Os misteriosos drones ucranianos e um aviso após os ataques em solo russo: "estão a chegar milhares de soldados ucranianos treinados no estrangeiro"

6 dez 2022, 22:33
Drones têm papel cada vez mais importante no exército ucraniano (AP Photo)

A Ucrânia atacou solo russo duas vezes seguidas em dois dias seguidos. É preciso falar sobre isso

Segunda-feira o alvo foram duas bases aéreas em solo russo, esta terça-feira foi um aeródromo em Kursk - também solo russo. E a Ucrânia fê-lo com recurso a drones porque esta é a guerra deles, "dos drones", afirma Helena Ferro Gouveia, comentadora da CNN Portugal e especialista em assunto internacionais. Há "os drones turcos usados pela Ucrânia" e há os "drones iranianos usados pela Rússia" - e apesar de o uso de drones em conflitos não ser uma novidade, "nunca se viu nada com esta dimensão".

Estes ataques em solo russo não devem "mudar o conflito", mas Helena Ferro Gouveia diz que "o seu valor simbólico é muito forte" e mostra "capacidade da Ucrânia em atacar solo russo". Mas é mais do que isso. Os alvos escolhidos para os ataques é de onde estão a sair os aviões "usados pela Rússia para atingir as infraestruturas ucranianas".

"Não nos podemos esquecer que a Ucrânia sempre teve uma grande indústria de armamento" e, agora, ao "demonstrar capacidade em atacar em solo russo", também "causa medo e insegurança à população russa", acrescenta Helena Ferro Gouveia. Isto sem esquecer os custos que a guerra está a ter a nível interno russo: "Já custou 25% do PIB à Rússia".

Helena Ferro Gouveia não acredita numa escalada do conflito devido a estes ataques. "Pode haver uma intensificação dos bombardeamentos" mas uma escalada iria implicar o recurso "de armas ABC - armas táticas nucleares" e a comentadora não acredita que a Rússia o faça porque "é um risco muito grande". Os Estados Unidos, por exemplo, já deixaram avisos nessa matéria.

O mistério dos drones - e um aviso

O major-general Isidro Morais Pereira concorda com a importância dos drones porque, aponta, de facto nunca tiveram um peso tão grande num conflito. E não tem muitas dúvidas de que os drones usados nestes dois ataques podem estar a ser fabricados na Ucrânia. "Ninguém tem a certeza sobre quais foram os drones usados", explica, assumindo que acredita que sejam "os novos" que podem ter um alcance de mil quilómetros.

"A Ucrânia, através de uma joint venture com a empresa turca Baykar, está a produzir armas. A Baykar é uma empresa turca de fabrico de drones que está a trabalhar em conjunto com a Motor Sich, uma empresa ucraniana de fabrico de motores de aeronaves", diz o major-general. Trata-se de "drones capazes de transportar uma grande quantidade de explosivos". "Segundo informações que recebi, estes 'novos drones' deveriam estar prontos para usar em dezembro."

O major-general ressalva também os alvos escolhidos: "Foram alvos militares estratégicos. É de lá que saem os bombardeiros russos."

Por isso, perante esta nova capacidade da Ucrânia, diz que "podemos estar perante um game changer". Pode entrar-se "numa nova dimensão da guerra", com ataques estratégicos ucranianos às áreas que servem de logística aos militares russos - as estradas que usam, as pontes. Todavia, ressalva que, para haver certeza se os ataques estão ou não a ser efetuados pelos novos drones, "é preciso esperar pelos próximos dias e eventuais novos ataques". Isso dará uma resposta.

Certo é que "a Ucrânia conquistou a iniciativa" e Isidro Morais Pereira acredita que "em breve haverá uma nova ofensiva de grande escala ucraniana", até porque, avisa, estão a chegar ao país "milhares de soldados treinados no estrangeiro".

Mais mistérios sobre os drones - e ainda uma "falha na defesa aérea russa"

Após o ataque às bases aéreas na segunda-feira, a Rússia acusou logo a Ucrânia mas só ao final da noite é que um oficial ucraniano confirmou ao New York Times que o país tinha usado drones no ataque às bases aéreas, uma delas a mais de 700 quilómetros de distância. Quanto ao ataque desta terça-feira, o jornal britânico The Guardian, que cita o governador local, Roman Starovoyt, avançou que um ataque de drone atingiu o aeródromo de Kursk, na Rússia, sem no entanto especificar a origem do aparelho.

"Como resultado de um ataque de drone, um tanque de combustível pegou fogo perto do aeródromo de Kursk. Não há vítimas. Estamos a dominar o fogo. Os serviços de emergência estão a trabalhar no local", escreveu Roman Starovoyt no Telegram.

O alvo do ataque desta terça-feira, o aeródromo de Kursk, fica mais próximo da fronteira da Ucrânia mas continua a ser em solo russo. O major-general Agostinho Costa, comentador da CNN Portugal, considera que há, de facto, "uma falha" na defesa aérea russa. Todavia, recorda um incidente ocorrido no início do conflito: "Estes drones usados no ataque às bases aéreas são iguais ao que aterrou em Zagreb, na Croácia, passando também por toda a defesa aérea da NATO".

Agostinho Costa acredita que os drones em causa são os Tu-141 Strizh e "têm mais de 40 anos". Para o general, "não são indetetáveis de forma alguma". São drones de origem soviética com algumas alterações, certamente, "feitas pela parte ucraniana". Fizeram "um upgrade" mas "é um drone muito antigo".

Mas a verdade é que um chegou a uma distância de "quase 500 quilómetros" e o outro "na casa dos 700", diz o major-general. Apesar de reconhecer que a defesa russa está concentrada noutras zonas de combate, considera que o "espaço aéreo tem todo ele de ser controlado". "São drones grandes, quase do tamanho de uma aeronave."

Além disso, parece-lhe "uma ação inteligente da parte ucraniana" ao usar armas de origem russa, contornando "as restrições do armamento de longo alcance disponibilizado pelos outros países" que apoiam Kiev - restrições que visavam, de alguma forma, evitar a escalada do conflito. "Equacionamos até que a Ucrânia não teria drones com esta capacidade", observa o comentador da CNN Portugal, acrescentando que o país de Volodymyr Zelensky "dispõe ainda de uns drones do tempo soviético de que já todos nos esquecemos".

"Começa a destruir-se a imagem de que Moscovo está segura"

"É óbvio que a Ucrânia não tem intenção de ataques continuados", defende Tiago André Lopes, especialista na área da diplomacia, ao analisar o caso dos drones que atingiram duas bases aéreas russas. O comentador da CNN Portugal explicou esta terça-feira que tal podia resultar em "olhares de reprovação contra a própria Ucrânia" e à vitimização da Rússia.  

Mas, por outro lado, este comentador considera que estes ataques mostram "uma capacidade de provocar cada vez mais Moscovo", tendo em conta a proximidade de Saratov -  a 700 quilómetros. "Começa a destruir-se aquela imagem de que Moscovo está isolada e está segura enquanto Kiev está sempre à mercê dos mísseis", conclui.

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