Empresários foram chamados a exame da FIFA (e a maior parte saiu indignada)

20 abr, 08:29
Agentes FIFA

Foram 147 agentes, desde representantes de grandes agências até por exemplo o pai de Chermiti, que esta quarta-feira se apresentaram na Cidade do Futebol com computador pessoal e ligação à internet para a responder a uma prova feita de 20 perguntas de escolha múltipla. No fim garantiram que a exigência foi muito elevada. «Isto não era um teste de conhecimentos, era um exame de perícia», disse um empresário ao Maisfutebol, revoltado pela dificuldade que vai significar obter a licença a partir de agora obrigatória pelo novo estatuto da FIFA. Em setembro há mais.

A FIFA prometeu e cumpriu: mais de seis mil empresários (ou candidatos a empresários, melhor dito) foram chamados esta quarta-feira a mostrar que estão preparados para trabalhar no futebol.

Em Portugal havia mais de duzentos inscritos, mas só 147 compareceram por volta das 16 horas na Cidade do Futebol para realizar o teste.

Durante uma hora, cada um respondeu a um exame de vinte perguntas de escolha múltipla. As perguntas eram retiradas de um banco de 200 questões elaborado pela FIFA, havendo um banco de 200 perguntas em inglês, outro em francês e outro em espanhol: as três línguas oficiais do organismo.

Dentro de uma semana, cada empresário recebe o resultado e só quem passar vai poder continuar a fazer negócios no futebol a partir de 1 de outubro de 2023.

Mas vamos por partes.

Antes de mais importa dizer que nem todos os empresários estão obrigados a fazer o teste para serem agentes FIFA. Os mais antigos, com mais anos de atividade, que já tinham a licença antes de 2016 e consigam provar que estiveram inscritos como tal pelo menos durante um ano entre 2016 e 2022, estão isentos.

O que significa que nomes como Jorge Mendes, da Gestifute, ou Carlos Gonçalves, da ProEleven, e Bruno Carvalho, da Team of Future, têm equivalência que lhes garante desde logo a licença necessária.

São os chamados legacy agents.

Todos os outros, sim, estão obrigados a fazer o teste e a passar, antes de poderem pagar um valor anual e a partir daí estarem certificados a fazer negócios. Sem a licença, não têm um login  e acesso à plataforma da FIFA através da qual todas as transferências têm de ser registadas e os pagamentos efetuados.

Mais do que isso, não podem assinar contratos nem receber pagamentos dos clubes.

Ora por isso, e apesar de os mais velhos estarem dispensados, no auditório da Cidade do Futebol estiveram esta quarta-feira a fazer o teste agentes de praticamente todas as grandes agências portuguesas de representação de jogadores: da Gestifute, da ProEleven ou da Positionumber.

Até Noureddine Chermiti, pai do avançado Chermiti, do Sporting, foi fazer o teste que pode dar acesso à licença. Isto porque a partir de outubro familiares de jogadores ou advogados estão proibidos de representar os atletas numa negociação se não forem agentes FIFA (os advogados só poderão dar assessoria jurídica, como em qualquer outro negócio).

«Perguntas tinham muitas rasteiras, o trial que a FIFA disponibilizou não era assim»

No fim a opinião generalizada dos candidatos a empresários com quem o Maisfutebol falou era de alguma frustração. Acima de tudo pela dificuldade do teste, muito superior ao exame trial disponibilizado pela FIFA para os agentes se prepararem.

A maior parte concorda que é necessário exigir conhecimentos aos empresários e separar o trigo do joio, pelo que temas como proteção de menores, regulamentos ou transparência negocial são obrigatórios para quem queira trabalhar no meio. Mas nada disso justifica para eles a complexidade de algumas perguntas.

«Não tenho dúvidas de que oitenta por cento, ou até mais, dos agentes que fizeram o teste não vão passar. Aliás, no final a maior parte do pessoal estava com aquele discurso de que correu muito mal e que vão voltar em setembro.»

Sim, que em setembro há uma segunda oportunidade de fazer o teste.

Aliás, um pouco menos de metade dos empresários que se inscreveram acabaram por desistir, adiando a presença no teste para a segunda fase.

A FIFA disponibilizou, de resto, material de apoio ao estudo, através de um manual de 528 páginas. Houve agentes que recorreram a advogados para os ajudar a se prepararem, houve outros que fizeram cursos de preparação disponibilizados por algumas universidades, houve até quem tenha contado com o apoio de escritórios muito conhecidos, como a Morais Leitão, por exemplo, que criou até um simulador de testes para agente FIFA.

«Achei muito, muito difícil. Aliás, aquilo não era um teste para testar conhecimentos, era um exame de perícia. Sobretudo porque tinha muitas rasteiras. No trial que a FIFA disponibilizou para treinarmos, não tinha muitas rasteiras, tinha uma ou duas. Neste tinha de facto muitas», disse um empresário.

«Só para se ter uma ideia, havia a possibilidade de assinalar as respostas que não tens certeza na resposta e eu, no fim das vinte perguntas, tinha oito assinaladas.»

Outro agente partilhou outra dificuldade.

«Havia perguntas em que era pedido para assinalar as uma ou mais opções corretas. Quando só uma está correta, não tens dúvidas. Mas se forem duas ou três, nem sabes quantas são, criam-se dúvidas. E se tu assinalares duas mas forem três as opções corretas, a FIFA considera que falhaste a resposta», conta.

«Por exemplo, pedem-te para assinalar as exceções que permitem uma transferência de um jogador menor de uma federação para outra. Tu assinalas duas exceções, mas há uma terceira que também é aceite em certas condições. Se tu não tiveres assinalado também essa opção, toda a resposta está errada.»

Exame podia ser feito em inglês, francês ou espanhol, agentes tinham de levar computador de casa

Refira-se, de resto, que os empresários podiam fazer o teste numa das três línguas oficiais da FIFA: inglês, francês ou espanhol. Cada um devia ter avisado previamente de qual a língua em que pretendia realizar o exame.

O português não era uma possibilidade.

O teste foi realizado no auditório da Cidade do Futebol, onde os agentes eram recebidos por funcionários da Federação. Havia informáticos para prestar apoio, sendo que cada agente devia ter levado de casa um computador para fazer o teste. Inicialmente a FIFA avisou que também deviam ir munidos de ligação à internet, mas já na Cidade do Futebol a Federação forneceu ligação wi-fi.

Logo à entrada, era obrigatório apresentar o comprovativo de pagamento da inscrição e o Cartão de Cidadão. Durante o teste, os agentes podiam consultar o livro de regulamentação da FIFA, mas não podiam copiar nem falar uns com os outros. Logo à chegada era-lhes, aliás, distribuído uma folha das regras do exame.

Também por isso, porque houve várias formalidades a cumprir, a prova acabou por começar com cerca de meia hora de atraso.

Recorde-se que este exame é uma das formalidades obrigatórias para o novo estatuto de agentes FIFA, criado recentemente e que vai entrar em vigor a 1 de outubro.

Nova regulamentação impõe regras apertadas e tetos máximos para comissões

De acordo com esta nova regulamentação, só os agentes licenciados podem representar jogadores ou ser intermediários em nome dos clubes. Para se ser um agente licenciado, é necessário passar neste teste criado pela FIFA e pagar anualmente uma taxa. Depois disso, é necessário realizar uma série de formações anuais para que a licença seja renovada.

As maiores alterações introduzidas pelo novo estatuto dizem, no entanto, respeito às regras de agenciamento. Um agente só pode agenciar jogadores com quem tenha um contrato de representação: os contratos são válidos por um máximo de dois anos e não podem ter cláusulas de renovação automática

Um agente só pode representar num mesmo negócio o jogador, o clube comprador ou o clube vendedor, embora mediante autorização das partes possa representar jogador e clube comprador. Em caso algum pode representar jogador e clube vendedor, nem os dois clubes envolvidos na transferência.

A maior polémica, essa, está relacionada com as comissões.

A partir de agora a remuneração ao representante tem de ser paga pelo próprio jogador e não pode ser superior a cinco por cento em negócios até 200 mil dólares ou três por cento em negócios de mais de 200 mil dólares. 

Os clubes clube comprador e o clube vendedor só podem pagar comissões aos intermediários, que como já se disse não podem ser o mesmo agente. O clube vendedor pode pagar comissões até dez por cento ao seu intermediário, mas o clube comprador não pode pagar ao seu intermediário mais de cinco por cento em negócios até 200 mil dólares ou três por cento em negócios superiores a 200 mil dólares.

Ao mesmo tempo, a FIFA Clearing House, que já foi criada em França para distribuir todos os pagamentos relativos ao mecanismo de solidariedade, vai alargar a sua influência ao mundo das transferências: no futuro funcionára também como uma câmara para decidir todas as disputas relativas a negócios no futebol e servirá também para distribuir todo o dinheiro de todas as transferências.

O que significa que daqui a alguns anos nenhuma comissão pode ser paga diretamente por um clube ou jogador aos agentes.

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