegado sem um interregno competitivo tão alargado?

«É impossível responder. Foram anos complicados em que só podia competir em torneios pequenos, uma vez que não tinha ranking para mais. Se não fosse a pandemia, talvez pudesse ter chegado a este ponto há dois anos. Fiquei a patinar dois anos porque o ranking estava congelado e acho que podia ter estado mais tempo lá em cima. Mas isto foi algo que aconteceu a todos», desvaloriza.

«Tenho o objetivo claro de voltar ao top-100 este ano... e o top-50 vem a seguir»

Após vencer o Oeiras Open2, uma semana depois de ter triunfado no Oeiras Open1, Gastão Elias arrancou gargalhadas aos jornalistas presentes na conferência de imprensa.

«Eu disse que estou a jogar o melhor ténis da minha carreira e vocês riram-se. Acharam que eu era maluco».

Um dia depois, já mais a frio, na conversa com o nosso jornal, o tenista que já foi 53.º do mundo… reforçou a convicção que deixara na véspera.

«Com toda a certeza. Com o nível a que estou a jogar neste momento, acredito que conseguiria ter bons resultados a nível ATP, em quadros principais. Acho que daria para ganhar muitos jogos a esse nível», defende.

«Infelizmente, o meu ranking atual não me permite jogar torneios ATP de forma regular. Só conseguirei entrar nesses torneios se for convidado. Se alguém estiver a ler…», atira, sorridente.

Ainda assim, com ou sem wild cards para torneios ATP, Gastão Elias está confiante de que 2022 pode ser o seu ano. E tem objetivos bem definidos.

«Quero voltar a entrar no top-100 este ano. Esse é o objetivo. Estou a cerca de 50 lugares, por isso não acho que seja uma coisa assim tão distante», começa por dizer, antes de elevar a fasquia logo a seguir.

«Ainda quero melhorar o 57.º lugar no ranking ATP. Agora vou atrás do top-100 e a seguir vem o top-50», remata, deixando clara a convicção de que na carreira de Gastão Elias, o melhor ainda está por vir.

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