Aconselharam-no a escrever sobre o que sabia, então escreveu sobre o que não sabia

Agência Lusa , CF
14 nov, 15:51
Livros ou ebooks? (Foto: U. Akdermir/Unsplash)

Marco Pacheco é vencedor do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís

Marco Pacheco, com o romance “A guerra prometida”, venceu "por unanimidade" o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís, no valor pecuniário de 10 mil euros, disse à agência Lusa fonte da Estoril Sol.

O Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís foi instituído em 2008 pela Estoril Sol em parceria com a Editorial Gradiva, e visa distinguir, anualmente, um romance inédito em língua portuguesa, que é posteriormente publicado.

O júri, que foi presidido por Guilherme d’Oliveira Martins, do Centro Nacional de Cultura, afirmou em ata que “Guerra Prometida” é “um romance que, partindo da inovadora ação empresarial e social de Francisco Grandella [1853-1934], constrói uma estória familiar e pessoal de grande alcance humano. O período de transição do século XIX para o século XX até à I Grande Guerra Mundial [1914-1918] é sinalizado por situações de pobreza que vão determinar a evolução do protagonista”.

De acordo ainda a ata, citada pela Estoril Sol, o romance “é não só de época, mas, também, de significado psicológico e social”, recorrendo a uma linguagem que está “num nível criativo que, associada à original estrutura narrativa de quatro partes, dá a esta obra um protagonismo literário assinalável do que poderá ser considerado um novo realismo”.

Aconselharam-no a escrever sobre o que sabia. Então, escreveu sobre o que não sabia 

Marco Pacheco, 48 anos, é diretor criativo e executivo da agência de publicidade BBDO, e sobre si afirma ser um “açoriano de várias ilhas”, explicando: “Nasci em São Jorge poucos meses depois do 25 de Abril [de 1974], mas vivi também na Terceira e em São Miguel, antes de vir estudar para Lisboa, onde vivo hoje na freguesia de Campolide”.

A vontade de contar histórias suas justifica esta aventura na ficção. “No meu trabalho, as histórias que conto não são minhas, são dos anunciantes, e eu tenho muitas que eles jamais comprariam”, cita a mesma fonte.

Sobre as suas influências literárias, Marco Pacheco afirmou que “foram mudando com a idade”.

“Os primeiros textos de que me lembro de ter gostado (e ainda gosto) foram canções de Tom Waits, Bob Dylan, Leonard Cohen, Bruce Springsteen, Rui Reininho, Morrisey e Nick Cave, entre outros. Os ficcionistas e poetas propriamente ditos chegaram depois, muito depois, até depois da escola secundária: nessa altura só consegui entrever algum interesse no desassossego de Fernando Pessoa”.

“Foi já no final da faculdade que comecei a descobrir Mário de Carvalho, Lobo Antunes, Raul Brandão, Hemingway, Proust, Almeida Faria, Agustina, Coetzee, Faulkner, Machado de Assis, Jorge Luís Borges, Don DeLillo e muitos outros que fizeram de mim leitor e, quem sabe, um dia escritor”, afirmou.

Sobre “A Guerra Prometida”, Marco Pacheco referiu que se encontram no romance “alguns assuntos que, em graus diferentes, [o] fascinam: a temeridade da adolescência, a fé (mais ou menos religiosa) e, sobretudo, a morte”.

“A morte não apenas como fatalidade, mistério ou escapatória, mas também como objetivo, como ideal, como redenção. Uma ideia muito cristã e um pouco radical que precisava de uma época também ela de radicalismos, como foi a da Primeira República Portuguesa”.

Para o autor, a Primeira República (1910-1926) é um período onde encontrou “os extremismos políticos e religiosos (entre monárquicos e republicanos), mas também o otimismo (da chegada da República) e o medo (da Primeira Grande Guerra)” que o “ajudaram a construir e a justificar a história de um rapaz com obsessões e sonhos um pouco mais estranhos do que o habitual para a sua idade”.

“Outra razão para escolher um período histórico sobre o qual nada sabia foi a minha vontade (quiçá juvenil) de contrariar o conselho que mais ouvi enquanto romancista aspirante: escreve sobre o que sabes”.

O júri da edição deste ano do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís foi presidido por Guilherme d'Oliveira Martins e também constituído por José Manuel Mendes, pela Associação Portuguesa de Escritores, Maria Carlos Gil Loureiro, pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, Manuel Frias Martins, pela Associação Portuguesa dos Críticos Literários, e, ainda, pelos escritores José Carlos de Vasconcelos, também jornalista, diretor do Jornal de Letras, Liberto Cruz e Ana Paula Laborinho, diretora da Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura em Portugal, convidados a título individual, e Dinis de Abreu, em representação da Estoril Sol.

No ano passado, o galardão distinguiu o romance "Terrinhas", de Catarina Gomes.

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