Luto, extorsão, rapto, lesões: viagem por um ano horrível na vida de Pogba

13 abr, 08:06
Paul Pogba (Daniele Badolato - Juventus FC via Getty Images)

Quando esta noite se sentar no banco frente ao Sporting, em mais um regresso à equipa, o francês terá somado apenas 35 minutos de jogo desde que em julho assinou pela Juventus. Em 42 jogos da equipa, falhou 40. As lesões são, no entanto, apenas o capítulo mais recente de um pesadelo que parece não ter fim e que já levou até cinco pessoas à prisão. Até quando, Paul?!

19 de abril de 2022.

Faz na quarta-feira precisamente um ano, portanto. O estádio era Anfield Road e o adversário o rival Liverpool. Paul Pogba entrou em campo como titular e durou dez minutos, até que uma lesão no tornozelo lhe acabou com a temporada.

Desde então nunca mais foi titular. Pior do que isso, falhou o Mundial do Qatar e praticamente toda a época da Juventus. O que lhe custou alguma da antiga paixão que os adeptos tinham por ele, até porque uma coisa está ligada à outra.

Mas já lá vamos.

Antes disso interessa dizer que quando esta quinta-feira entrar no Juventus Stadium para se sentar no banco frente ao Sporting, em mais um regresso às opções de Massimiliano Allegri, Pogba vai ter um total de 45 minutos jogados em todo o último ano: e isto já a contar, claro, com esses tais dez minutos em Anfield Road.

Com a camisola bianconera, desde que assinou contrato em meados de julho do ano passado, foram apenas 35 minutos, divididos entre dois jogos.

A desilusão na Juventus, portanto, é enorme. Até porque Pogba era um herói para os adeptos, ele que em quatro anos na primeira passagem pelo clube foi quatro vezes campeão e liderou o meio campo que chegou à final da Champions.

Perante isto, e face à hegemonia perdida nos últimos anos em Itália, a Juventus não hesitou em contratá-lo de novo. Pogba chegou a custo zero, é verdade, mas com um contrato milionário. O maior de toda a Liga Italiana: pode atingir até estratosféricos dez milhões de euros por época mediante alguns objetivos.

O mais curioso é que para conseguir pagar a Pogba estes valores, a Juventus acabou por deixar sair livre Paulo Dybala. Justificou que o argentino era muito propenso a lesões, que não conseguia durar uma época inteira e não justificava o investimento. O dinheiro e a camisola 10 ficaram então para o francês.

Dybala seguiu para a Roma de Mourinho, foi recebido como um herói e soma 15 golos (mais oito assistências) em 25 jogos. Já Pogba é o que se sabe...

 

CAPÍTULO I - Rotura do ligamento (e a opção que chateou a Juventus)

É claro que tudo o que se escreveu acima podia ser apenas azar. Só que não. Os problemas físicos de Pogba vieram embrulhados numa série de atitudes e decisões pessoais que a imprensa italiana diz terem criado enorme mal-estar.

Tudo começou, recorde-se, durante a digressão de início de época da Juventus pelos Estados Unidos. Pogba viajou com os colegas, jogou 45 minutos com o Chivas e tudo parecia bem. Até que no treino do dia seguinte, o joelho voltou a fraquejar: uma rotura do ligamento medial aconselhava a que fosse operado.

Enquanto os colegas seguiam para Miami, o médio regressou a França à procura de uma segunda opinião. A intenção era clara: Pogba queria a todo o custo evitar uma intervenção cirúrgica que colocasse em risco a presença no Mundial.

Foi então aconselhado por um médico independente a fazer um tratamento conservador, que conseguiria fazê-lo voltar aos relvados em outubro e somar entre dois e quatro jogos antes de viajar com a seleção para o Qatar.

O problema é que o tratamento conservador não correu bem. Na segunda sessão de corrida no relvado, ainda em setembro, Pogba sentiu dores.

A operação tornou-se então inevitável e chateou o clube, claro.

«Pogba sabia qual era a nossa opinião, mas nós respeitámos a dele. Esta não é a melhor situação para ninguém», referiu o administrador Maurizio Arrivabene.

«Não quero olhar para o passado, nem criar polémicas, até porque a decisão foi tomada em conjunto. Mas a verdade é que tentámos essa terapia conservadora e hoje estamos numa situação que não é boa nem para nós nem para ele.»

Pogba perdeu seis semanas da temporada e a possibilidade de estar no Qatar, embora nesta altura ainda não o soubesse. O francês tinha, aliás, esperança de conseguir voltar a tempo do Mundial.

A Juventus, essa, já sabia que só ia ter o jogador em janeiro.

«Pogba ressentiu-se da lesão e foi decidido que tem de ser submetido a uma cirurgia. Realisticamente, não vamos conseguir recuperá-lo antes de janeiro», afirmou Massimiliano Allegri.

«Não me preocupa se ele recupera a tempo do Mundial ou não, isso não é problema meu. O meu problema chama-se Juventus e ele só voltar em janeiro.»

 

CAPÍTULO II - As férias na neve que irritaram os adeptos

O que é certo é que Pogba não recuperou a tempo do Mundial, nem sequer voltou em janeiro. Pelo meio, na pausa natalícia, viajou para a neve, nos Alpes suíços.

Foi a segunda atitude mal recebida e que muito revoltou os adeptos da Juventus: ninguém compreendia como é que um jogador lesionado se atrevia a ir brincar para a neve. As redes sociais do francês encheram-se então de insultos e ofensas.

Pogba foi rápido a publicar um vídeo, explicando que não estava ali para fazer esqui, mas nem isso acalmou os adeptos da formação de Turim. Afinal de contas, o preço que aquela lesão estava a custar ao clube devia exigir outra atitude.

Em fevereiro, por fim, começou a treinar com a equipa e no final do mês fez a estreia. A 28 de fevereiro, no dérbi com o Torino, somou os primeiros minutos. Quando começou o aquecimento, aliás, recebeu uma grande ovação dos adeptos.

Jogou vinte minutos, mais quinze minutos no jogo seguinte com a Roma e depois disso... e foi castigado.

A Juventus tinha marcado um jantar num hotel para dar início à concentração para o jogo com o Friburgo, Pogba chegou atrasado e Allegri não teve paciência: afastou-o do jogo e aplicou-lhe uma multa. O que o treinador não imaginaria é que esse castigo iria dar início a uma nova ausência de um mês.

Num dos treinos seguintes, após ser reintegrado, Pogba estava a treinar livres quando se lesionou no músculo adutor. Foram mais seis jogos de fora.

«Ele está bastante abalado emocionalmente», reconheceu nessa altura Allegri.

 

CAPÍTULO III - Rapto, arma apontada e tentativa de extorsão liderada... pelo irmão

O caso não era para menos, de facto. O último ano de Pogba foi um pesadelo, que meteu um pouco de tudo.

Começou em março de 2022, aliás, quando a casa do jogador em Manchester foi assaltada durante uma noite de competições europeias.

Quatro dias depois, Pogba foi com um amigo e dois conhecidos até um apartamento nos arredores de Paris. Quando lá chegou, dois encapuzados apontaram-lhe uma arma e exigiram-lhe três milhões de euros, ou tornariam públicas diversas acusações: entre elas, uma suposta macumba para atingir o colega de seleção e amigo Kylian Mbappé.

Depois disso, o jogador veio a descobrir que o irmão mais velho, Mathias Pogba, estava metido no esquema. O caso só se tornou público muito mais tarde, quando Mathias fez uma série de acusações ao irmão nas redes sociais, como retaliação pelo facto de Paul Pogba não ter entregado o dinheiro exigido.

Mas a verdade é que já se arrastava desde março.

«Talvez ele pudesse ter-me contado tudo mais cedo, mas eu entendo. Não é fácil falar destas coisas», referiu a advogado Rafaela Pimenta ao Tuttosport.

«Muitas vezes tentamos resolver tudo sozinhos porque temos vergonha ou estamos com medo. Mas logo que ele me contou, tentámos encontrar uma solução. Este tipo de coisas acontece no futebol mais do que se imagina.»

A verdade é que foi só depois de ver o irmão e os amigos irem atrás dele a Manchester, primeiro, e a Turim, depois, para além de terem feito duas visitas à mãe, que o jogador partilhou as ameaças com a advogado e apresentou queixa.

Antes disso, segundo o Le Parisien, Pogba ainda tentou fazer um pagamento em dinheiro, mas foi recusado pelo banco por ser um movimento suspeito.

No depoimento judicial, Pogba garantiu que foi um choque perceber que o irmão estava metido nisto, até porque a família tinha uma ligação forte e estava muitas vezes junta. O jogador acredita que Mathias foi convencido pelos amigos.

Indiferente a isso, a polícia deteve cinco homens, entre eles o irmão, claro, acusados de vários crimes, entre os quais associação criminosa, rapto, tentativa de extorsão e ameaça com arma de fogo. Entretanto o irmão já saiu sob fiança.

 

CAPÍTULO IV - Mbappé aceita as explicações e pede paciência para com Pogba

No mesmo depoimento, Pogba disse que recorreu ao feiticeiro para ajudar uma instituição que apoia crianças em África e nunca para prejudicar Mbappé.

O avançado do PSG aceitou as explicações.

«Ele telefonou-me e deu a sua versão da história. É a palavra dele contra a do irmão e eu prefiro confiar na palavra de um companheiro de seleção. O Pogba já tem problemas que chegem, não é hora de estar a aumentá-los.»

CAPÍTULO V - O falecimento do empresário e amigo Mino Raiola

Pelo meio, em abril do ano passado, Pogba levou outro duro golpe: a morte de Mino Raiola. O empresário faleceu aos 54 anos, após vários dias nos cuidados intensivos, o que foi um choque para Pogba, que considerava o agente como um pai. Até porque tinha perdido o verdadeiro pai quando ainda era novo.

Com Raiola o francês desenvolveu uma relação muito forte e de confiança a toda a prova. O empresário era conhecido por defender os interesses dos seus atletas ferozmente e Pogba considerava que lhe devia a carreira, sobretudo pelo sucesso que tinha alcançado ao deixar o Manchester United para assinar pela Juventus.

 

CAPÍTULO VI - O regresso esta noite e o início de uma nova história?

Já foi, por isso, a advogada Rafael Pimenta, herdeira da liderança de Raiola, que nesse mesmo mês de abril se reuniu com a Juventus.

A brasileira aproveitou uma viagem de Paul Nedved e Maurizio Arrivabene ao Mónaco para assistir ao Masters 1.000 de Monte Carlo e chamou-os aos seus escritórios, para lhes dizer que Pogba estava disponível para voltar à Juventus. A partir daí, e sem fechar as portas em Manchester, começaram as negociações.

Em junho, por fim, milhares de adeptos concentraram-se junto à clínica J Medical para saudar o regresso do herói. Pogba era, também ele, todo sorrisos.

«Estou a ver que estão entusiasmados por me verem aqui. Tiveram saudades minhas?», gracejou aos jornalistas, antes da conferência de apresentação.

Mais tarde explicou que seis anos depois era um jogador diferente que voltava a Turim e que vinha para liderar também o balneário, tornando-se um exmeplo para os mais novos como Buffon, Pirlo e Chiellini tinham sido para ele.

«Agora eu sou um desses jogadores e cabe-me fazer o que eles fizeram.»

Infelizmente para ele e para a Juventus, não foi nada disso que aconteceu. Em 42 jogos da equipa, aliás, falhou 40. Esta noite, frente ao Sporting, vai voltar ao banco e tentar mais um regresso.

Será desta?

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