Custo dos alimentos está a baixar, mas preços nos supermercados continuam altos. Porquê?

CNN , Danielle Wiener-Bronner
14 mar 2023, 08:57
Compras, supermercado, inflação, preços, economia, cabaz, alimentos. Foto: Matthew Horwood/Getty Images

Não é só em Portugal: também nos Estados Unidos há queixas de preços demasiado caros. Análise da CNN Internacional explica o que se passa do lado de lá do Atlântico, o que também dá pistas para o que está a acontecer por cá: depois dos preços subirem, é difícil que desçam, até porque produtores, fabricantes e distribuidores aumentaram as suas margens e perceberam que os consumidores estavam dispostos a pagar preços mais elevados. Agora, não querem prescindir disso.

Porque é que os preços não estão a cair no supermercado? Quando os produtores de alimentos começaram a aumentar os preços há alguns anos, culparam o aumento dos seus próprios custos, incluindo preços mais elevados dos ingredientes. Mas os preços dos ingredientes têm estado em queda há meses, e as pessoas continuam a pagar mais pelos alimentos.

Em parte, isso acontece porque os produtores de alimentos têm outras despesas que continuam a ser caras, como mão-de-obra e transporte, em comparação com alguns anos atrás.

Mas os críticos e alguns especialistas dizem que os aumentos dos custos acabaram por dar aos produtores de alimentos cobertura para aumentar os preços acima do que esses aumentos indicavam, aumentando os lucros e corrigindo o que consideravam ser preços demasiado baixos dos anos anteriores.

E agora que viram que as pessoas estão dispostas a pagar mais, não têm pressa em abdicar dos lucros cobrando menos.

“Quando os custos mudam, especialmente quando os custos mudam de uma forma muito publicitada”, não é raro que as empresas aproveitem o momento para aumentar os preços, explica Jean-Pierre Dubé, professor de marketing da Booth School of Business da Universidade de Chicago. “As empresas olham para estas ocasiões como oportunidades, e não querem desperdiçá-las”.

Entre janeiro de 2022 e janeiro de 2023, as mercearias ficaram 11,3% mais caras nos EUA. [Em Portugal, os preços dos alimentos subiram 18,5% no mesmo período, segundo o INE, e 20% entre fevereiro de 2022 e fevereiro de 2023.] Muitas empresas alimentares preveem que podem vir a abrandar ou a fazer uma pausa nos aumentos de preços - mas não baixá-los.

De acordo com a unidade de pesquisa do Departamento de Agricultura dos EUA, o USDA, os preços dos produtos agrícolas estão em baixa após terem atingido o pico em maio passado. E a trajetória descendente continua: os preços do trigo, do café e do cacau caíram todos na última semana de fevereiro, de acordo com um relatório recente do Rabobank. Mas os ingredientes constituem tipicamente uma pequena porção dos custos globais dos alimentos. Os fabricantes estão na sua maioria a pagar por outras coisas como transportes, embalagens e salários.

“Tem havido pressões na cadeia de abastecimento, e tem havido aumentos dos custos das mercadorias. Mas [as empresas] assumiram, penso eu, aumentos de preços que excedem isso”, analisa Mark Lang, professor associado de marketing da Universidade de Tampa, especializado em marketing alimentar. “Para mim, trata-se absolutamente de tomada de lucros”.

As empresa norte-americanas Conagra e Hershey têm vindo a reportar lucros mais elevados nos trimestres mais recentes, ano após ano. A PepsiCo e a Coca-Cola reportaram um crescimento dos lucros no terceiro trimestre, antes de verem uma diminuição dos lucros no final do ano.

As empresas estão a manter preços elevados, ou a continuar a aumentá-los, numa altura em que muitos americanos já estão a lutar para pagar pelos alimentos, especialmente porque os benefícios dos vales alimentares da era pandémica expiram. “Este tipo de atividade, de uma forma geral, reduz o nível de vida do país”, diz Lang.

Oportunidades ocasionais

A inflação pode dar às empresas uma razão, ou uma desculpa, para aumentar os preços que os compradores aceitarão.

Há alguns anos, os fabricantes de alimentos “começaram a aumentar os seus preços muito rapidamente, porque além das notícias - que significavam que os consumidores não se iriam queixar -, todos estavam a aumentar os seus preços”, diz Dubé. “E levou algum tempo até o consumidor apreender que os preços tinham subido”.

Alguns consumidores podem não ter notado preços ligeiramente mais altos em artigos individuais, ou que estavam a pagar a mesma quantia por menos quantidade de produto, o que é conhecido “reduflação”, embora possam ter percebido que os seus euros não davam para tanto como antes no supermercado.

Mas mesmo que tivessem registado as mudanças, as pessoas não podem simplesmente parar de comprar comida. Muitos reduziram as visitas a restaurantes ou trocaram para cadeias e locais menos caros. Outros estão a fazer compras em supermercados mais baratos, como os Aldi. Alguns podem estar a comprar mais guloseimas nas lojas para substituir luxos mais caros.

Assim sendo, as pessoas continuam a comprar comida no supermercado, apesar dos preços mais altos - dando aos produtores a oportunidade para convencer os retalhistas de que esses preços mais altos não afastarão os clientes.

"Os preços estavam demasiado baixos"

Os retalhistas querem que os fabricantes de alimentos mantenham os preços baixos. Isso funciona bem para eles, e para os consumidores, mas não para os fabricantes.

Quando questionado, durante uma conferência em fevereiro, como a Conagra foi capaz de aumentar os preços sem perder vendas em volume, o CEO da empresa, Sean Connolly, disse que “os preços estavam demasiado baixo na pré-pandemia”. E acrescentou: “o que conseguimos mostrar ao retalhista foi que os consumidores vão acolher uma unidade a 4,50 dólares”, porque uma refeição congelada ainda tem um bom valor a esse preço.

A Conagra, que faz pizzas e tartes congeladas das marcas Marie Callender, Birds Eye e Healthy Choice, disse que os preços mais elevados lhe permitiram melhorar os seus ingredientes. No trimestre que terminou a 27 de novembro, a empresa comunicou um lucro de 382,2 milhões de dólares - um aumento de cerca de 39% de um ano para o outro.

Durante a conferência de apresentação de resultados do quarto trimestre do ano passado, a Coca-Cola foi questionada acerca de relatórios de aumento de preços por parte dos retalhistas. “Ganhámos o direito ao preço com os consumidores”, respondeu o CEO, James Quincey. Se conseguir demonstrar que as pessoas vão pagar mais pela Coca-Cola, poderei convencer os retalhistas de que preços mais elevados também serão bons para eles, disse Quincey. A Coca-Cola disse que planeia continuar a aumentar os preços a nível global, notando que os custos dos inputs ainda estão mais elevados do que o habitual.

Os preços acabarão por descer, prevê Tom Bailey, analista sénior de alimentos de consumo do Rabobank. Alguns artigos, como alface e tomate, já se tornaram menos caros no supermercado.

Se e quando as empresas moderarem os seus preços, disse Bailey, terão de o fazer com cuidado.

“Se começarem a baixar os preços, isso pode minar a proposta de valor que as marcas e os fabricantes construíram ao longo dos anos com os seus consumidores”, disse Bailey. Preços mais baixos poderiam, por exemplo, fazer as pessoas pensar que a qualidade dos alimentos diminuiu - ou fazê-las pensar que antes tinham estado a pagar demasiado caro.

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