Telavive poderá eliminar Hamas mas atrairá Hezbollah e Al-Qaeda, diz analista

Agência Lusa , DCT
18 out, 08:16
Guerra na Faixa de Gaza (Associated Press)

Para o analista, o Hamas, que governa a Faixa de Gaza desde 2007, explorou a vantagem da surpresa “com um sucesso espantoso”, tendo como “vantagem, agora”, a capacidade de se dispersar e de se esconder dentro do escudo protetor da população civil do enclave.

O analista do Conselho para as Relações Internacionais Bruce Hoffman advertiu hoje que se Israel eliminar definitivamente a ameaça representada pelo Hamas, a campanha em Gaza poderá atrair outros adversários, incluindo Hezbollah e Al-Qaeda.

Num artigo publicado no portal do Conselho para as Relações Internacionais, um ‘think tank’ com sede em Nova Iorque voltado para a política externa e assuntos internacionais, Hoffman destacou a capacidade e os meios do Hamas, movimento islamita palestiniano considerado terrorista pela União Europeia (UE) e Estados Unidos, para montar ataques coordenados e simultâneos a partir do ar, do mar e da terra.

“O facto de o Hamas ter a capacidade de manter os seus preparativos desconhecidos de um país como Israel, que possui um dos serviços de informações mais sofisticados do mundo, sugere fortemente que teve apoio, aconselhamento e orientação de um Estado externo no planeamento e execução do ataque a Israel. O Irão, por conseguinte, será fortemente suspeito de estar por detrás disto”, sublinhou.

Hoffman sustentou que o Irão fornece ao Hamas e à Jihad Islâmica da Palestina (JIP) pelo menos 100 milhões de dólares (94,4 milhões de euros) por ano e proclama abertamente a intenção de destruir Israel, tendo Teerão manifestado preocupação com a possibilidade de a Arábia Saudita e Israel estabelecerem relações diplomáticas formais, agravada pelo pacto de defesa entre Riade e Washington.

“O Irão tinha todas as razões para encorajar e facilitar o ataque a Israel. Mas isso é muito diferente de ordenar, muito menos de orquestrar os ataques ou de dar qualquer tipo de ‘luz verde’. Embora o Hamas e o JIP, tal como o Hezbollah [com sede no Líbano], tenham laços estreitos com o Irão, também funcionam de forma independente. Assim, o longo historial do Irão na tentativa de desestabilizar países da região, incluindo Bahrein, Iraque, Kuwait, Líbano e Arábia Saudita está muito bem documentado”, disse.

Apesar de, tal como prometeu o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, a retaliação ser “maciça e decisiva, com a intenção de destruir de vez o Hamas”, a guerra está a mostrar que os crimes de guerra, independentemente de ter sido desencadeada pelo Hamas a 07 deste mês, são muitos e quem está a pagar são os civis de ambos os lados.

“Os relatos de execuções, abusos sexuais, civis a serem retirados das suas casas e outras depredações não ficarão impunes a Israel. À medida que mais informação vir a luz do dia e que o choque do ataque inicial se desvanecer, os israelitas exigirão vingança”, sustentou Hoffman.

No entanto, defendeu, o argumento comum sobre o contraterrorismo, de que “não há solução militar", não é totalmente verdade, “desde que um país não se preocupe em ferir civis”, tal como, exemplificou, sucedeu no Sri Lanka.

“A campanha militar em 2009 esmagou completamente os Tigres Tamil. Estima-se que cerca de 20.000 civis tenham sido mortos. Morreram o fundador e líder dos Tigres, toda a sua equipa de comando e praticamente todos os oficiais e elementos da organização. Um grupo terrorista pode ser destruído desta forma, mas isso implica uma enorme perda de vidas civis”, lembrou.

“Se Israel perseguir este objetivo, é provável que se siga uma série de coisas, incluindo o Hezbollah vir em auxílio do Hamas, ou o Irão envolver-se potencialmente, com a possível convergência de combatentes estrangeiros da Al-Qaeda e dos Talibãs, entre outros grupos. Isso lançaria este conflito numa trajetória completamente diferente”, alertou Hoffman.

Para o analista, o Hamas, que governa a Faixa de Gaza desde 2007, explorou a vantagem da surpresa “com um sucesso espantoso”, tendo como “vantagem, agora”, a capacidade de se dispersar e de se esconder dentro do escudo protetor da população civil do enclave.

No entanto, para Hoffman, as vantagens de Israel deveriam ter impedido o ataque surpresa do Hamas, pois Telavive “tem uma das forças armadas mais sofisticadas tecnologicamente, mais bem treinadas, armadas e profissionais da região, se não do mundo”.

“O armamento avançado, a doutrina, a formação e o equipamento das Forças de Defesa de Israel dotaram-nas de capacidades de combate formidáveis que se tornarão cada vez mais evidentes nos próximos dias”, argumentou o analista do IRC, apontando que, historicamente, as organizações terroristas “têm-se saído mal quando o peso total do poderio militar de um Estado estabelecido é exercido sobre elas”.

Segundo Hoffman, o conflito “está longe” de ter terminado e é completamente imprevisível quanto à sua evolução, pois foram desencadeadas “forças poderosas e centrífugas” que reescreveram as regras para Israel e o Hamas, e talvez para outros na região.

“Por exemplo, tendo em conta os laços de longa data do Hezbollah com o Hamas e o facto de o seu patrono estatal mútuo ter um enorme interesse em assegurar a longevidade dos seus clientes terroristas regionais, o Hezbollah, por sua própria iniciativa mas em total sintonia com os desejos do Irão, entrará provavelmente na guerra se Israel lançar um ataque terrestre em Gaza. As consequências serão então enormes”, advertiu.

Atualmente, prosseguiu, o Hezbollah dispõe de um arsenal de mísseis que se crê ser dez vezes superior, mais precisos e capazes de percorrer distâncias maiores, razão pela qual todo o território de Israel ficaria vulnerável a ataques de mísseis.

“Existe a possibilidade de a guerra alastrar e o terrível derramamento de sangue e as tragédias que se seguirão tornarão qualquer tipo de conversações mais difíceis e mais distantes do que no passado. Os militantes palestinianos na Cisjordânia podem revoltar-se com violência a qualquer momento, embora isso seja mais provável se Israel lançar um grande ataque terrestre e reocupar Gaza. Isso levantaria a questão: confrontado com uma guerra em três frentes, será que Israel visaria o Irão na esperança de o pressionar a retirar os seus lacaios?”, questionou Hoffman, sem dar uma resposta.

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