Um «alien» em Rugao na cidade da longevidade

16 dez 2021, 09:10
David Patrício
David Patrício

David Patrício acompanhou os primeiros passos de Matheus Nunes no Estoril antes de rumar à China para trabalhar no Nantong Zhiyun, bem perto de Wuhan onde surgiu a pandemia que mudou o mundo. Vive numa cidade que é conhecida pela longevidade dos seus habitantes e onde a presença de europeus ainda é vista com muita curiosidade. Venha daí conhecer mais um treinador português que está a deixar marca na China

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Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do Mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências. Sugestões e/ou opiniões para djmarques@tvi.pt ou rgouveia@tvi.pt

Trabalhou com Matheus Nunes no Estoril-Praia e tem acompanhado à distância a evolução do jovem jogador do Sporting que, em apenas dois anos, passou da equipa de sub-23 dos canarinhos para a equipa principal dos leões e da Seleção Nacional. Falamos de David Patrício, um jovem treinador português que partiu há três anos para os confins da China para trabalhar no Nantong Zhiyun naquela que é a sua primeira experiência no estrangeiro. Encontrámos o nosso interlocutor em Wuhan, a cidade que foi o epicentro da pandemia que continua a abanar o Mundo e que agora vive uma «política de covid zero». Venha daí conhecer mais um treinador português que está a deixar a sua marca do além-fronteiras e que vive em Rugao, a cidade com maior longevidade da China, onde é visto como um…«alien».

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David Patrício é um jovem treinador, de 37 anos, que acabou de concluir o curso UEFA Pro, mas que já tem uma carreira com quase vinte anos. Deu os primeiros passos cedo, logo aos 18, na formação do Futebol Benfica, depois trabalhou sucessivamente no Palmense, Linda-a-Velha, Sintrense, Fonte Grada, Odivelas, Sp. Lourel, Alcainça, At. Malveira, Mafra até chegar ao Estoril-Praia. Em 2019 rumou à China e a sua vida deu uma volta de 180 graus.

Está há três anos na China, com uma pandemia pelo meio, como está a decorrer esta experiência?

- Na realidade, não são bem três anos, porque no ano da pandemia, viajei para Portugal e só recentemente é que voltei. Mantive a ligação ao clube porque tinha um compromisso quando vim de férias de Natal em 2019 e, depois, quando foi a altura de voltar não me foi permitido o regresso. Foi na altura em que Portugal teve os primeiros casos, mas a minha ligação ao clube já vai fazer três anos, embora com um interregno pelo meio.

Olhando para o mapa, Nantong não fica muito longe de Wuhang, onde começou a pandemia…

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- Curiosamente, neste momento estou precisamente em Wuhang (risos). Estou aqui porque a quarta fase do campeonato da League One está-se a realizar aqui em Wuhang. De comboio de alta velocidade até aqui demorámos cinco horas, portanto, é relativamente perto dada a dimensão gigantesca que a China tem.

Estando aí tão perto, como é que viveu as primeiras notícias sobre o vírus?

- Por mero acaso estava em Portugal. Vim de férias de Natal a 16 de dezembro e o vírus começou-se a falar em janeiro. Não passei por isso. O vírus foi todo passado em Portugal. Agora aqui na China, mesmo em Wuhang, não se passa nada. Eles têm uma política de covid zero, sempre que há seis ou sete casos, fecham tudo. Enquanto em Portugal estamos numa situação em que os casos vão aparecendo e vamos controlando, aqui eles têm uma politica zero.

E afinal o que é isso de política covid zero?

- O Governo chinês quer mesmo erradicar o vírus, apesar de ser uma tarefa hercúlea, querem erradicar. Nós aqui estamos num regime de bolha, ninguém entra e ninguém sai, continuamos a fazer os testes, mas não há risco absolutamente nenhum.  Mesmo na cidade onde estou a viver já não há necessidade de usar máscara, aconselham apenas nos centros comerciais, mas mais por uma questão de prevenção porque não há casos. Depois fazem uma gestão diferente do vírus, têm aplicações moveis que nos monitorizam. Por exemplo, se eu for a Xangai e passar numa localização onde tenha sido detetado um caso fico com um código vermelho e já não tenho acesso a determinados sítios. Têm um controlo muito apertado relativamente ao covid. Eu para vir para cá, por exemplo, tive de fazer catorze dias de quarentena num hotel, depois fui transportado para a minha base de treinos onde fiquei mais sete dias fechado dentro do quarto e depois fiquei mais sete dias dentro das instalações do Estádio Olímpico. Podia ir à rua, fazer exercício, mas não podia estar na comunidade, não podia ir a centros comerciais, não podia estar na cidade. No total, estamos a falar de uma quarentena de quatro semanas. Aqui já não se vive uma crise pandémica, a crise nota-se pelas limitações sempre que há alguns casos e em que encerra tudo.

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É a primeira vez que está no estrangeiro, que balanço é faz desta experiência?

- É uma agradável surpresa porque, a nível de infraestruturas, no clube onde estou, na segunda liga chinesa, está muito perto, não dos grandes, mas de clubes como o Sp. Braga ou o V. Guimarães. A nível de infraestruturas desportivas estão muito bem servidos. Em relação ao futebol ainda há um longo caminho a percorrer, mas também foi uma agradável surpresa. Quem não conhece a realidade pode ter a ideia que o futebol não é muito avançado, mas a realidade é que existe qualidade, o jogador chinês tem qualidade, especialmente a nível individual. O grande problema com que nos deparamos aqui tem a ver com a tomada de decisão. A formação deles é muito individualizada, muito focada na técnica. Tudo o que diz respeito a atividades individuais, eles são muito bons, mas como o futebol é um desporto coletivo, aí eles revelam muitas dificuldades. É uma cultura que já vem de trás, é difícil de alterar e, em alguns casos, os que já estão numa idade mais avançada da carreira, acredito que seja mesmo quase impossível de os moldar, mas é uma experiência muito interessante.

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Futebol à parte, a China só por si é também um choque cultural, não?

- Claramente. É um desafio. É uma realidade claramente diferente da nossa, a personalidade dos jogadores, a vida social, a alimentação. É tudo diferente, mas não quer dizer que eles estejam atrasados, porque não estão. A nível tecnológico estão servidos de algumas funcionalidades que nós não temos. Aqui na China, por exemplo, nunca recorri à carteira. Desde que cheguei aqui, a carteira ficou guardada na mala e é tudo feito com o telemóvel. Até aquela pessoa que vende fruta na rua, vende através de uma aplicação no telemóvel. É uma aplicação que eles têm aqui, uma espécie de Whatsapp, mas que tem tudo, conta bancária, videochamadas, compras online, está tudo concentrado numa aplicação. Têm outras, mas esta é a mais utilizada.

O David já foi adjunto, já foi coordenador técnico, quais são as suas atuais funções no clube?

- A minha vinda para cá foi como adjunto da equipa principal, mas depois o presidente pediu-me para também auxiliar o futebol de formação e na minha primeira passagem, em 2019, estive também como coordenador técnico a orientar os treinadores da formação e a tentar organizar o futebol. Agora, nesta segunda passagem, vim também como adjunto do treinador principal, mas o presidente quis alargar as minhas funções e também estou como diretor técnico, ou seja, sempre que estamos na nossa base, também sou responsável pela formação dos treinadores, dar auxílio ao futebol de formação e recrutamento também. Mas o foco está na equipa principal.

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Já trabalhou com dois treinadores chineses, Cao Rui e Xie Hui, como e que é a sua relação com eles?

- O meu ingresso no Nantong deveu-se ao facto do treinador ser alguém em quem o presidente confiava, o clube tinha acabado de subir da terceira à segunda liga e precisou de um apoio estrangeiro. Quando vim, vim para ajudar na operacionalização do treino, com a implementação de uma ideia de jogo e tudo o que era parte estratégica e organizativa da equipa passou tudo por mim. Agora são funções semelhantes, apesar de ter outro treinador, a minha função é basicamente a metodologia de treino, plano estratégico, plano de jogo, passa tudo por mim. Trabalhamos em conjunto, como é óbvio, mas tenho grande responsabilidade no processo de treino.

Concluiu recentemente o curso de UEFA Pro, isso abre-lhe novos horizontes, novas perspetivas aí na China?

- Sim, concluiu o UEFA Pro em junho e tive duas propostas de clubes da II Liga para regressar a Portugal. Também tive uma proposta de uma liga europeia de menor expressão, mas, contudo, já tinha este compromisso com o Nantong e, como sou alguém de palavra e leal, tive de declinar as propostas que tive porque tinha o compromisso e as passagens aéreas para voltar à China. Mas, sim, o UEFA Pro abriu-me outras portas como já esperava.

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O Nantong Zhiyun, mesmo sendo um clube recente, fundado em 2016, joga num estádio olímpico, no Rugao Olympic Sports Center Stadium…

- É um estádio com capacidade para quinze mil pessoas, mas eles aqui têm muitos estádios olímpicos. Cada cidade, por norma, tem um estádio olímpico, mas eles chamam estádio olímpico aos estádios que tem a possibilidade de ter multifunções, quando há provas de atletismo. Mas temos umas das mais reconhecidas claques chinesas. Quando não havia esta questão da pandemia, o estádio estava sempre bem composto.

Nantong é uma cidade com mais de 3 milhões de habitantes, como é a relação dos adeptos com o clube?

- Para um clube com cinco anos, podemos dizer que tem bastantes adeptos e aficionados. Foi uma das coisas que me cativou foi sentir que podia haver um pouco essa paixão como nós temos na Europa e especificamente em Portugal.

O Nantong é o atual quinto classificado da League One, há alguma expetativa de chegar à Superliga a curto prazo?

- No primeiro ano em que cá estive os objetivos passavam pela manutenção. No momento em que cheguei o clube estava numa situação delicada na tabela, mas felizmente conseguimos a manutenção. Em 2020 foi o ano da pandemia, um ano complicado, mas o clube conseguiu estabilizar-se. Este ano havia a ilusão de subirmos à Superliga, mas a três jornadas do final não dependemos só de nós. No entanto, o futebol chinês está a passar uma fase de mudança, com crises financeiras em alguns clubes. Existe a expetativa que alguns clubes da Superliga acabem por desistir e abram espaço para subirmos.

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Como aconteceu com o atual campeão chinês, o Jiangsu Suning, que foi dissolvido e já não está na atual edição?

Exatamente, este ano existe a probabilidade de isso acontecer com outras equipas. Se conseguirmos manter a nossa posição, que é o quinto lugar neste momento, pode haver alguma expetativa de, por essa via, chegarmos à Superliga.

É um clube que aposta na formação, mas tem alguns estrangeiros, como o Zé Turbo, formado no Sporting.

- Sim, formado no Sporting, internacional nas seleções jovens de Portugal, jogou no Inter Milão, jogou em Espanha, na Argentina e, mais recentemente, no Grasshopper, na Suíça. Agora está aqui. É um jogador que traz um bocadinho daquilo que falta ao jogador chinês, a criatividade, a qualidade técnica também se destaca dos demais. Os chineses têm qualidade técnica, mas vem do trabalho, é uma técnica que é apurada pela repetição. Estamos a falar daquele talento individual que nasce com o jogador e que dá alguma espetacularidade. Ele tem isso, o [Mychell] Chagas também, que é o brasileiro do plantel. E temos agora um jogador que chegou da Costa do Marfim que é o Abdou [Traoré] que também veio acrescentar bastante qualidade à equipa.

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Só podem jogar três estrangeiros?

- Aqui na segunda liga sim, na Superliga podem ter três, mas só podem jogar dois. Há esta limitação, sendo que os estrangeiros nunca podem ser guarda-redes. O guarda-redes tem de ser chinês.

Fica a ideia que a Superliga já investiu mais nos jogadores estrangeiros, já não há tantas estrelas na principal liga chinesa…

- Há três ou quatro anos houve aquele boom da vinda de jogadores estrangeiros, como Hulk, Oscar, Ramires, alguns ainda cá estão porque tinham contratos mais longos, outros já saíram. Houve investimentos muito grandes, mas há dois anos o governo colocou algumas restrições financeiras para controlar o investimento desmedido e a Superliga talvez tenha deixado de ser tão atrativa para esses jogadores de renome internacional. Na realidade, o futebol chinês está a atravessar um momento de transição. Há muitos clubes com dificuldades que possivelmente vão ter de fechar portas e há outros que estão a solidificar-se, como é o caso do clube onde me encontro. Há uma aposta sustentada nos jogadores jovens, há uma procura de tentar trazer jogadores que tenham ainda ambições. Há clubes da segunda liga que apostam em jogadores que já jogaram em ligas superiores, como a Superliga, mas aqui no Nantong apostamos em jogadores que ainda têm ambição, que têm orçamentos mais baixos. É um clube com um orçamento mais contido, mas que está a ser bem-sucedido pelas apostas que estão a fazer.

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Como é que a Nantong? É uma cidade gigante para os parâmetros portugueses…

- Sim, estamos a falar de uma cidade que está incluída numa região com 7 milhões de pessoas. A área é mais pequena do que Portugal, mas tem uma grande densidade populacional. Nantong até é uma cidade pequena na China, não é considerada uma cidade grande. Fica relativamente perto de Xangai, agora temos um comboio de alta velocidade e em duas horas e meia estamos em Xangai que já é uma cidade enorme. Mas a nossa base fica em Rugao, é uma cidade mais pequena, mas que pertence e Nantong.

O David adaptou-se bem à cidade e ao modo de vida dos chineses?

- No primeiro ano em que vim tive a possibilidade de trazer a família e a adaptação tornou-se mais fácil. Não houve aquela questão da distância, estivemos sempre juntos, é uma cidade em que nos podemos deslocar facilmente. Aqui os meios de transporte são superacessíveis e intuitivos. Foi uma vida agradável em que facilmente nos adaptámos. Agora com a questão da pandemia, que obriga a períodos longos de quarentena, optei por não trazer a família para já, até que tudo esteja mais estabilizado.

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No dia a dia na China, aconteceu-lhe alguma história peculiar ditada pelas diferenças culturais?

- No início a grande surpresa foi que na rua as pessoas pediam-me muito para tirar fotos. Estando num clube de futebol profissional, as pessoas pedem sempre fotografias por estarmos naquele contexto, mas isso foi a minha ideia inicial. Depois percebi que não é normal, aqui em Nantong, as pessoas verem estrangeiros. Algumas delas, as mais idosas principalmente, nunca viram ocidentais. Pelo menos na cidade onde estou a viver, em Rugao, que é a cidade da longevidade, isto é, é a cidade que tem o maior número de pessoas com mais de cem anos, muitas pessoas nunca viram um estrangeiro, portanto olham para nós quase como se fossemos aliens. Na minha primeira passagem, quando estava cá com a minha família, por vezes, tiravam-nos fotografias, filmavam-nos na rua. Vou dar um exemplo. Aqui andamos muito de táxi, que eles chamam Didi, e as pessoas gostam de tentar conversar connosco, apesar da barreira linguística. E eu, sem me aperceber, estavam-me a filmar. Passado dois ou três dias, estava noutro táxi e o motorista começou a mostrar-me um vídeo comigo dentro de um táxi. Foi um amigo dele, que também era motorista de táxi, que tinha partilhado o vídeo com outros motoristas. Andava ali um vídeo a rodar com um estrangeiro a andar de táxi. É um exemplo, aqui somos uma espécie de bicho estranho para eles.

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Um pouco confrangedor, não?

Agora já há mas estrangeiros a viver na cidade e já não se nota tanto essa curiosidade. Agora quando vamos a um centro comercial, continuam a olhar para nós, querem conversar connosco, mas já não é aquela novidade. O clube também já se estabilizou na cidade e as pessoas também têm mais acesso aos estrangeiros. Também esteve cá um jogador português, o João Silva, que chegou depois de mim ao clube e que agora está na Superliga chinesa. Também passou por cá um jogador sérvio, outros africanos. Já começam a ficar mais habituados ao contato com estrangeiros, mas ao início esta foi a situação estranha que mais saltou-me à vista.

E a alimentação? Quando surgiram as primeiras notícias sobre o novo coronavírus, podemos ver imagens do mercado de Wuhan com alimentos, no mínimo, estranhos para um europeu…

- Temos aqui coisas que no nosso dia a dia não comemos, mas para eles é normal. Por exemplo, perninhas de rã. Eu não me atrevi a experimentar, mas a minha filha gostou muito. Fundamentalmente o que me fez mais confusão foi o picante. Eles usam muito picante na comida. Coisas que para mim já são muito picantes, para eles é leve. As coisas que eles consideram muito picantes, para mim é impossível de comer.

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E a nível de viagens? Um país tão grande passa muito tempo a andar de avião?

- Agora que estamos em regime de bolha, não temos tantas viagens, mas em 2019, ainda antes da pandemia, todas as semanas era como se jogássemos nas competições europeias. De quinze em quinze dias, sempre que jogava fora, fazia viagens de três quatro horas. É um continente enormíssimo, cheguei a ir jogar com uma equipa que era do outro extremo da China e fizemos uma viagem de sete horas de avião para ir jogar. Na Europa, só os clubes que estão nas competições europeias é que fazem viagens tão longas, mas aqui é normal. Faz parte do campeonato e desta realidade.

Antes de partir para a China integrou a equipa técnica do Estoril-Praia, ainda na II liga. Está surpreendido com o percurso do clube, atual quinto classificado da Liga?

- Não estou surpreendido porque o Estoril é um clube com uma excelente infraestrutura desportiva. Nós, quando chegámos ao Estoril, chegamos pela mão do diretor desportivo Pedro Alves que também estava a começar nessas funções, mas, pela qualidade que ele tinha no trabalho que desenvolvia, a subida era algo que ia acontecer mais tarde ou mais cedo. Não me surpreende a velocidade com que aconteceu esta consolidação. No primeiro ano não conseguimos subir imediatamente, apesar de ainda hoje se falar na qualidade do futebol que a nossa equipa tinha na altura. No ano seguinte a equipa subiu e agora está consolidada, portanto, tenho a certeza que é fruto de um trabalho de uma estrutura super-profissional. É um clube especial pelo qual mantenho bastante carinho.

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Era um plantel muito jovem e foi nessa altura em que começou a aparecer um tal de Matheus Nunes na equipa de sub-23. Já imaginava a progressão do Matheus nestes últimos dois anos?

- Ele chegou na mesma altura do que nós.  A nossa equipa técnica tinha vindo toda do Mafra e na altura já conhecia o Matheus Nunes dos Distritais. Ele foi contratado para a equipa de sub-23, mas estava a começar a integrar os trabalhos da equipa principal. Rapidamente mostrou a qualidade dele. Tínhamos outros jogadores no plantel com outro estatuto a disputar a mesma posição. Tínhamos o Gonçalo Santos, que vinha de um contexto de Champions [ao serviço do Dínamo Zagreb], tínhamos o Wallyson, que tinha jogado no Manchester City, o Filipe Soares, um internacional jovem com toda a formação no Benfica. Depois tínhamos ainda o João Patrão, já com muita experiência na II Liga. O Matheus tinha feito a formação toda nos campeonatos distritais, mesmo sendo de idade júnior. Obviamente que já tinha algo de especial, mas também é muito mérito dele, à irreverência dele, à persistência dele, porque não foram fáceis os tempos dele no Estoril. Num plantel com muitos jogadores com estatuto, chegar ali um menino com aquela irreverência toda…teve de trabalhar muito.

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Agora é titular no Sporting, é internacional, joga na Liga dos Campeões e marca nos grandes jogos, como no recente dérbi no Estádio da Luz…

- Estava à espera que ele chegasse a um nível muito elevado, agora se me perguntassem se acreditava, passado dois anos, que estava na Liga dos Campeões a jogar como titular do Sporting e na Seleção A de Portugal, estaria a mentir. Não acreditava que ia estar nesse patamar tão rapidamente. É verdade que do contexto donde ele vinha fez com que tivesse uma resiliência e uma capacidade de sofrimento muito grande, mas por vezes estas ascensões meteóricas trazem alguns problemas. No início da época houve alguns casos de jogadores que tiveram de cair para depois se levantarem, mas a verdade é que o Matheus tem sido muito sólido. A consolidação dele é muito mérito das estruturas que trabalharam com ele, primeiro o Estoril, agora no Sporting, mas é principalmente mérito dele, pela personalidade, pela característica que tem de ser um miúdo muito humilde de ser alguém muito trabalhador. Ninguém lhe pode tirar o mérito que ele possa ter.

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O David está a mais de dez mil quilómetros de Portugal, o curso da UEFA Pro também lhe permite equacionar um possível regresso a Portugal a curto prazo?

- Sinceramente, a China foi uma agradável surpresa, tem uma margem de progressão muito grande. O futebol na China, mais tarde ou mais cedo, vai ter de dar um salto que tarda em dar, mas que acredito que vai dar. A China é um país muito bom para se trabalhar, é seguro, avançado. Nunca trabalhei numa realidade noutro continente, mas comparando com Portugal, a China não fica atrás em nenhum aspeto. Agora a qualidade individual, a qualidade do futebol, o entusiasmo, a paixão pelo futebol do adepto português, não tem nada a ver com o adepto chinês. O futebol aqui ainda é uma espécie de novidade, é um desporto relativamente recente. Claro que gostaria de voltar, não há nada como o nosso país. Gostava de poder voltar a trabalhar no nosso país e poder demonstrar o meu trabalho no meu país, sobre isso não há dúvidas.

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