Caos nas urgências provoca níveis elevados de ansiedade nas grávidas. Há até quem mude de casa só para estar perto de uma maternidade

30 jul, 08:00
Maternidade, Nascimento, covid-19, hospital, saúde. Texas, EUA. 8 julho 2020. Foto: Lynsey Addario/Getty Images Reportage

Uma grávida entra em trabalho de parto e tem de ir a uma página ver se a urgência da sua área de residência está aberta ou se tem de fazer centenas de quilómetros para ir fazer o parto num hospital que não conhece. Médicos e utentes criticam a situação que se vive atualmente nas urgências de obstetrícia do SNS

Ao aproximar-se a data prevista para o parto, S. tomou a decisão de sair temporariamente de sua casa, em Portimão, e mudar-se para Lisboa. Foi sozinha, porque o marido tinha que trabalhar, mas, apesar de todos os inconvenientes, esta mulher achou que se sentiria mais tranquila sabendo que teria por perto uma maternidade aberta 24 horas por dia do que correr o risco de, quando a hora chegasse, o serviço da sua área de residência estar fechado.

"Esta mulher não se sentia segura", conta Andreia Guerreiro, membro do Observatório de Violência Obstétrica (OVO), que neste momento acompanha, como doula, várias famílias que vivem preocupações semelhantes. "Este caos nas urgências de obstetrícia, que ora estão abertas, ora estão fechadas, causa um impacto transversal na saúde da grávida", explica à CNN Portugal. O impacto é sentido tanto na saúde física como na saúde mental, garante.

A nível físico, "o stress e a ansiedade constantes causados pela incerteza sobre onde vão parir aumenta os níveis de adrenalina e cortisol, aumentando o risco de um parto prematuro. Também diminui a resposta do sistema imunitário e eleva a pressão arterial - o que, em conjunto com outros fatores pode levar a uma situação de pré-eclampsia".

Do ponto de vista psicológico, "estas são gravidezes vividas sob um manto de ansiedade". "A gravidez é um período onde estes medos já surgem naturalmente, todas as mulheres se preocupam e pensam se as coisas vão correr bem ou não. Com esta incerteza, os medos são ainda maiores. E ainda por cima, depois, temos estas notícias de mulheres e recém-nascidos que morrem, dando ainda mais razões para as grávidas terem medo."

Por causa de tudo isto, Andreia Guerreiro está a acompanhar várias famílias "que estão a optar por fazer muitos quilómetros no final de gravidez, sobretudo se viverem fora da Lisboa". "É uma ansiedade enorme, porque se a urgência do hospital da sua área de residência estiver fechada, a mais próxima poderá ficar a centenas de quilómetros", explica. 

E ainda há mais: sempre que têm de mudar inesperadamente os seus planos, as mulheres vão para o hospital "sem uma série de condições que são securizantes". Por exemplo, o facto de já terem visitado o serviço onde planeavam ter o parto. Ou o facto de ser um hospital perto de casa, onde, no caso de haver um filho mais velho ele pode ser acompanhado pelo pai enquanto a mãe está internada. Parecem pequenos pormenores mas fazem toda a diferença no momento - sempre delicado - em que se vai ter um filho.

Finalmente, é de referir que a grávida sai da sua zona de conforto para ser atendida num sítio onde é uma desconhecida. "No caso das grávidas de alto risco, por exemplo, é completamente diferente ter uma equipa que acompanhou a gravidez e que se preparou para a situação", diz Andreia Guerreiro. E sublinha: "Falamos da rede do Serviço Nacional de Saúde como se todos os hospitais funcionasssem da mesma forma, mas isso não é verdade. Infelizmente, ainda há muitos hospitais onde as grávidas sofrem violências. Saber isso é mais um setor de stress para as mulheres".

"Esta situação provoca um ainda maior fosso entre os utentes que podem recorrer aos hospitais privados e aqueles que não têm condições para o fazer", refere ainda Andreia Guerreiro.

Haver um site com a informação sobre as urgências abertas é bom?

"Uma pessoa entra em trabalho de parto e a sua preocupação tem de ser ir ver a um site qual a urgência que está a funcionar. Num momento em que deveria estar completamente relaxada, tem de ter esta preocupação e pode até descobrir que tem de ser transferida para longe de casa", critica Andreia Guerreiro. E não é a única.

"A ideia de ter um site com as informações é simpática e, na verdade, é melhor ter alguma coisa do que não ter nada", começa por dizer à CNN Portugal José Lourenço, da Comissão de Utentes de Saúde do Seixal. Mas, na prática, o site não resolve o verdadeiro problema - que é a falta de médicos - e acaba por criar uma enorme insegurança na população, diz. "As pessoas não entendem como é que isto está organizado, não percebem quais as urgências que estão aberta e quais as que estão fechadas. Não há uma previsibilidade."

O que acaba por acontecer, conta, é que "as pessoas dirigem-se para a unidade mais próxima ou onde já estão a ser seguidas, as grávidas não se lembram de ir consultar o site".

Isto é, se conseguirem encontrar o site. "A minha percepção é que isto não está a funcionar bem. As pessoas queixam-se que não o conseguem encontrar numa pesquisa no Google. Procuram por maternidades ou por serviços de urgência e não aparece nada. Se não se souber, não se chega lá com uma pesquisa", conta José Pinto de Almeida, diretor do Serviço de Obstetrícia do Hospital de Setúbal. Por outro lado, também há muitas pessoas que pura e simplesmente não se lembram de ir ao site. 

E mesmo que consigam aceder ao site, existe sempre a hipótese de a informação que lá está não estar correta. "Nós fazemos o melhor possível. Eu atualizo a informação na plataforma da ARS mas depois alguém tem que atualizar o site que está disponível para a população, não é imediato. E a verdade é que a situação está sempre a mudar. É um trabalho impossível, apesar do trabalho que temos."

Segundo Pinto de Almeida, uma vez que partimos de uma situação já de grande fragilidade nas escalas e com grande dependência de colegas externos, sempre que acontece algum imprevisto - como médicos que cancelam a sua disponibilidade, que ficam doentes ou que têm qualquer outro impedimento - o serviço pode ter que encerrar.

"É um esforço contínuo. E isto afeta imenso o bem-estar dos utentes e dos profissionais. As pessoas têm muito medo e é um medo que eu não consigo tranquilizar. Perguntam-me quando é que a urgência está aberta, e eu só posso responder que, com os dados de agora, as previsões são para estar aberta nestes dias e fechada nos outros. Mas daqui a duas horas a situação já pode ser diferente. Isso é demolidor. Para mim e para os utentes. Dá uma insegurança terrível às pessoas."

É por isso que Andreia Guerreiro faz uma última chamada de atenção: "Não dá para planear nada com antecedência, porque as decisões são tomadas dia a dia. É um fecho intermitente, os encerramentos são comunicados em cima da hora. Por causa desta instabilidade, pode também haver uma pressão maior sobre os profissionais de saúde para programar induções de parto ou fazer cesarianas programadas, o que acarreta riscos para a grávida e para o bebé."

Um serviço de urgência com horários?

Comentando a situação das urgências na CNN Portugal, Adalberto Campos Fernandes não poupou críticas ao Governo: "Não se pode dizer que estamos a trabalhar em rede e que isto é uma conquista. Isto é um erro também incompreensível. Um serviço de urgência gera na população um compromisso, e uma responsabilidade por parte do estado. É um serviço de porta aberta e que tem de funcionar em prontidão. É absurdo dizer que se gere o acesso a um serviço de urgência de obstetrícia indo consultar um site como se consulta ou outro tipo de serviços". 

Este especialista afirmou ainda que na sua opinião "há uma confusão entre referenciação em rede e pontos de abertura. Uma coisa é, sempre existiu e tem de existir, os níveis de referenciação primária e secundária. Uma situação clínica no Algarve, com alguma complexidade, pode ter como indicação a necessidade de transferência para um dos hospitais de Lisboa, isso está pré-estabelecido e os médicos nas diferentes equipas de urgência, com o CODU e com INEM, conhecem esse circuito", explica Campos Fernandes. "Outra coisa é, num tempo em que o próprio INEM está com dificuldades de resposta, nós estarmos a usar as ambulâncias do INEM para o transporte de doentes que nós sabemos que é secundário. Se o INEM está a transportar grávidas, não está a responder ao socorro imediato que é a sua vocação."

Pinto de Almeida concorda com Adalberto Campos Fernandes: "Aquilo que está a acontecer é a perfeita falência do SNS. E considero escabroso que haja encerramento e se tente passar a mensagem de que o sistema está a funcionar porque quando uma urgência está fechada, outra está aberta. Está-se a tentar normalizar algo que nunca devia acontecer que é haver um serviço de urgência fechado. Não é uma conquista termos este recurso que antes não tínhamos. É apenas uma solução de recurso."

"Enquanto médico e enquanto cidadão, acho que esta solução da aplicação e do site é uma má solução", afirmou, sem qualquer dúvida, Adalberto Campos Fernandes. "Um ponto de urgência não é um serviço que possa estar on/off, que possa estar a abrir de manhã e a fechar à tarde. Nós não estamos a falar de uma função comercial ou de uma função de serviços, estamos a falar de um ponto de rede de urgências."

"Naturalmente que uma grávida com o contexto psicológico que tem, com a ansiedade própria da sua condição, a última coisa que vai ter em atenção é para ir a um site num computador ou ir a uma aplicação ver se a sua necessidade de saúde é satisfeita ali ou cem quilómetros mais longe. Isto gera na população, alguma até com alguma iliteracia e que se habituou a frequentar o hospital da sua zona, uma grande insegurança, perturbação e ansiedade", concluiu o ex-ministro da Saúde.

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