Os segredos por detrás do sucesso de “Last Christmas” e “All I Want for Christmas”

24 dez 2021, 16:46

Nas últimas décadas, muitos músicos tentaram lançar o seu clássico de Natal, mas poucos conseguiram alcançar esse estatuto. George Michael e Mariah Carey acertaram em cheio, com “Last Christmas” e “All I Want for Christmas is you”

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Todos os anos, chegando novembro e dezembro, a história repete-se: músicos das mais variadas origens tentam a sua sorte lançando novas músicas de Natal, que competem com clássicos com muitas décadas facilmente reconhecíveis aos primeiros acordes. 

Muita coisa mudou em 2021, mas não esta tradição natalícia. Elton John e Ed Sheeran protagonizam o caso mais vistoso da safra de canções de Natal deste ano. “Merry Christmas”, juntando duas supervedetas, e com receitas a reverter para causas sociais, é o concorrente mais sério deste ano a um lugar no cânone de temas natalícios. Curiosamente, este ano também os ABBA estão na corrida, com “Little Things”, um tema lançado este mês, mas que soa a ABBA vintage. Alguma entrará na galeria das canções de Natal que se tornam clássicos?

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É uma galeria onde têm lugar cativo dezenas de canções, muitas delas das décadas de 40 e 50, os anos de ouro dos grandes musicais americanos e dos especiais de natal que consagraram artistas e canções por muitas gerações. São os casos de “The Christmas Song”, “Have Yourself a Merry Little Christmas”, “Frosty the Snowman” ou “Let it Snow! Let it Snow! Let it Snow!”. 

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“White Christmas”, de Irvin Berlin, na versão de Bing Crosby, é provavelmente o exemplo mais evidente dessa capacidade de uma canção agarrar o espírito de natal, transcendendo o tempo e o lugar em que foi escrito e gravado pela primeira vez. É da grande fornada dos anos 40, e continua a ter o selo do Guiness Book of Records como o single mais vendido de sempre, com mais de 50 milhões de cópias - mas se à versão original de Cosby se juntarem as dezenas de covers gravadas por outros artistas, são mais de 150 milhões de discos vendidos. 

Mas a lista inclui muitas mais canções, desde “Jingle Bells”, clássico do século XIX que foi originalmente escrito para celebrar o dia de Ação de Graças, a “Happy Christmas” e “Wonderful Christmas Time” dos ex-Beatles John Lennon e Paul McCartney, respetivamente. Porém, os Beatles nunca entraram por terrenos natalícios - mas os Beach Boys, por exemplo, fizeram-no, com grande sucesso, num álbum repleto de gravações para a posteridade, com destaque para “Little Saint Nick”. 

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As duas músicas de Natal mais ouvidas da atualidade

Depois da II Guerra Mundial estabeleceu-se a tradição de os músicos mais populares do momento gravarem álbuns de Natal, o que consolidava o seu estatuto de artistas do povo, ao mesmo tempo que reforçava algumas canções como standards de Natal. Os grandes crooners deixaram inúmeras coletâneas de Natal (muitos deles com especial televisivo também) que se tornaram incontornáveis - são os casos dos discos de Natal de Frank Sinatra, Bing Cosby, Dean Martin ou Nat King Cole. As abordagens dos grandes do jazz acrescentaram outras camadas a músicas que ficaram no cânone, pelas vozes de gente como Ella Fitzgerald ou Tony Bennet. E nem as estrelas do rock and roll ou do rhythm'n blues fugiram desta tendência - aí estão as gravações de Natal de Elvis Presley, Chuck Berry, Brenda Lee ou Jackson 5, Stevie Wonder e quase todos os grandes nomes da Motown. 

A tradição de gravar novas canções de Natal ou regravar os clássicos mantém-se e os músicos que o têm feito vão de Sufjan Stevens a Taylor Swift, passando por Lizzo, Ariana Grande, Michael Bublé ou Kelly Clarkson. Dos que arriscam temas novos, só o tempo dirá quais tiveram sucesso e acrescentaram mais um tema às playlists que se repetem todos os anos. 

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Mas esse não é um clube de entrada fácil. Nas últimas décadas poucos o conseguiram de forma consistente. Os mais bem-sucedidos foram os Wham!, com “Last Christmas”, e Mariah Carrey, com “All I Want for Christmas is You”. Ambas as canções tornaram-se ubíquas assim que se aproxima o natal. As estatísticas mundiais do Spotify confirmam a canção de Mariah Carrey e a dos Wham!, por esta ordem, como as duas músicas de Natal mais ouvidas nos últimos anos - dados que apenas confirmam aquilo que todos sabem: ambas ouvem-se em todo o lado, a qualquer hora, seja na gravação original ou nas inúmeras versões que já foram feitas. 

O clássico moderno que nunca tinha chegado a nº1

Em 1984, quando os Wham! estavam no auge da sua fama, George Michael, o cantor e frontman do duo, avisou que, até ao final desse ano, teria quatro singles no primeiro lugar do top inglês. Enganou-se por pouco. Três singles do álbum “Make it Big” chegaram ao topo da tabela de vendas: “Wake me Up Before You Go-go!, “Freedom” e “Careless Whisper”, que apesar de estar creditado como trabalho a solo de George Michael integrou o segundo LP da banda. 

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O quarto single desse ano não foi além do segundo lugar no top dos mais vendidos no Reino Unido. Por ironia, seria aquele que, ao longo dos anos, resistiria mais anos nas listas de preferências: “Last Christmas”, o tema de Natal que em pouco tempo ganhou o estatuto de hino da quadra festiva.

Não é que “Last Christmas” não tenha sido um sucesso instantâneo. Foi um êxito desde o dia do seu lançamento, a 3 de dezembro de 1984. Mas no primeiro lugar da tabela estava ocupado por outra canção de Natal, que nesse ano foi um sucesso ainda maior, apesar de não ter perdurado tão bem no tempo: “Do They Know it’s Christmas”, a canção de Bob Geldof e Midge Ure que chamou a atenção do Ocidente para a fome na Etiópia e que daria origem a muitas iniciativas semelhantes - e ao megaconcerto intercontinental Live Aid. Esse tema juntava quase todos os grandes artistas pop do momento no Reino Unido, de Paul Young a Bono Vox e Sting, incluindo George Michael.

O então vocalista dos Wham! foi desde o início um entusiasta do projeto da Band Aid, apesar de saber que estava a fazer concorrência a si próprio. O envolvimento foi tal que o duo abdicou dos lucros das vendas do single de “Last Christmas” para ajudar no combate à fome na Etiópia.

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Esta é provavelmente a maior curiosidade de “Last Christmas”: apesar da sua popularidade planetária, que começou no Reino Unido, não foi nº1 no top britânico até… 2021. Sim, foi só em janeiro deste ano que o clássico de 1984 liderou pela primeira vez o top britânico. Até então detinha o excêntrico título de música mais vendida no Reino Unido que nunca chegara a nº1. Após a morte de George Michael, em 2016, os fãs fizeram uma grande campanha para que a música chegasse ao lugar cimeiro do top britânico - e todos os anos entrou na tabela, chegando várias vezes ao top 10, e tendo chegado até ao segundo lugar… até que finalmente foi nº1 em janeiro passado.

Com as novas plataformas de música online, todos os natais “Last Christmas” volta à ribalta, tendo sido adotado pelas novas gerações - e o filme com o mesmo nome, lançado em 2019, ajudou a relançar a popularidade da canção.

“Last Christmas”, protagonizado por Emilia Clarke, a Daenerys Targaryen da Guerra dos Tronos, é inspirado na canção dos Wham!, e parte de um projeto em que o próprio George Michael esteve envolvido. Foi um dos seus últimos projetos antes da sua inesperada morte no dia de Natal de 2016. Michael fez questão de que o argumento fosse desenvolvido pela atriz Emma Thompson e no filme ouve-se, claro, a canção que lhe dá título, e várias outras de George Michael, incluindo um tema até então inédito.

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Também nos Estados Unidos “Last Christmas” teve um percurso estranho. Não foi lançado comercialmente como single em 1984 e por essa razão não apareceu no top Billboard durante muitos anos - isso apenas aconteceu em 2018, já depois da morte de Michael. O melhor lugar alcançado pela canção no top norte-americano aconteceu também em janeiro de 2021.

Uma hora para a eternidade

Diz a lenda - ou melhor, diz Andrew Ridgeley (ou “outro” Wham!) - que George Michael escreveu a estrutura de “Last Christmas” numa hora, num domingo de 1984 em que ambos tinham ido visitar os pais do vocalista. Tinham almoçado, Michael levantou-se da mesa, foi para o seu quarto de criança e voltou uma hora depois com o esqueleto de “Last Christmas”, incluindo quase toda a letra. Ambos acharam que tinham ali um sucesso instantâneo.

Foram para estúdio em agosto desse ano - ou melhor, Michael foi para estúdio, pois Ridgeley praticamente não participou no processo criativo da canção. O vocalista, além de compositor, fez questão de gravar quase todos os instrumentos, incluindo os guizos de Natal e o sintetizador Roland-Juno60 que dá a “Last Christmas” o inconfundível charme de synth-pop. O vídeo, que se tornou tão famoso como a canção, foi gravado nos Alpes Suíços em novembro com um grupo de amigos, onde se incluíam as duas cantoras dos coros dos Wham!, Pepsi e Shirley, que mais tarde teriam uma breve carreira como duo.

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Cerca de um ano depois do lançamento da canção, George Michael foi processado por alegado plágio na sua canção de Natal. A editora Dick James Music, em representação dos autores de “Can't Smile Without You”, avançou com o processo, considerando que Michael havia copiado partes da canção que foi gravada por Barry Manilow e pelos Carpenters. O processo acabou por ser resolvido fora de tribunal, depois de um musicólogo ter apresentado mais de 60 canções com progressões harmónicas e melódicas semelhantes… Ninguém disse que “Last Christmas” ficou para a história pela sua originalidade musical.

Tudo o que ela queria era um sucesso de Natal

Por falar nisso, não era suposto haver nada de original no álbum de Natal de Mariah Carey. A cantora levava quatro anos de carreira, desde a estreia em 1990, e em 1994, após três álbuns, a editora apostou num disco de Natal. À época era pouco comum alguém com um percurso tão curto aventurar-se num disco de Natal… mas o facto é que a história desse álbum, com o pragmático título “Merry Christmas”, teve pouco de comum. 

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Devia ter sido uma coleção de standards americanos - e estão lá vários - mas o single de apresentação não era um cover de um clássico bem conhecido mas um tema novo, coescrito pela cantora. Foi um risco assumido pela editora, após insistência de Mariah - a coincidência de a cantora ser, à época, casada com Tommy Mottola, o patrão da Sony Music, que a editava, pode ter ajudado, mas o facto é que a música é “orelhuda” desde que se ouvem os primeiros sininhos de Natal.

Consta que Mariah é tão apaixonada pelo Natal que há amigos que lhe chamam “Mariah Claus”, num trocadilho com Santa Claus. Cantava canções de Natal desde sempre e queria escrever uma que transmitisse todo o seu fascínio pela magia da quadra festiva. Começou a esboçar a letra, na casa nos Hamptons, com o filme “Do céu caiu uma estrela” como fundo sonoro. Apesar de ser quase verão, Mariah decorou a casa como se fosse Natal, para inspiração. Depois continuou a composição com Walter Afanasieff, que então era seu colaborador habitual e fez os arranjos e quase toda a programação e instrumentos sintetizados que se ouvem na gravação.

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O resultado tem o espírito de natais passados, mas não a melancolia da fita de Frank Capra - apenas a nostalgia de tempos de alegria ingénua. A inspiração na sonoridade da Motown dos anos 50 e 60 é notória e a cantora vinca essa ligação num dos três videoclips - três!!! - que já gravou para este sucesso, vestida à época, como se fosse uma das Ronettes.

Segundo a mitologia de “All I want for Christmas”, a canção foi gravada no verão mas o estúdio tinha a temperatura propositadamente baixa e estava completamente decorado como se fosse Natal - incluindo grinaldas de luz e pinheiros decorados.

Mariah Carey transformou o Natal num dos negócios mais lucrativos da história da música pop. “All I Want for Christmas” já é muito mais do que uma canção, é uma fábrica de entretenimento. Durante anos, Carey foi uma das cantoras mais requisitadas para espectáculos ao vivo e especiais de televisão no Natal e Ano Novo. Lançou um livro de Natal e um filme de animação inspirado em “All I Want for Christmas is you” (a protagonista é uma menina igualzinha a Mariah). 

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No ano passado, Carey protagonizou um especial de natal para a Apple TV, o que motivou o lançamento da respetiva banda sonora, com os clássicos de sempre e temas novos, com a participação de um punhado de vedetas convidadas, incluindo Ariana Grande e Snoop Dogg. Antes já tinha realizado um filme para a Hallmark, “A Christmas Melody”, também à volta da sua canção mais famosa. Tal como o vIdeoclip da canção já vai na terceira versão, também há três gravações “oficiais” do single, a última delas de 2011, em dueto com Justin Bieber.

Só em direitos, enquanto coautora, coprodutora e intérprete, Mariah Carey já terá amealhado mais de 60 milhões de dólares.

27 anos sempre a crescer

Apesar da boa recepção da canção quando foi lançada, nada fazia prever que se tornaria um sucesso sazonal desta dimensão. Em 1994, a música ficou em 12º lugar das canções mais tocadas na rádio nos EUA, mas as vendas de unidades físicas demoraram mais a arrancar. “All I Want for Christmas” só chegou ao Top 40 da Billboard nos anos 2000, à boleia do filme “O Amor Acontece”, que deu à canção uma inesperada segunda vida, já em tempo da música em streaming. 

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Sem a era digital, talvez “All I Want for Christmas” nunca tivesse chegado tão longe como chegou, figurando hoje em qualquer playlist natalícia que se preze, seja feita por algoritmos ou por humanos. Na década de 2010, com a reformulação das regras do top Billboard, “All I Want for Christmas is you” passou a ser uma presença habitual entre as mais ouvidas todos os natais - e alcançou pela primeira vez o 1º lugar do Billboard Hot 100 em 2019, com 45,6 milhões de audições em streaming e 27 mil vendas digitais. 

Foi o single que levou mais tempo a chegar ao topo da tabela Billboard, tendo em conta que fora lançado 25 anos antes. Mas foi apenas a segunda canção de natal em 60 anos a atingir o nº1 (a outra foi “The Chipmunk Song”, em 1958). Ao liderar a tabela com “All I Want for Christmas is you” no final de 2019 e no início de 2020, transitando de década, Mariah Carey conseguiu outra façanha: foi a primeira artista a conseguir ter canções no primeiro lugar da Billboard em quatro décadas seguidas: 90, 2000, 10 e 20.

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Outro recorde: desde 2011, a Billboard tem o top Holiday 100, só para as músicas mais ouvidas no Natal, e numa década “All I Want for Christmas” é, de longe, a canção com mais semanas em primeiro lugar. Em 52 semanas de existência do Holiday 100, a canção da Mariah Carey esteve na liderança durante 47 semanas.

Portugal não escapou ao charme de Natal de Mariah Carey e logo em 1994 o single esteve duas semanas em primeiro lugar no top de vendas - chegou a disco de platina. Em todo o caso, uma gota de água num império global construído sobre downloads e streaming: 309 milhões de visualizações e audições só no ano passado. Mais do dobro dos 145 milhões de “Last Christmas”. 

“Eu de facto vivo de Natal para Natal”, dizia Carey de si própria, num longo artigo publicado pelo "Wall Street Journal". E a provar que o Natal é quando o homem quiser, no Japão a loucura com “All I Want for Christmas is you” é tal que a cantora já teve de a cantar ao vivo em pleno verão. Dizem as crónicas que foi o melhor momento do espetáculo e a canção em que todos no público conheciam a letra.

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