Luís Sequeira à CNN Portugal: “Vestir a Cate Blanchett foi espetacular”

1 fev, 19:56

O luso-canadiano que foi nomeado para o Óscar de Melhor Guarda-Roupa em 2018 tem um novo filme nos cinemas. “Beco das Almas Perdidas” marca o reencontro com o realizador Guillermo Del Toro, cinco anos depois de “A Forma da Água”, e já lhe valeu uma nomeação da Associação dos Figurinistas dos Estados Unidos para o Prémio Excelência em Filme de Época

Foi um trabalho que se prolongou por por ano e meio, também por causa da pandemia, mas valeu a pena, diz Luís Sequeira. Até porque criou a oportunidade de vestir várias estrelas de Hollywood ao mesmo tempo: lembra-se de pensar que eram muitos “números 1” quando recebeu a lista dos nomes que teria de vestir para a nova adaptação ao cinema de “Nightmare Alley” (ou “Beco das Almas Perdidas” na tradução portuguesa). No topo dessa lista, estava Bradley Cooper no papel de um vigarista sem limites na Nova Iorque dos anos 40, mas no que ao guarda-roupa diz respeito é Cate Blanchett que mais se destaca também à conta da elegância natural. Estrelas inacessíveis? Nada disso, porque são “pessoas simpáticas e bonitas”. E essa é uma das melhores memórias que guarda do reencontro com o mexicano Guillermo Del Toro que, entretanto, o desafiou a trabalhar noutro projeto com estreia marcada para a primavera na Netflix. Tudo começou e muito bem com “A Forma da Água”. Não será, portanto, um acaso que se veja um poster desse filme atrás de Luís Sequeira na entrevista por zoom que deu à CNN Portugal.

Pela segunda vez consecutiva, o cinema de Guillermo del Toro conta com “guarda-roupa por Luís Sequeira”. Como olha para essa parceria criativa que já o colocou na lista dos Óscares com “A Forma da Água”?
Tenho a sorte de poder trabalhar com ele e de termos tido agendas compatíveis. O Guillermo é um homem fantástico, um realizador enorme. Por isso, tenho sorte de ser a pessoa encarregada dos figurinos.

Sei que quando surgiu o convite para trabalhar com ele neste “Beco das Almas Perdidas”, já tinha visto a primeira adaptação de 1947, mas isso de nada valeu porque não estava em causa um remake desse filme, mas uma nova abordagem.

Exato. Ele disse-me: “Já viste, mas esquece. Vamos fazer a nossa versão do filme”. O que importava era criar um mundo real, sujo e com roupa velha e estragada, no início. Não quisemos criar logo a sensação de Hollywood. Para a segunda parte, quisemos fazer roupa com o máximo de elegância e estilo. A minha equipa ajudou a construir esses dois mundos e foi fantástico ter essa oportunidade.

Quantas pessoas é que tinha essa equipa que o ajudou a produzir o guarda-roupa para este filme?
Ao longo da produção do filme, foram cerca de 50 pessoas, entre aquelas que fizeram a roupa e as que tingiram a roupa. Trabalhámos durante um ano e meio, mas fizemos uma pausa como o resto do mundo por causa da pandemia.

Este é o filme do Guillermo Del Toro com mais estrelas de Hollywood por metro quadrado. Como foi para si vestir tantos A-lists no mesmo projeto?
Pois, lembro-me de pensar, quando começaram a chegar os nomes do filme: “Meu deus, aqui está mais um número 1!” Eram tantos números 1. Na realidade, foram todos muito simpáticos e muito reais. Respeitaram o processo e o trabalho. No fundo, são pessoas como nós, da cidade ou da aldeia. Muitas vezes, colocamos essas estrelas num pedestal e são estrelas, de facto. Mas, no fim de contas, são pessoas muito simpáticas e bonitas.

Pensando em todos os figurinos que criou para “O Beco das Almas Perdidas”, qual é o seu preferido? Quem é que se destacou mais com o seu guarda-roupa?
Em relação ao glamour, toda a gente pergunta pela Cate Blanchett e, sim, vesti-la foi espetacular. O trabalho com as outras atrizes também foi fantástico. A Toni Collette interpreta uma estrela dos tempos antigos e a roupa dela tinha de refletir esse estilo, mas já sem o brilho original; gostei muito de a desenhar. Criar a roupa dos homens dos anos 20 e 30 também foi estupendo, os casacos, as gravatas, os sobretudos... Fizemos tanta roupa que foi um grande exercício criativo.

O destaque da Cate Blanchett também tem a ver com a sua elegância natural?
Penso que tem a ver com o papel que ela interpreta, uma mulher de dinheiro, vinda de uma família antiga, com um estilo impecável, o que criou a oportunidade de fazer roupa belíssima. Por outro lado, a Cate conhece muito bem o corpo que tem e sabe usar muito bem a roupa que veste. Durante as provas, só fizemos pequenas alterações para ficar tudo perfeito.

No desenho do guarda-roupa, o que conta mais para si? O personagem ou o contexto em que o personagem se movimenta?
Desenhar roupa é tomar decisões que vão desde a escolha dos tecidos até o local da cena. Muitas vezes, quando começo a trabalhar, ainda não sei onde vamos filmar. Por isso, é um processo muito fluido. Há que tomar decisões em cada fase para garantir que a roupa é apresentada da melhor maneira possível.

Faz sentido dizer que, nos grandes planos, o guarda-roupa é o próprio cenário?
Foi isso mesmo que o Guillermo Del Toro me disse há uns anos! Podemos ter um cenário muito bonito, mas, nos grandes planos, o mais importante é a roupa.

Olhando para estes últimos anos, até que ponto é que a nomeação para o Óscar de Melhor Guarda-Roupa e também para o BAFTA com “A Forma da Água” mudou a sua vida profissional?
Na verdade, ter sido nomeado foi uma surpresa. Não estava à espera que pudesse acontecer… Muita gente dizia: “Claro que sim”, mas temos de ter os pés no chão. Trabalho com as mesmas pessoas há anos e, por isso, a minha vida não mudou muito. Tenho amor pelo meu trabalho, tenho amor por cada projeto, seja ele qual for. Como já disse muitas vezes, não trabalho pelos prémios, mas pelo amor à narrativa. Em relação a este filme, vamos ver o que acontece. Estou orgulhoso do trabalho.

Tem mais um projeto com o Guillermo Del Toro, agora na televisão. O que pode adiantar sobre o “Cabinet of Curiosities”?
É uma série de pequenos filmes, uma antologia, para a Netflix. Cruzamos vários períodos, dos anos 20 aos 50… Cada história tem uma peça especial no centro. Penso que vai ser bonito. Estamos a terminar as filmagens. Está quase na lata, como eles dizem. Penso que vai sair em maio ou junho.

Como está a sua relação com Portugal hoje em dia? Vem cá muitas vezes?
Tenho muitas saudades de Portugal, porque há três anos que não vou aí. Estou a planear ir em abril para passar algum tempo ao sol. Tenho uma casa numa aldeia perto de Aveiro. Gosto imenso de lá estar e visitar os meus amigos, comer bem… e viver! O nosso trabalho é muito intenso e, por isso, é preciso ter tempo para recarregar a minha bateria.

Continua a viajar bastante ou, por causa da pandemia, trabalha mais à distância?
Antes da pandemia, viajava bastante. Estive a trabalhar na Austrália e viajava muito para preparar os projetos. Claro que isso mudou. Agora, é tudo por zoom e com fotografias trocadas por e-mail. Para mim, não é a mesma coisa. Gosto de sentir o tecido, gosto de ver os padrões… Espero que as coisas mudem para poder viajar novamente.

“Beco das Almas Perdidas” já está em exibição nos cinemas portugueses. Pode ver aqui o trailer.

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