Como o ouro está a aproveitar para brilhar até novos máximos

ECO - Parceiro CNN Portugal , Nuno Carregueiro
1 fev 2023, 11:35
Ouro

O ouro já valoriza 19% desde novembro e está próximo de máximos históricos acima dos 2 mil dólares, uma fasquia que os analistas acreditam irá superar em 2023

Debilidade do dólar, crescimento económico global a abrandar, bancos centrais mais perto de concluírem o atual ciclo de agravamento da política monetária, inflação a persistir em níveis elevados e compras físicas no nível mais elevado das últimas décadas por parte dos bancos centrais. São estes os ingredientes que estão a favorecer a atratividade do investimento no ouro.

O metal precioso está a negociar em máximos de nove meses (abril de 2021) e já acumula uma valorização de 17% desde o início de novembro, mas os analistas continuam otimistas com a evolução das cotações, mesmo que antecipem uma correção no curto prazo, como se tem verificado nas últimas sessões.

A 7 de março de 2022, pouco depois da invasão da Ucrânia por parte da Rússia, o ouro superou os 2.000 dólares por onça, ficando muito perto dos máximos históricos que atingiu em agosto de 2020. Os futuros sobre o ouro, negociados na Comex, estão atualmente a transacionar acima dos 1.900 dólares por onça, acumulando uma valorização de 5% em 2023.

“Numa perspetiva de médio prazo, estou otimista que o metal precioso tem grande potencial para desafiar o máximo do ano passado, o que levará a cotação a aproximar-se do nível psicológico dos 2.000 dólares”, diz ao ECO Hebe Chen, analista da IG Markets na Austrália.

“Existe potencial para mais ganhos e é possível que se atinja um novo máximo histórico, que na verdade já não está muito longe”, assinala Ricardo Evangelista, analista da ActivTrades, comentando as perspetivas para o ouro em 2023.

“O ouro iniciou 2023 com fortes ganhos, com o impulso positivo de dezembro a persistir no novo ano. O que apoia a nossa visão de que 2023 será mais favorável para os metais, já que os ventos contrários do ano passado – principalmente o dólar e a força das yields – começam a reverter”, refere Ole Hansen, Head of Commodity Strategy do Saxo Bank.

Ventos a favor

Este desempenho do ouro nos últimos meses colide com as perspetivas de muitos analistas e investidores de que esta matéria-prima é um “ativo morto” e um “peso morto” nas carteiras de investimento. A estabilidade do metal precioso e o seu estatuto de ativo de refúgio são argumentos de peso para que integrem uma carteira diversificada de ativos. Os retornos registados ao longo dos últimos anos reforçam a atratividade do investimento.

Acresce que é um ativo influenciado por um conjunto diminuto de fatores, pelo que é fácil de entender e antecipar as suas movimentações. O mais determinante acaba por ser o dólar, com o ouro historicamente a variar em sentido contrário à moeda norte-americana.

A evolução das taxas de juro também é relevante, pois as obrigações são um ativo que concorre com o ouro na captação de investimento. O metal precioso é mais atrativo em períodos de fraco crescimento económico. A inflação elevada, apesar de potenciar taxas de juro mais elevadas, também é positiva para o ouro. A geopolítica é outro dos fatores relevantes, pois em períodos de turbulência os investidores reforçam a procura por ativos considerados mais seguros, como é o caso do ouro.

Como acontece com todas as matérias-primas, a cotação do ouro também é influenciada pela relação entre a procura e oferta, sendo que no caso do metal amarelo a evolução da procura está praticamente desligada do rumo da atividade económica.

O ouro tem assim características únicas entre os diversos ativos que os investidores têm ao dispor, potenciando a sua atratividade para integrar uma carteira de longo prazo. Numa perspetiva de curto prazo – mantendo-se as atuais perspetivas – também estão reunidas as condições para que a cotação do ouro mantenha a tendência descendente.

A guerra na Ucrânia não tem fim à vista, o dólar está numa trajetória descendente, o crescimento da economia global está a abrandar, os bancos centrais estão a aliviar o ritmo de subida de juros e a inflação persiste em níveis elevados apesar de estar a aliviar.

Se o dólar continuar a cair à medida que o Fed abrandar o seu ritmo de aperto da política monetária nos próximos meses, o ouro provavelmente roubará o estatuto do dólar como principal ativo refúgio”, Hebe Chen, analista da IG Markets

Apesar destes ventos favoráveis para o ouro, alguns desenvolvimentos neste início do ano podem retirar alguma força à alta do metal precioso. As relações entre a China e os Estados Unidos já tiveram piores dias, a economia europeia mostra resiliência e pode escapar a uma recessão, a inflação está a descer de forma mais pronunciada do que muitos economistas esperavam.

Vários analistas, apesar de manterem uma perspetiva positiva no longo prazo, aguardam que o ouro registe uma correção, até porque a cotação está já muito perto da barreira psicológica dos 2.000 dólares.

O responsável da unidade de matérias-primas do Saxo Bank estima que, no curto prazo, o ouro pode baixar para a fasquia dos 1.800 dólares por onça. Ainda assim, “pode manter a tendência de alta iniciada em novembro”, refere Ole Hansen, assinalando que “será a capacidade para manter este suporte em reação a dados económicos mais fortes do que o esperado que nos vai dar uma indicação mais clara da força do ouro além dos desenvolvimentos de curto prazo”.

Dólar deve continuar a corrigir

Depois de uma escala impressionante durante grande parte de 2022, o dólar entrou numa trajetória descendente muito acentuada, sendo este o fator que mais justifica o bom desempenho do ouro desde então.

Em setembro do ano passado o índice do dólar (DXY) negociava em máximos históricos, acumulando uma subida anual de 20%. Desde o final desse mês, o índice que mede o desempenho da moeda norte-americana face às principais divisas mundiais já desvalorizou perto de 10%, negociando atualmente em torno de mínimos de nove meses.

Esta inversão de tendência coincidiu com o início do declínio da inflação nos EUA face a máximos de 40 anos. Esta tendência, aliada com o abrandamento da economia norte-americana, reforçou a perspetiva de que a Reserva Federal iria abrandar o ritmo de subida de juros.

O banco central dos Estados Unidos baixou para 50 pontos base em dezembro e deve voltar a reduzir o ritmo para 25 pontos base na reunião de 1 de fevereiro. Apesar dos alertas sucessivos dos responsáveis do banco central de que combate à inflação está longe de estar completo, os investidores acreditam que a taxa terminal será atingida durante a primavera e que o segundo semestre será marcado por redução nas taxas de juro.

Esta narrativa dá argumentos para que o dólar continue a trilhar um caminho descendente em 2023, o que levará o ouro a fazer o caminho inverso. Os dois ativos apresentam uma correlação inversa muito acentuada, sendo que no último ano (como é percetível no gráfico) foi quase perfeita.

“O principal fator que tem determinado a performance do ouro tem sido a cotação do dólar, devido a correlação invertida entre os dois ativos. Com a perspetiva de que o dólar continue a perder gás nos tempos que se avizinham, esperam-se mais ganhos para o ouro”, refere Ricardo Envagelista.

“Se o dólar continuar a cair à medida que o Fed abrandar o seu ritmo de aperto da política monetária nos próximos meses, o ouro provavelmente roubará o estatuto do dólar como principal ativo refúgio”, assinala Hebe Chen.

O responsável pela estratégia do JPMorgan para os metais preciosos assinala que apesar da tendência de alta recente, “pensamos que o risco aponta para ganhos adicionais em 2023”. Greg Shearer conclui que “uma aterragem mais brusca do que o esperado na economia norte-americana não só vai atrair mais interesse na compra do [ouro como] ativo refúgio, mas o rally pode ser receber um novo impulso com a descida mais dramática nas yields [das obrigações] se a Fed remover de forma mais célere a política monetária agressiva”.

Bancos centrais “douram” reservas

O dólar está a jogar outro importante papel na escalada dos preços do ouro. Os bancos centrais estão a diversificar as suas reservas, de modo a reduzir a dependência da moeda norte-americana, sendo que a escolha está a recair no metal precioso, que está assim a intensificar o seu estatuto de valor de reserva.

Segundo dados do World Gold Council (WGC) revelados esta terça-feira, os bancos centrais adquiriram 1.136 toneladas de ouro no ano passado, o que representa o valor anual mais elevado desde 1968. Uma fatia considerável deste crescimento, para máximo de 55 anos, foi registada na segunda metade de 2022, coincidindo com a queda do dólar. Depois de um terceiro trimestre muito forte, os bancos centrais adquiriram mais 417 toneladas nos últimos três meses de 2022, um movimento que o WGC classifica de “colossal”.

Em novembro e dezembro, o banco central da China comprou 62 toneladas, elevando as suas reservas de ouro para 2.011 toneladas. A Rússia também está ativamente a reforçar as suas reservas de ouro, tendo recentemente elevado o peso máximo do ouro na carteira do seu fundo soberano para 40%.

Juntando todas as fontes (joalharias, barras e moedas, indústria e tecnologia), a procura de ouro a nível global aumentou 18% em 2022, para 4.741 toneladas, o que representa o nível mais elevado em 11 anos e muito perto do máximo histórico que foi fixado em 2011. No quarto trimestre a procura atingiu um recorde de 1.337 toneladas.

No relatório publicado esta terça-feira, o WGC reitera a “perspetiva de um ano [de 2023] positivo para o ouro, com maior potencial de valorização do que risco de desvalorização, tendo em conta os riscos de recessão nos Estados Unidos e na Europa”.

“Parte desta procura está a ser impulsionada por um punhado de bancos centrais que querem reduzir a exposição ao dólar”, uma tendência que, “aliada ao apetite geral pelo ouro deve assegurar mais um ano forte de compras por parte de entidades públicas”, refere Ole Hansen. “A expectativa de volatilidade do dólar está a ter um papel fundamental no aumento do apetite” pelo ouro, reforça a analista da IG Markets.

Hélder Rosalino, numa conferência em outubro passado, assinalava que “o ouro é o único ativo de reserva sem risco de crédito ou político”. O administrador do Banco de Portugal explicava que o metal é um “ativo muito líquido, que pode ser vendido facilmente em caso de emergência para fazer face a necessidades urgentes de liquidez do governo ou para conduzir operações cambiais”.

Portugal é 14º país do mundo com as maiores reservas de ouro, num total de 382,6 toneladas que não mexe desde o final de 2006. Tendo em conta as atuais cotações, estas reservas estão avaliadas em redor de 25 mil milhões de euros, o que supera 10% do PIB do país.

Mesmo sem variação na quantidade, o Banco de Portugal obteve um ganho de 109 milhões de euros em quatro anos com os instrumentos financeiros relacionados com o stock de ouro que está guardado no Banco de Inglaterra, Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) e Banco de França, bem como nas instalações do Banco de Portugal no Carregado.

Além dos bancos centrais, o mercado do ouro também é influenciado pela procura física por parte dos consumidores. A Índia destaca-se como o maior consumidor, devido sobretudo ao culto religioso, sendo frequente a cotação valorizar quando acontece a época de casamentos neste que é o segundo país mais populoso do mundo.

A procura dos investidores é outro fator que também influencia a cotação, pois os produtos financeiros que oferecem exposição ao ouro têm de comprar o metal. No ano passado, os ETF e fundos de investimento ligados ao ouro sofreram resgates líquidos de 3 mil milhões de dólares, o que equivale a 110 toneladas e uma queda de 3,4% na quantidade de ouro detida por estes veículos de investimento.

O Head of Commodity Strategy do Saxo Bank estima uma inversão de tendência em 2023, com os ETF a efetuarem compras líquidas de “pelo menos 200 toneladas”. Apesar da forte subida das cotações, “ainda não vimos a procura por parte dos ETF – frequentemente investidores com uma perspetiva de longo prazo – regressar à vida, com os stocks totais perto de mínimo de dois anos”.

Esta evolução leva Ole Hansen a concluir que a recente alta dos preços está a ser conduzida por investimentos especulativos (focados no curto prazo), como é o caso dos hedge funds, o que contraria a “estratégia adotada até novembro, de vender o ouro após qualquer sinal de força”.

Se fizermos uma análise histórica, constatamos que os preços do ouro normalmente sobem quando a inflação está alta. O metal precioso funciona como uma reserva de valor. Sobretudo quando os juros das obrigações soberanas de bom rating se mantêm abaixo dos níveis da inflação", Ricardo Evangelista, analista da ActivTrades.

Histórico favorável

O ouro tem registado uma tendência muito positiva este século, gerando retornos atrativos a quem investe no metal precioso numa lógica de longo prazo. O que reforça os argumentos de quem defende que o ouro deve integrar uma carteira de investimentos diversificada.

O metal amarelo registou 12 anos seguidos de ganhos entre 2001 e 2012, período em que a cotação aumentou mais de seis vezes, passando de menos de 300 dólares por onça no final de 2000, para mais de 1.600 dólares no final de 2012. Surgiu depois uma correção durante três anos e, depois, uma fase de altos e baixos, que culminou com um máximo histórico acima dos 2.000 dólares em março de 2020, e de novo acima da fasquia dos 2.000 dólares nos primeiros dias da guerra na Ucrânia.

Neste século, o ouro desvalorizou em apenas seis anos (menos de um terço do total). Alargando a análise temporal, as conclusões mostram que a inflação elevada foi sempre uma aliada da alta desta matéria-prima.

“Se fizermos uma análise histórica, constatamos que os preços do ouro normalmente sobem quando a inflação está alta”, adianta o analista da ActivTrades, explicando que “o metal precioso funciona como uma reserva de valor”, reforçando a atratividade “quando os juros das obrigações soberanas de bom rating se mantêm abaixo dos níveis da inflação”.

Contudo, a relação do ouro com a inflação não é linear, pois pode ter efeitos contrários. Se a inflação elevada é benéfica para o ouro pois reforça a sua atratividade como ativo de reserva de valor, também favorece a manutenção das taxas de juro em níveis elevados, o que torna as obrigações mais atrativas.

“O cenário em que a inflação permanece elevada, enquanto o custo do dinheiro continua em níveis altos por mais tempo, pode ter um efeito contrário para o ouro”, explica Hebe Chen. “Por um lado, o ouro recupera o brilho em períodos de volatilidade e é relativamente imune a turbulências na economia como uma recessão. Mas por outro lado, não gera as yields que as obrigações apresentam”, refere a analista do IG Markets.

Existem diversas formas de investir no ouro, sendo que a compra de ETF ou fundos de investimento é a mais recomendável. Também pode optar pela compra física, o que não é aconselhável devido ao risco de liquidez. Existem outros produtos fortemente alavancados, como CFD, que apresentam um nível de risco muito elevado. A aquisição de ações de empresas ligadas à indústria do ouro expõe o investidor a outros riscos.

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