Quem é Kyrylo Budanov, o espião ucraniano que tira o sono ao Kremlin?

8 jul 2023, 16:00
Major-general Kyrylo Budanov, líder dos serviços secretos militiares ucranianos, no seu escritório (Getty Images)

Negociações secretas, atos de sabotagem e assassinatos. Ganhou um estatuto lendário entre os espiões ucranianos, chegou ao topo e promete continuar a fazer a Rússia pagar pela invasão

É um dos principais alvos do Kremlin e isso enche-o de orgulho. “É sinal de que faço bem o meu trabalho”, afirma o major-general Kyrylo Budanov, sem conseguir deixar escapar um pequeno sorriso. Na escuridão do seu escritório, apenas iluminado por um ecrã com o mapa da cidade de Moscovo, coordena algumas das operações mais delicadas da guerra na Ucrânia, facto que, devido à natureza da sua profissão, não confirma nem desmente. O mistério é parte do ofício, mas não esconde a o objetivo de atacar o interior do país inimigo “cada vez mais fundo”.

Budanov é o militar mais jovem de sempre a liderar os serviços de informações militares ucranianos. Ainda a Rússia não tinha lançado a sua “operação militar especial” e o atual líder dos serviços secretos militares já estava debaixo do radar de Moscovo. Com apenas 37 anos, diz ter sido alvo de dez tentativas de assassinato por parte das forças especiais russas.

A mais recente aconteceu no dia 29 de maio, durante uma vaga de ataques com mísseis de alta precisão, que tiveram como alvo o edifício do Diretoria de Informação ucraniana, onde está o seu gabinete. As explosões fizeram aparecer rumores da sua morte, intensificados por vários dias de silêncio mediático. A agência estatal russa Ria Novosti chegou mesmo a sugerir que este estivesse a ser tratado no estrangeiro, num hospital militar alemão, em Berlim. Dias depois, aparece num vídeo enigmático, sentado por detrás da sua secretária de madeira, com dezenas de pastas e montes de folhas de papel, e a olhar fixamente para a câmara durante 21 segundos. Tudo sem dizer uma única palavra. “Os planos apreciam o silêncio”, pode ler-se no final do vídeo. Budanov sobreviveu e o Kremlin falhou.

Budanov no seu escritório (Getty Images)

Moscovo tem tentado, sem sucesso, ver-se livro do espião ucraniano desde 2016, quando um tribunal russo o acusou de terrorismo. Nesse ano, ganhou fama por ter liderado uma operação em território controlado pelos russos para destruir helicópteros na base de Dzhankoi. Budanov argumenta que o que o Kremlin chama de “terrorismo” ele conhece como “libertação”. Este tipo de operações especiais não é novidade para ele. Aliás, foi precisamente neste tipo de operações que ganhou três medalhas por coragem, atribuídas pelas suas ações em operações secretas contra as tropas russas no Donbass e na Crimeia. Sob o comando do coronel Maxim Shapoval, Budanov efetuou várias missões de sabotagem no interior do território inimigo num dos grupos de operações especiais mais restritos: a 10.ª unidade de Operações Especiais. 

Em 2017, o coronel Maxim Shapoval perdeu a vida após um explosivo ter sido detonado no interior do seu carro, num atentado que se julga ser da responsabilidade dos serviços secretos russos. Apenas dois anos depois, em 2019, Budanov foi alvo de uma tentativa idêntica. Um homem que viajou de Moscovo para a Ucrânia com um passaporte que tinha o nome Alexei Lomanka colocou cuidadosamente um explosivo debaixo do carro de Budanov mas este acabou por detonar antes de tempo e o oficial sobreviveu.

Budanov já tinha um estatuto quase lendário no mundo da espionagem, mas desde que a Rússia lançou a sua “operação militar especial” que ele demonstrou aquilo de que a sua organização é capaz. Um membro da HUR (sigla pela qual os serviços secretos ucranianos são conhecidos) descreveu ao The Economist o seu superior como alguém “contido, comedido e que nunca entra em pânico”, com a capacidade fazer com que os outros façam tudo aquilo que ele pede. O brigadeiro-general Dmytro Timkov conhece Budanov há largos anos e participou em “dezenas de operações” com ele. Recorda um jovem militar que não tinha problemas em desafiar os seus superiores se achassem que estes estavam errados.

Estas características impressionaram o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, que, em 2020, surpreendeu toda a gente ao escolher o jovem Budanov para chefiar os serviços secretos. Se o mundo civil ficou espantado com a escolha, no mundo militar a decisão foi vista com bom olhos. Segundo Andriy Yusov, representante dos serviços de informação do Ministério da Defesa da Ucrânia, a nomeação foi “o equivalente a mostrar uma bandeira vermelha” à Rússia.

E a Rússia está a sentir na pele as implicações dessa escolha. Nos primeiros dias da invasão, com o caos instalado na capital, foi possível ver o próprio Budanov nas ruas com uma metralhadora. É também tido como um dos grandes orquestradores das operações militares que travaram o avanço russo no aeroporto de Hostomel, nos arredores de Kiev. Segundo a revista britânica The Economist, o próprio Budanov participou em missões no terreno. Desde então, o número de ataques em território russo não para de aumentar, desde o início da invasão, em 2022. Apesar de nunca o ter admitido, os Estados Unidos acreditam que os agentes da HUR estão por detrás do assassinato de Daria Dugina, filha do filósofo e propagandista russo Aleksandr Dugin, bem no coração de Moscovo, quando uma bomba fez explodir o carro em que seguia. O mais impactante terá sido o ataque contra a ponte de Kerch, que liga o território russo à península ocupada da Crimeia, em outubro.

Em dezembro, orquestrou um ataque contra aquela que é a principal base aérea militar russa, onde estão os principais bombardeiros de longo alcance russos, que podem disparar armas nucleares. Dois ataques com drones, em dois dias diferentes, danificaram seriamente várias aeronaves, destruíram um tanque de combustível e mataram vários oficiais da Força Aérea russa. Budanov nunca admitiu a autoria destes ataques, disse apenas estar “feliz” por eles terem acontecido. Num documento dos serviços secretos norte-americanos tornado público pelo luso-americano Jack Teixeira, a CIA diz ter intervindo perante o general-espião para que este não atacasse diretamente Moscovo no aniversário da invasão. Desde então, vários drones já atingiram prédios em Moscovo, dois deles chegaram mesmo a explodir por cima do Kremlin.

Líder dos serviços de informações militares na sua secretária (Getty Images)

O jovem general está longe de estar isento de controvérsia. Desde fevereiro de 2022, é o responsável pela coordenação da Legião Internacional das Forças de Defesa Territorial, uma força militar criada em fevereiro de 2022 composta por cidadãos estrangeiros com experiência militar. Mas, desde então, muitos militares deste grupo queixam-se da conduta dos seus oficiais, que acusam de roubar armamento ou bens, de ameaçar soldados e de abusos sexuais. Além disso, o gabinete chefiado por Budanov foi também acusado de enviar estes soldados em missões suicidas.

Sob o seu comando está uma unidade de forças especiais chamada Kraken, com ligações ao infame batalhão Azov. Esta unidade é mencionada nos relatórios dos serviços de informações norte-americanos tornados públicos por Jack Teixeira. Nesses documentos, os serviços secretos americanos acreditavam que, no auge dos combates pela cidade de Bakhmut, as tropas ucranianas corriam um sério risco de serem completamente cercadas. Budanov terá intervindo perante o líder do exército ucraniano, o general Syrski, e enviou para o terreno esta unidade. Acredita-se que estes militares fizeram parte da contraofensiva que recapturou a região de Kharkiv, no final de setembro de 2022.

Ao mesmo tempo que coordena ataques e atos de sabotagem contra os russos, é também por ele que passam algumas das mais importantes negociações com o inimigo. No final de setembro, conseguiu coordenar a maior troca de prisioneiros de sempre, incluindo uma centena de militares do batalhão Azov, capturados em Mariupol. Este sucesso foi recebido com estupefação entre alguns apoiantes do Kremlin.

O que não é claro é o papel de Budanov e dos serviços de informações militares ucranianos nos eventos que abalaram a estrutura do regime construído ao longo de mais de duas décadas por Vladimir Putin. Mas, em conversa com o jornalista português Bruno Maçães, horas antes de Prigozhin declarar guerra à liderança do Ministério da Defesa russo, despediu-se com o enigmatismo que lhe é característico: "Putin já perdeu o controlo". 

Tudo isto faz de Budanov uma das figuras mais populares da Ucrânia, a par do seu presidente do chefe das Forças Armadas, Valerii Zaluzhny. Sondagens feitas pelo gabinete do presidente mostram que o líder dos serviços secretos é mesmo um dos preferidos do povo ucraniano. No inverno chegou mesmo a ser dado como o substituto de Oleksy Rezhnikov enquanto ministro da Defesa, algo que nunca chegou a acontecer. No entanto, Budanov não parece focado numa possível carreira política. Para já, garante “apenas” que vai continuar a fazer Moscovo pagar até que abandonem o seu território. “Estamos a matar russos e vamos continuar a matar russos em qualquer lugar do mundo até a vitória completa da Ucrânia”, promete.

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