opinião
Colunista

A vigilância constante da IAEA

1 mar 2023, 10:56

Para assinalar a entrada no segundo ano da guerra na Ucrânia, a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA) editou um relatório sobre a segurança nuclear na Ucrânia durante o último ano. Foi um ano preenchido de especulação, receio por acidentes nucleares e desinformação. No final, ganhou a calma e conhecimento. Hoje há poucas razões para temer um acidente nuclear em solo Ucraniano.

A 24 de Fevereiro de 2022 a IAEA é informada pela Ucrânia que a antiga central de Chornobyl foi tomada por tropas russas. A monitorização remota dos sensores de radiação em Chornobyl é desconectada e Viena (onde se encontra a sede da IAEA) deixa de receber informação sobre os níveis de radiação ambiente na zona de exclusão. Aproximadamente uma semana depois, a 4 de Março de 2022, tropas russas tomam de assalto a Central Nuclear de Zaporizhzhia (ZNPP: Zaporizhzhia Nuclear Power Plant). Com 6 reatores de 950MW, ZNPP é a maior central nuclear em solo Europeu, o que lhe confere um simbolismo especial.

Viveram-se semanas frenéticas, tremendo-se um cataclismo tanto em Chornobyl como em ZNPP. Em Março de 2022 a narrativa de que um novo acidente nuclear estaria a ser preparado pelo exército russo em Chornobyl ganhava tração. Para qualquer pessoa com um pouco de conhecimento na área nuclear a teoria fazia zero sentido. Simplesmente não existe forma prática de transformar o que se encontra na central numa espécie de arma. Mas é perfeitamente compreensível que qualquer um sentisse medo, depois de décadas de construção de uma narrativa de terror por ambientalistas tradicionais. No último dia de Março de 2022, as tropas russas abandonam Chornobyl. O resultado foi apenas um laboratório vandalizado e uma população europeia assustada. No meio da guerra, o parque nuclear Ucraniano tinha-se tornado um vector de terror.

Era necessário que a melhor informação possível chegasse o mais rápido possível ao público. E foi isso que sempre aconteceu, graças à vigilância constante da IAEA. Sempre em contacto com a central ocupada de ZNPP, a IAEA foi informando o mundo das ocorrências e aplicando pressão sobre os ocupantes para que os sete pilares indispensáveis da segurança nuclear continuassem a ser observados.

A 1 de Setembro de 2022, o diretor-geral da IAEA, Rafael Mariano Grossi, visita ZNPP com uma equipa de peritos da própria IAEA. Desde então, ZNPP tem contado com uma delegação permanente da agência. Os ânimos acalmam internacionalmente no que diz respeito a questões de segurança, graças a Rafael Mariano Grossi e a sua equipa de peritos. Mas, infelizmente, a história não acaba aqui e ZNPP continua ocupada até hoje. ZNPP tem sido também atingida com dispositivos explosivos ao longo do tempo, uma clara estratégia russa de aterrorizar a Europa.

 

Ainda em Novembro de 2022, a unidade 4 de ZNPP sofreu danos no seu edifício de contenção. Sendo este edifício um autentico bunker, os danos foram mínimos. Ainda há mais de um metro de betão reforçado para lá do que se pode ver na imagem.

Ao longo do último ano a IAEA analisou riscos de acidentes, proliferação, e meios de dispersão de material radiológico (bombas sujas). A conclusão do relatório é de que não há indícios de atividades ilícitas no que diz respeito aos últimos dois pontos em toda a Ucrânia. Já em relação ao risco de acidentes, embora tenham sido minimizados pois ZNPP colocou os reatores num estado seguro, não podem ser totalmente descartados. No entanto, um acidente nuclear grave está fora de cena. O perigo iminente é para com a integridade física e psicológica dos funcionários da central que se encontram a trabalhar sob ocupação, em condições longe das ideais há vários meses. Graças a estes trabalhadores não há nada a assinalar… excepto, que durante a guerra, a Ucrânia se tornou exportadora de eletricidade para a UE através da sua frota nuclear. Mesmo invadida, a Ucrânia ajudou a aligeirar as preocupações energéticas de países como a Alemanha e contribuiu para que a própria Alemanha tenha consumido menos carvão, reduzindo ligeiramente as suas emissões.

O diretor-geral da IAEA, Rafael Mariano Grossi, compreende que a energia nuclear tem um papel fundamental na descarbonização da sociedade. É a forma de energia mais limpa que temos e tão ou mais segura que a energia solar e eólica. Como disse Marie Curie enquanto investigava radiação: “Nada na vida deve ser temido, apenas compreendido. Está na altura de compreendermos mais, para temermos menos”. E graças à IAEA, hoje tememos menos.

Colunistas

Mais Colunistas

Mais Lidas

Patrocinados