Suspeito de planear ataque à Faculdade de Ciências assume vontade de "esfaquear pessoas" e "atirar setas" mas diz que "não tinha coragem de matar"

Inês Pereira | Agência Lusa
18 out, 13:40

 

 

João Carreia começou a ser ouvido, esta terça-feira, em tribunal. Com a voz arrastada, o jovem de 19 anos confirmou perante o coletivo de juízes que comprou as armas e explicou que adiou várias vezes o ataque porque "não queria fazer aquilo realmente"

O jovem suspeito de planear um ataque terrorista à Faculdade de Ciências assumiu esta terça-feira em tribunal a vontade de “atirar ‘cocktails molotov’, setas e esfaquear pessoas” mas considerou que não teria “coragem para matar uma pessoa”.

Na primeira sessão do julgamento no Juízo Central Criminal de Lisboa, João Carreira, de 19 anos, acedeu a prestar declarações ao coletivo de juízes, presidido por Nuno Costa e, num tom monocórdico e inexpressivo, tem respondido às questões, confirmando a obtenção dos materiais, o interesse que vinha de trás por assassínios em massa ou o estado depressivo em que estava em fevereiro, quando foi detido pela Polícia Judiciária na véspera do ataque.

“Talvez ir para o auditório e atirar cocktails molotov, atirar setas, esfaquear pessoas”, respondeu o arguido ao juiz sobre o que pensava fazer quando chegasse à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, sublinhando como motivações “a depressão, o facto de estar em Lisboa e querer a atenção das pessoas da comunidade”.

Confessando que não queria “atingir ninguém em especial”, o estudante universitário descreveu os sucessivos adiamentos da execução do ataque - que chegou a ser apontado para os dias 3, 4, 7 e 9, até fixar finalmente o dia 11 – e defendeu que isso se traduzia numa vontade de não executar mesmo o ataque.

“Por que razão é que não avançou?”, questionou o juiz. E João Carreira respondeu: “Porque não queria. (…) Acho que não queria fazer aquilo realmente. (…) Acho que não tinha coragem para matar uma pessoa”.

O arguido vincou que o interesse pelo tema dos assassínios em massa despontou em 2018, reconheceu ter noção de que aquilo que pensava fazer na Faculdade de Ciências “era errado” e até admitiu ter pensado em recorrer a ajuda psicológica.

“Pensei um bocado mas depois desisti”, explicou, revelando ter tido anteriormente acompanhamento médico por causa do autismo, mas que não contactou o médico por já não falar com ele há muito tempo e por pensar que "podia resolver o problema sozinho".

O jovem afirmou ainda que começou a pensar no ataque em janeiro e que "não pretendia atingir ninguém em especial" e que "falava com alguém que gostava de assassinatos em massa". Quanto às armas, revela que começou a pensar em obter armas no OLX e numa loja de caça em Lisboa, tendo comprado uma besta e uma faca militar no OLX e outra faça e um punhal na loja de caça.

Ao juiz, João Carreira explicou que "ia transportar o material para a faculdade numa mochila e mala de viagem" e que chegou a levar uma mala vazia para a faculdade e que "ninguém fez nada".

Advogado defende que não ia haver ataque

O advogado do jovem entende que o ato não seria concretizado, uma vez que já tinha sido adiado várias vezes. Em declarações aos jornalistas à entrada para o Juízo Central Criminal de Lisboa, onde arrancou o julgamento, Jorge Pracana enfatizou a necessidade de “procurar a verdade” no caso que envolve João Carreira. O advogado lembrou também que o jovem de 19 anos foi detido em casa sem ter levado a cabo o ataque.

“Entendo que não [haveria ataque], ele já tinha sido adiado várias vezes”, defendeu o advogado, acrescentando: “Aquilo que for decidido será decidido com certeza a bem de todos nós, porque todos nós temos filhos, somos pais e poder-nos-ia acontecer qualquer coisa deste género. E importa saber realmente o que é que ia acontecer”.

Jorge Pracana pediu para o julgamento ser realizado à porta fechada, aguardando ainda uma decisão do tribunal sobre esta questão. Questionado sobre as razões desse pedido, o mandatário do jovem justificou-se com a vontade de preservar o futuro do arguido.

“Temos um jovem de 18 anos a quem quero garantir um futuro com alguma estabilidade, sem prejudicar o vosso direito a informar, mas entendo assim. Ainda não tenho despacho e há que aguardar o que o senhor juiz vai decidir”, observou, sem deixar de notar que João Carreira “tem a vida pela frente” e que a “comunidade já reconheceu a necessidade de lhe dar uma oportunidade e não o marcar com um carimbo para toda a vida”.

O advogado sublinhou também que o jovem estava calmo na última vez que o viu “há uns dias” e que continua em internamento preventivo no Hospital Prisional de Caxias.

Jorge Pracana deixou críticas à atuação da Polícia Judiciária aquando da detenção e visou o diretor nacional da instituição, Luís Neves.

“Depois daquela célebre conferência de imprensa do diretor nacional da Polícia Judiciária, não posso responder mais do que isto… Se há aqui algum empolamento começou pela investigação logo no início”, disse, referindo-se ao facto de a PJ ter divulgado a detenção. “Só estou a falar a nível da detenção, porque se não tivesse sido aquela conferência de imprensa ninguém sabia de nada”, afirmou.

Confrontado sobre se o caso de uma ameaça de ataque terrorista a uma faculdade devia ser ocultado da sociedade, Jorge Pracana rejeitou essa visão, mas remeteu mais comentários para quando chegar o momento de fazer alegações.

“Uma questão é esconder, outra é no momento em que nada há e felizmente não houve nenhum ato e a pessoa estava em casa, portanto, porquê?”, questionou, finalizando: “Não acho que seja possível nem desejável esconder. O que estou a dizer é que não era necessário criar um alarme com aquela dimensão quando, afinal, se veio a apurar agora todo um conjunto de circunstâncias que, se calhar, não justificavam aquilo naquela altura”.

João Carreira foi acusado em julho pelo Ministério Público (MP) de dois crimes de terrorismo, um dos quais na forma tentada, e de um crime de detenção de arma proibida.

Está em prisão preventiva desde 11 de fevereiro de 2022, tendo a medida de coação sido substituída por internamento preventivo no Hospital Prisional de Caxias, com o MP a alegar “forte perigo de continuação da atividade criminosa e um intenso perigo de perturbação da tranquilidade e da ordem públicas”.

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