Exclusivo: "É bastante claro que os russos estão a preparar-se para um possível teste nuclear"

CNN , Eric Cheung, Brad Lendon e Ivan Watson
22 set, 09:29
Imagens de satélite mostram aumento de atividade em locais de testes nucleares na Rússia, China e EUA

Imagens de satélite mostram aumento de atividade em locais de testes nucleares na Rússia, China e EUA.

A Rússia, os Estados Unidos e a China construíram novas instalações e escavaram novos túneis nos seus locais de testes nucleares ao longo dos últimos anos, segundo imagens de satélite obtidas em exclusivo pela CNN, numa altura em que as tensões entre as três principais potências nucleares atingiram o seu ponto mais alto em décadas.

Embora não existam provas que sugiram que a Rússia, os EUA ou a China estejam a preparar-se para um teste nuclear iminente, as imagens - obtidas e fornecidas por um proeminente analista em estudos de não-proliferação militar -, ilustram as recentes expansões em três locais de testes nucleares, em comparação com apenas alguns anos atrás.

Um deles é operado pela China na região ocidental de Xinjiang, outro pela Rússia num arquipélago do Oceano Ártico e outro pelos EUA no deserto do Nevada.

As imagens de satélite dos últimos três a cinco anos mostram novos túneis sob montanhas, novas estradas e instalações de armazenamento, bem como um aumento do tráfego de veículos que entram e saem dos locais, analisa Jeffrey Lewis, professor adjunto do Centro James Martin de Estudos de Não Proliferação do Instituto de Estudos Internacionais de Middlebury.

"Estamos a ver muitos indícios que sugerem que a Rússia, a China e os Estados Unidos poderão retomar os testes nucleares", afirma, algo que nenhum destes países fez desde que os testes nucleares subterrâneos foram proibidos pelo Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares de 1996. A China e os EUA assinaram o tratado, mas não o ratificaram.

Cedric Leighton, coronel reformado da Força Aérea dos EUA e antigo analista dos serviços secretos, analisou as imagens das instalações nucleares das três potências e chegou a uma conclusão semelhante.

"É muito claro que os três países, Rússia, China e Estados Unidos, investiram muito tempo, esforço e dinheiro não só na modernização dos seus arsenais nucleares, mas também na preparação do tipo de actividades que seriam necessárias para um teste", afirma.

Moscovo ratificou o tratado, mas o Presidente russo, Vladimir Putin, disse em fevereiro que ordenaria um teste, se os EUA o fizessem primeiro, acrescentando que "ninguém deve ter ilusões perigosas de que a paridade estratégica global pode ser destruída".

Segundo os analistas, as expansões correm o risco de desencadear uma corrida para modernizar as infra-estruturas de testes de armas nucleares numa altura de profunda desconfiança entre Washington e os dois governos autoritários, embora a ideia de um verdadeiro conflito armado não seja considerada iminente.

"A ameaça dos testes nucleares é o facto de acelerarem a crescente corrida ao armamento entre os Estados Unidos, por um lado, e a Rússia e a China, por outro", diz Lewis. "As consequências disso são que gastamos grandes somas de dinheiro, apesar de não ficarmos mais seguros."

Ameaças nucleares

Os comentários de Lewis surgiram depois de um proeminente grupo de vigilância nuclear, o Bulletin of the Atomic Scientists, ter definido, no início deste ano, o seu icónico Relógio do Juízo Final - que mede a proximidade do mundo em relação à autodestruição - para 90 segundos para a meia-noite, a configuração do relógio mais precária desde a sua criação em 1947.

O grupo citou a guerra na Ucrânia, desencadeada pela invasão ilegal do país vizinho pela Rússia em fevereiro de 2022, como a principal razão para a sua sóbria avaliação.

"As ameaças veladas da Rússia de usar armas nucleares lembram ao mundo que a escalada do conflito - por acidente, intenção ou erro de cálculo - é um risco terrível. A possibilidade de que o conflito saia do controlo de qualquer pessoa continua a ser elevada", afirmou o grupo.

Por outras palavras, o Relógio do Juízo Final assinala hoje um risco de fim da humanidade mais elevado do que em 1953, quando os Estados Unidos e a União Soviética realizaram testes dramáticos de armas nucleares à superfície.

No mês passado, o secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, lançou um novo apelo aos principais países para que ratificassem o tratado internacional que proíbe as experiências para fins pacíficos e militares

"Este ano, enfrentamos um aumento alarmante da desconfiança e da divisão a nível mundial", afirmou António Guterres. "Numa altura em que quase 13.000 armas nucleares estão armazenadas em todo o mundo - e os países estão a trabalhar para melhorar a sua precisão, alcance e poder destrutivo - esta é uma receita para a aniquilação".

Lewis salientou que o desempenho inesperadamente fraco das forças armadas russas na Ucrânia pode ser parte do ímpeto para Moscovo considerar a possibilidade de retomar os testes nucleares.

Dmitry Medvedev, um apoiante de Putin e atual vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, prometeu que Moscovo "teria de usar armas nucleares" se a contraofensiva na Ucrânia fosse bem sucedida. A retórica belicosa de Medvedev tem levantado dúvidas, mas Putin é o principal decisor da Rússia e é visto como o verdadeiro poder por detrás do trono durante os quatro anos de presidência de Medvedev.

A Bielorrússia, que desempenhou um papel fundamental na invasão russa da Ucrânia, também recebeu armas nucleares tácticas de Moscovo, disse o Presidente Alexander Lukashenko em agosto. E acrescentou que Minsk estaria disposta a utilizá-las em caso de "agressão" estrangeira.

Rússia e China

Enquanto as forças armadas russas invadiam a Ucrânia, no ano passado, os analistas observaram também uma expansão do local de testes nucleares do país em Novaya Zemlya, no arquipélago do Oceano Ártico.

Em meados de agosto, as atenções voltaram a centrar-se nesta instalação quando o ministro da Defesa, Sergei Shoigu, a visitou, segundo o Ministério da Defesa russo.

Nova construção no local de ensaios nucleares de Novaya Zemlya, Rússia, 22 de junho de 2023. Planet Labs PBC/Instituto Middlebury. Tradução: 

Shipping containers - Contentores marítimos
Large trucks - Camiões de grande porte
Construction supplies - Material de construção
Gruas de construçãoEdifício novo e grande em construção
Construction cranes - Gruas de construção
Smaller building under construction - Edifício mais pequeno em construção
New, large building under construction - Edifício novo e grande em construção

O local de Novaya Zemlya foi utilizado pela primeira vez pela União Soviética para efetuar ensaios nucleares em 1955. Até à última explosão subterrânea da URSS, em 1990, o local registou um total de 130 testes envolvendo mais de 200 dispositivos, de acordo com uma análise publicada na revista Science and Global Security.

Imagens de satélite obtidas pela CNN mostraram que houve uma construção extensa no local de teste Novaya Zemlya de 2021 a 2023, com navios e novos contentores a chegar ao porto, estradas a serem mantidas limpas no inverno e túneis escavados nas profundezas das montanhas do Ártico.

"O local de testes russo está agora aberto durante todo o ano, vemo-los a limpar a neve das estradas, vemo-los a construir novas instalações". diz Lewis.

Perto dessas instalações há túneis onde a Rússia efectuou testes no passado, afirma Lewis. "Nos últimos cinco ou seis anos, vimos a Rússia cavar novos túneis, o que sugere que estão preparados para retomar os testes nucleares", acrescenta.

"Para mim, é bastante claro que os russos estão a preparar-se para um possível teste nuclear", acrescenta Leighton, antigo oficial dos serviços secretos da Força Aérea dos EUA e atual analista da CNN. Mas faz o que diz serem "ressalvas" importantes.

"Os russos podem estar a tentar ir até ao limite, fazendo todos os preparativos para um ensaio nuclear, mas não o realizando de facto. Essencialmente, estariam a fazer isto para 'assustar' o Ocidente", admite Leighton.

Moscovo não respondeu ao pedido de comentário da CNN sobre este assunto e não há forma de saber exatamente o que se passa escondido da vista dos satélites.

Local de ensaios nucleares de Lop Nur. Planet Labs PBC/Instituto Middlebury

Legenda: rectângulo em cima - montanha norte (cinco túneis horizontais para ensaios nucleares ou experiências subcríticas); rectângulo em baixo - área administrativa e de apoio. 

Foi também detectado um aumento de atividade no local de testes nucleares chinês em Lop Nur, um lago salgado seco entre dois desertos na região ocidental da China, que é escassamente povoada .

As imagens de satélite mostram que um quinto túnel subterrâneo foi escavado nos últimos anos e que foram construídas novas estradas. Uma comparação das imagens tiradas em 2022 e 2023 mostra que a pilha de resíduos tem aumentado constantemente de tamanho, levando os analistas a acreditar que os túneis estão a ser expandidos, considera Lewis.

Além disso, a principal área de administração e apoio tem visto novos projetos de construção. Uma nova área de armazenamento foi construída em 2021 e 2022, que poderia ser usada para armazenar explosivos, acrescenta.

"O local de teste chinês é diferente do local de teste russo", explica Lewis. "O local de testes chinês é vasto e tem muitas partes diferentes".

"Parece muito movimentado, e essas coisas são facilmente vistas em imagens de satélite. Se nós conseguimos vê-las, penso que o governo dos EUA também consegue", acrescenta.

O aumento da atividade em Lop Nur foi também assinalado num relatório de abril do projeto China Observer da Sasakawa Peace Foundation, um grupo de especialistas em China no Japão.

Após uma análise de fotografias de satélite do local de Lop Nur, o grupo concluiu que o "possível objetivo da China é realizar testes nucleares subcríticos".

O grupo encontrou um possível sexto túnel de testes em construção em Lop Nur, afirmando que "o facto de ter sido escavado um túnel muito longo ao longo do terreno da montanha, com curvas pelo caminho, indica que a construção do local de testes está na sua fase final".

Num comunicado enviado à CNN, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China criticou a reportagem por "exagerar a 'ameaça nuclear da China'" e descreveu-a como "extremamente irresponsável".

Nova construção na zona administrativa e de apoio, local de ensaios nucleares de Lop Nor. Planet Labs PBC/

"Desde o anúncio da suspensão dos ensaios nucleares em 1996, a parte chinesa tem respeitado sistematicamente esta promessa e trabalhado arduamente na defesa do consenso internacional sobre a proibição dos ensaios nucleares", afirmou.

E acrescentou que o mundo internacional deveria ter "grande vigilância" sobre as actividades dos Estados Unidos em matéria de ensaios nucleares.

Atividade no deserto do Nevada, EUA

De tempos a tempos, os Estados Unidos publicam uma versão não classificada da Revisão da Postura Nuclear, que fornece uma visão geral do papel das armas nucleares na sua estratégia de segurança.

O relatório mais recente, publicado em outubro do ano passado, afirmava que Washington só consideraria a possibilidade de utilizar armas nucleares em "circunstâncias extremas". No entanto, também afirmou que os EUA não adoptam uma "política de não utilização pela primeira vez" porque isso resultaria num "nível inaceitável de risco" para a sua segurança.

Os EUA realizaram o seu último teste subterrâneo em 1992, mas Lewis afirma que há muito que os EUA se mantêm em estado de prontidão para um teste nuclear, prontos a reagir se um dos seus rivais agir primeiro.

"Os Estados Unidos têm uma política de estar preparados para efetuar um ensaio nuclear num prazo relativamente curto, cerca de seis meses", afirmou.

As imagens de satélite comerciais, tiradas sobre o local de testes nucleares no Nevada, oficialmente conhecido como Nevada National Security Site, mostram que uma instalação subterrânea - o complexo U1a - foi amplamente expandida entre 2018 e 2023.

A Administração de Segurança Nacional (NNSA), um braço do Departamento de Energia dos EUA que supervisiona o local, diz que o laboratório serve para conduzir experiências nucleares "subcríticas", uma prática de longa data destinada a garantir a confiabilidade das armas em stock sem testes em grande escala.

"Nas experiências subcríticas, os altos explosivos químicos geram pressões elevadas, que são aplicadas a materiais de armas nucleares, como o plutónio. A configuração e as quantidades de explosivos e materiais nucleares são tais que não ocorrerá nenhuma explosão nuclear", diz o site da NNSA.

Em resposta ao pedido de comentário da CNN, um porta-voz da NNSA confirmou que tem estado a "recapitalizar as infraestruturas e as capacidades científicas" no local de testes do Nevada, o que inclui a aquisição de novas fontes e detectores avançados, o desenvolvimento de tecnologia de medição da reatividade e a continuação da atividade de perfuração de túneis.

"Isto permitirá dispor de capacidades de diagnóstico modernas e de dados que ajudarão a manter a segurança e o desempenho das reservas nucleares dos Estados Unidos sem a realização de novos ensaios subterrâneos de explosivos nucleares", acrescentou o porta-voz.

Atividade de construção, Local de Segurança Nacional do Nevada, de 2023 a 2018. Planet Labs PBC/Instituto Middlebury

Um relatório do Governmental Accountability Office (GAO) dos EUA, publicado em agosto, afirma que os EUA vão construir dois dispositivos de medição no local de Nevada para "fazer novas medições de plutónio durante experiências subcríticas".

Os dispositivos e as melhorias das infraestruturas conexas, necessários "para informar os planos de modernização do arsenal de armas nucleares", custarão cerca de 2,5 a 2,6 mil milhões de dólares e estarão prontos em 2030, segundo o relatório do GAO.

Um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional também disse à CNN que está a acompanhar de perto as actividades militares da Rússia, mas acrescentou que "não viu qualquer razão para ajustar a nossa própria postura nuclear".

No entanto, a expansão das instalações no local de testes do Nevada pode alimentar os receios em Moscovo e Pequim de que Washington possa estar a preparar-se para um teste nuclear - porque embora ambos os países possam ver o desenvolvimento a partir de imagens de satélite, não têm capacidade para verificar de forma independente o que se passa no interior, diz Lewis.

E essas percepções podem tornar-se perigosas, especialmente na era atual, com medo e falta de confiança de todos os lados, considera ainda.

"O perigo é que, mesmo que os três comecem por planear ir em segundo lugar, um deles pode convencer-se da importância de ir em primeiro lugar, um deles pode decidir que, uma vez que toda a gente o está a fazer, é melhor dar o salto e ir mesmo em frente".

Se o fizerem, o mundo saberá - qualquer grande explosão subterrânea será provavelmente detectada pelo Sistema Internacional de Monitorização (IMS), uma rede de 337 instalações que monitoriza o planeta em busca de sinais de explosões nucleares.

Modernização contínua

Hans Kristensen, diretor do Projeto de Informação Nuclear da Federação de Cientistas Americanos, concorda que existe um perigo real de escalada de testes, caso uma das grandes potências o faça.

"No minuto em que uma das principais potências nucleares colocar uma arma nuclear em algum lugar, todas as apostas estão canceladas, porque não há dúvida de que todos se juntarão novamente a essa atividade", diz.

Num recente anuário sobre as forças nucleares mundiais, publicado em junho pelo Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo (SIPRI), em coautoria com Kristensen, os analistas concluíram que todas as potências nucleares mundiais - incluindo o Reino Unido, a França, a Índia, o Paquistão, a Coreia do Norte e Israel - continuaram a "modernizar os seus arsenais nucleares" no ano passado.

A Rússia, por exemplo, anunciou em 1 de setembro que o seu novo míssil balístico intercontinental Sarmat ou "Satan II" está operacional. O Sarmat pode transportar 10 ou possivelmente mais ogivas nucleares de alvo independente com um alcance de até 18 mil quilómetros, de acordo com o Projeto de Defesa Anti-Míssil do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

Os EUA estão também a construir novos sistemas de lançamento de ogivas nucleares, como o bombardeiro furtivo B-21 e o submarino de mísseis balísticos da classe Columbia. Como parte da atualização, os locais de armazenamento nuclear também serão adicionados às bases da Força Aérea dos EUA em Ellsworth e Dyess, escreveu Kristensen num relatório da Federação de Cientistas Americanos em 2020.

O B-21 Raider apresentado durante uma cerimónia na Air Force Plant 42 da Northrop Grumman em Palmdale, Califórnia, em 2 de dezembro de 2022. Frederic J. Brown/AFP/Getty Images/File

O relatório do SIPRI afirma que a Rússia e os EUA possuem atualmente cerca de 90% de todas as armas nucleares do mundo, estimando-se que os EUA tenham mais de 3.700 ogivas armazenadas e a Rússia cerca de 4.500. Ambos os países mantêm os seus arsenais nucleares estratégicos em estado de alerta, o que significa que as armas nucleares podem ser lançadas a curto prazo.

O arsenal nuclear da China aumentou de 350 ogivas em janeiro de 2022 para 410 em janeiro de 2023.

No passado, a China não combinava ogivas com sistemas de lançamento, mantendo as suas forças nucleares num estado de "alerta baixo". Mas a ONG Associação de Controlo de Armas (ACA) afirmou que, este ano, o ELP passou a fazer uma rotação mensal dos batalhões de mísseis do estado de "stand-by" (em espera) para o estado de "ready-to-launch" (pronto a lançar).

Fiona Cunningham, académica não residente do Programa de Política Nuclear do Carnegie Endowment for International Peace, escreveu no jornal mensal da ACA em agosto que a posição nuclear de Pequim é difícil de discernir.

"O aumento do tamanho, da precisão, da prontidão e da diversidade do arsenal da China reforça a credibilidade da capacidade do país de ameaçar retaliar um ataque nuclear e permite que a China faça ameaças mais credíveis de usar armas nucleares primeiro", escreveu.

Vista aérea da cobertura de neve no lago Lop Nur e no deserto de Taklamakan no condado de Yuli em 28 de novembro de 2021, na Região Autónoma Mongol de Bayingolin, Região Autónoma Uygur de Xinjiang da China. Yang Kun/VCG/Getty Images

Mas Kristensen diz à CNN que, embora as três principais potências tenham se envolvido em testes subcríticos, ele acredita que "um teste nuclear em grande escala é improvável".

Daryl Kimball, diretor executivo da Associação de Controlo de Armas, concordou, escrevendo no boletim informativo de setembro da organização que "a China, a Rússia e os Estados Unidos continuam a envolver-se em actividades relacionadas com armas nos seus antigos locais de testes nucleares".

Mas Kimball observou que, sem um teste real, "é mais difícil, embora não impossível, para os Estados desenvolver, provar e colocar em campo novos projetos de ogivas".

Qual é o objetivo de fazer mais testes?

Mas se os três países suspenderam os testes nucleares desde os anos 90, o que é que poderiam ganhar com o reinício desses testes?

Segundo Lewis, uma das razões para fazer testes, especialmente para a China, é obter dados mais atualizados para os modelos informáticos que mostram o efeito de uma explosão nuclear. Porque enquanto os Estados Unidos e a Rússia efectuaram centenas de testes, a China só fez cerca de 40 e tem muito menos pontos de dados.

"Esses 40 testes foram efectuados nos anos 60, 70 e 80, quando a sua tecnologia não era assim tão avançada. Os dados de que dispomos não são assim tão bons", afirma Lewis.

Novaya Zemlya é um arquipélago no Oceano Ártico localizado a norte da Rússia, 23 de agosto de 2012. DigitalGlobe/Maxar/Getty Images/File

Outros salientam que as grandes potências não testaram armas nucleares de baixo rendimento, que produzem uma explosão nuclear mais pequena que pode ser direccionada para uma unidade ou formação específica no campo de batalha, em vez de destruir uma grande cidade.

Num relatório de 2022 para o Laboratório de Física Aplicada Johns Hopkins, em Baltimore, nos EUA, os investigadores Michael Frankel, James Scouras e George Ullrich sugerem que os EUA podem hesitar em retaliar um ataque russo de baixo rendimento porque ainda não testaram os tipos de armas que teriam de utilizar.

"Embora os Estados Unidos disponham atualmente de várias armas de baixo rendimento no seu arsenal, estas são insuficientes em termos de quantidade e de diversidade de sistemas de lançamento", diz o relatório, intitulado "Tickling the Sleeping Dragon's Tail" (à letra, "Fazendo cócegas na cauda do dragão adormecido")

O relatório refere, em particular, que foram propostas armas nucleares mais pequenas, com um rendimento inferior a um quilotonelada (a título de comparação, a bomba atómica que os EUA lançaram sobre Hiroshima, no Japão, em 1945, tinha um rendimento de cerca de 15 quilotoneladas), que podem ser entregues por aviões ou navios, para dissuadir as ameaças nucleares russas.

"É pouco provável que tais armas estejam disponíveis na ausência de testes", afirma o relatório.

Os Estados Unidos, a primeira potência nuclear do mundo, efectuaram 1 032 testes, o primeiro em 1945 e o último em 1992, segundo os dados das Nações Unidas. A União Soviética - atual Rússia - realizou 715 testes entre 1949 e 1990, e a China fez 45 testes entre 1964 e 1996.

Lewis acredita que o desejo de que os EUA, a Rússia e a China sejam os primeiros a desenvolver armas "exóticas" do futuro também instiga a necessidade de testes nucleares desses possíveis sistemas.

Alguns deles poderão em breve fazer parte do arsenal russo, uma vez que Putin se tem gabado de ter armas como um torpedo do dia do juízo final com armas nucleares e um míssil de cruzeiro com propulsão nuclear.

Segundo Lewis, "estamos à beira de uma espécie de futuro de ficção científica em que estamos a ressuscitar todas estas ideias terríveis da Guerra Fria", .

 

Hayley Britzky, da CNN, contribuiu para este artigo.

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