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Lula: um inimigo da Europa no Parlamento português? E no 25 de Abril?

17 abr 2023, 19:56
Xi Jinping e Lula da Silva (Ken Ishii/AP)

Não era preciso ser adivinho para antecipar o desaire que o convite a Lula da Silva para discursar nas comemorações do 25 de Abril provocaria. Não eram igualmente necessários dotes de vidente para antever o erro que o apoio de António Costa à sua candidatura presidencial, em outubro passado, acabaria por ser. Nem tão-pouco qualquer antipatia em especial para sentir uma pontada de desconforto perante os excessos de cumplicidade entre o Presidente da República Portuguesa e o então candidato a regressar ao Planalto. 

Em maio de 2022, em entrevista à revista Time, Lula considerava Zelensky “tão culpado pela guerra” na Ucrânia quanto Vladimir Putin, que a invadiu. “Putin não deveria ter invadido, mas não é o único culpado. Os Estados Unidos e a União Europeia também o são”, afirmou, em declarações idênticas às que proferiu recentemente.

Em visita à China, o agora novamente presidente do Brasil considerou mesmo que “a decisão da guerra foi tomada por dois países”, sendo que a Ucrânia dificilmente tomou a decisão de ser invadida, ocupada e destruída por tropas russas. 

Mais do que isso, e tão mau quanto isso, Lula responsabilizou a União Europeia “pela continuidade da guerra”, quando a UE não tem feito mais do que procurar garantir uma coisa: que a democracia ucraniana, e a sua integridade territorial salvaguardada pela Carta das Nações Unidas, sobrevive. 

“É preciso convencer os países que fornecem armas à Ucrânia a pararem”, propõe o presidente brasileiro, sabendo perfeitamente que a consequência de desarmar a Ucrânia não seria “a paz”, como finge defender, mas a vitória da Rússia, como não admite querer. 

Ao interpretar uma invasão com uma equivalência moral entre quem invadiu e quem foi invadido (“Só Putin e Zelensky ganham com esta guerra”), Lula desresponsabiliza ativamente Putin e culpa dissimuladamente a União Europeia, de que Portugal faz parte. 

Para um país que apoiou a Ucrânia desde o início do conflito, como o nosso, tal não é menos do que uma afronta. Que Lula o tenha feito nas vésperas de visitar Portugal em plena celebração da Democracia, é mais do que isso: é desrespeito. 

E Costa, Marcelo e Santos Silva, que se solidarizaram consistentemente com o povo ucraniano ao longo do último ano, tinham o dever de preservar a credibilidade das instituições que encabeçam. 

Em Portugal, Governo, Presidência e Assembleia não haviam vacilado um milímetro no apoio à Ucrânia desde 24 de Fevereiro. 

Até hoje. Até Lula.

A reação do Partido Socialista foi tão inverdadeira quanto desonesta. A deputada Jamila Madeira comparou a posição de Lula à de Emmanuel Macron, na ironia que é o brasileiro ter atacado países que forneceram armas à Ucrânia, como o presidido por Macron. 

O ministro Gomes Cravinho desculpabilizou Lula e referiu a política externa autónoma de cada Estado soberano, na ironia que é o presidente do Brasil ter desprezado a soberania da Ucrânia e Cravinho ser, imagine-se, diplomata de carreira da União Europeia, que Lula visou.

Com mais liberdade e menos contorcionismo moral, antigos ministros de António Costa fizeram por reestabelecer alguma dignidade ao seu espaço político. Azeredo Lopes, comentador da CNN Portugal e ex-ministro da Defesa, alertou para o risco de as palavras de Lula serem lidas como hostis “relativamente a todos os que apoiaram a legítima defesa da Ucrânia”, como Portugal, prestes a recebê-lo. “Mau” e “estranho” foram os adjetivos empregues pelo professor universitário. “Dá a impressão que todos os países que apoiam a Ucrânia são culpados pela guerra e que impedem uma opção pacífica”, observa, com pertinência. 

Adalberto Campos Fernandes, também ex-ministro e também comentador da CNN, adverte que os valores do 25 de Abril “não têm limites geográficos nem conveniências estratégicas” e que “os portugueses estão do lado da Europa democrática, sem hesitações nem hipocrisia”.  Alexandra Leitão, também ex-ministra e também comentadora da CNN, constatou o óbvio: que as posições de Lula são contrárias à diplomacia portuguesa e que criam “um novo problema para o governo, para o Presidente da República e para o presidente da Assembleia da República”. 

Ora, Costa, Marcelo e Santos Silva ‒ autores e feitores da ideia peregrina ‒ ainda vão a tempo de escutar este conjunto de avisos, de optar pelo mal menor, proteger o 25 de Abril e remeter a intervenção de um inimigo da Europa para um dia mais discreto, oxalá mais fácil de esquecer.

Lula livrou o Brasil de Bolsonaro, mas não salvaria a Ucrânia de Vladimir Putin. Um democrata, de esquerda ou de direita, reconhece que a primeira não iliba a segunda. E um democrata, de esquerda ou de direita, preferiria ouvir outra voz na Assembleia da República, no dia da Liberdade.

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