Os treinos no Gana, o ídolo Mané e a Bundesliga: a história da figura do Chaves-Benfica

19 abr 2023, 08:33
Issah Abass no Desportivo de Chaves (Carlos Rodrigues/Getty Images)

Entrevista a Issah Abass, extremo de 24 anos do Desp. Chaves. O ganês que decidiu o jogo de sábado idolatrava Gattuso em criança e acordava antes das 4h00 para treinar. As portas da Europa abriram-se aos 16 anos, depois de ter ganho um torneio no Gana em que foi melhor jogador e melhor marcador. Foi campeão na Eslovénia, não singrou na Bundesliga e procura estabilidade em Trás-os-Montes após uma época vistosa na Croácia. A história do rapaz cuja mãe não trabalhava e que não conheceu o pai

Issah Abass.

O nome do ganês fez manchetes no fim de semana, depois do golo que deu a vitória ao Desportivo de Chaves frente ao Benfica.

A 26 de setembro de 1998, em Asokwa, cidade no centro-sul do Gana a cerca de 200 quilómetros da capital Acra, nascia o herói dos transmontanos, no jogo que selou a manutenção na I Liga.

Abass tem 24 anos e começou a dar os primeiros pontapés aos sete, na cidade natal, através da escola. A mãe não trabalhava e Abass não conheceu o pai – que faleceu – mas teve apoio e também fez esforços individuais. Como acordar antes das quatro da manhã para apanhar o autocarro e treinar antes das aulas.

Foi, aliás, através de um torneio em representação da sua cidade que foi campeão, melhor jogador e melhor marcador. Depois esteve na pré-convocatória para o Mundial sub-20 de 2015 e acabou por chegar à Europa aos 16 anos.

Aos 19, foi campeão e venceu a Taça na Eslovénia e isso abriu-lhe as portas da Bundesliga. Mas, em quatro anos de ligação ao Mainz, foram quase tantos jogos (quatro) como empréstimos (três), o último dos quais o mais produtivo, no Rijeka da Croácia, depois de Utrecht e Twente nos Países Baixos.

Agora, o internacional jovem ganês, que já jogou nas três competições europeias (na Champions até foi expulso no seu único jogo) está em Portugal à procura de estabilidade e reafirmação em Chaves. Sente-se bem, não esquece as raízes e quem o criou, revela que tem Sadio Mané e Gattuso como ídolos e tem objetivos no futuro.

Venha daí conhecer a história do herói mais direto do Chaves-Benfica. Entrevista Maisfutebol.

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Como foram estes dias depois do jogo com o Benfica? Diferentes?

Penso que não. Eu encaro cada jogo da mesma forma. Jogo com tudo, sempre. Não é aquela coisa de “jogo contra este e preciso de ser sério”. A cada jogo eu dou 100 por cento sempre.

Depois do jogo disse que foi o golo mais especial da carreira. Agora, com calma, olhando para o lance, consegue descrevê-lo?

Foi bom, porque acreditámos em nós para conseguir em conjunto. Não sou só eu. É em equipa. Para mim, foi um bom golo, foi um jogo bom da equipa. Não consigo sem eles, isto foi pela equipa, pelo clube e pela cidade. Foi uma boa atmosfera, foi bom celebrar com os adeptos.

Festejos do golo de Abass no Chaves-Benfica (Pedro Sarmento Costa/Lusa)

O Chaves tem garantida a manutenção na I Liga. O que é que a equipa ainda pode fazer esta época?

Ainda não acabou, faltam seis jogos. Eu cheguei ao clube um pouco tarde, em setembro, mas o nosso objetivo é comum. Quando cheguei, o treinador explicou-me o que o clube precisava, o que queria e trabalhámos em conjunto. Ainda temos de fazer alguns pontos nestes seis jogos, esperamos ganhar os seis jogos. Jogo a jogo.

Lembra que chegou a Chaves já com a época em curso. Como foi a adaptação na equipa, à liga e às ideias?

Eu vim da Alemanha e a vida lá e cá é um bocado diferente. A adaptação depende de ti, de saber como comunicar com os colegas, fazer amigos e aproveitar cada momento. Para mim foi tranquilo. Eu cheguei, comecei a trabalhar com eles, o treinador explicou-me o que queria, como queria que jogasse. Estava focado em dar o melhor pela equipa.

Chega depois de terminar o contrato que tinha com o Mainz (até 2023) e de três empréstimos, o último com uma boa época na Croácia. Como aparece o Chaves?

Não sei muito, sei que o meu agente me trouxe cá, para recomeçar. Vim com o meu agente para assinar o contrato e foi isso.

Mas já conhecia a Liga portuguesa? Chegou a jogar com portugueses, como o Ricardo Alves, na Eslovénia.

E também joguei com o [João] Escoval, um defesa português, no Rijeka. É meu amigo e ainda falamos. Mas sim, ele disse-me que era uma boa liga e vim otimista para mostrar serviço e dar um bom passo.

E deram-lhe conselhos?

(Risos). Agora eu sou mais calmo, porque o meu estilo de jogo é um pouco mais agressivo e quando cheguei cá, desde início, foi um bocadinho difícil. Mas como futebolista tens de aprender a cada dia.

«Um pouco mais agressivo». Quando foi apresentado no Utrecht, até disse que às vezes era um pouco maluco no campo, embora calmo fora. Era por aí?

Foi como disse. Em campo, todos querem ganhar. E às vezes há alguns duelos. Eu observo jogadores como o [Sadio] Mané e penso que sou parecido. Um pouco mais agressivo, mas diferente. A forma como jogo aqui, em relação a como jogava nos Países Baixos, é diferente. Quando eu dizia que era mais maluco, era o ser um bocadinho agressivo no campo, o querer ganhar cada lance. Não num mau sentido…

Falou do Sadio Mané. É um ídolo?

Sim, a 100 por cento. Vejo vídeos dele muitas vezes. Gosto de como joga, de como luta, da personalidade dele. Gosto muito.

Mas chegou a conhecê-lo pessoalmente?

Sim, já o conheci. Uma vez, no Senegal, quando a seleção sub-20 do Gana jogou com eles. É um tipo espetacular. Nós cumprimentámo-lo e ele foi simpático para nós. Nem nos conhecia…

Também já disse que, em criança, que o Gattuso era o seu jogador favorito…

Sim, sim. É verdade. Ele era o jogador preferido do meu padrasto e eu fiquei a admirá-lo. Ele perseguia o adversário durante todo o jogo, era comprometido na forma de jogar. Aprendi com ele, porque comecei a jogar como médio defensivo no clube da minha terra, na escola. Ali, tinha de estar pronto para qualquer posição. Antes de começar, eu jogava como médio defensivo e via-o muito.

Mas jogou como médio defensivo só no Gana? Ou já na Europa?

Só na escola, quando era novo.

Indo aí. Às origens. Como e onde deu os primeiros passos no futebol? Foi em Asokwa, onde nasceu?

Sim. Eu acho que tinha sete anos. O meu padrasto costumava levar-me ao campo. Nós tínhamos lá um clube perto de nossa casa. Em criança, eu ia para lá. Pegava em algumas bolas e ia treinar com os rapazes novos. Foi assim que tudo começou.

Qual era o clube?

Era o Asokwa [Deportivo].

E quanto tempo jogou lá?

Bem, eu não “jogava”, propriamente. Nós éramos novos, íamos e jogávamos quando queríamos. Não era muito sério. Mas quando fui para a escola maior, tornou-se mais sério. Treinava quase todos os dias com eles. No Gana, as famílias não deixam muito ir para o futebol. Preferem que vás para a escola. Então eu juntei-me à equipa da escola e tudo começou aí.

E as condições em Asokwa eram boas o suficiente para pensar em ser futebolista um dia?

Penso que não eram muito boas, mas todos tentávamos: por essa escola, tínhamos todos os anos uma espécie de torneio no Gana. Jogávamos grupos como numa liga e, depois, jogavam os melhores, uns contra os outros. A minha equipa ganhou o troféu do Gana, eu fui o melhor marcador e o melhor jogador do torneio. Depois desse torneio, fui convidado para a seleção nacional sub-20 e fui ao Mundial na Nova Zelândia nesse ano [2015]. De volta, o meu agente viu-me na Nova Zelândia e levou-me para os Países Baixos.

Países Baixos? Não foi para a Eslovénia?

Países Baixos. Eu ainda estive no AZ. Tinha 16 anos nessa altura, mas não tinha contrato. Só treinava com eles. Eles gostavam de mim, mas quando eu fiz 18 anos, eles tinham algumas regras nos Países Baixos com os salários. Foi por isso que fui para outro sítio. Fui para a Eslovénia.

Já lá vamos. Ainda de volta ao Gana. Como jovens tinham tudo o que precisavam para jogar? Chuteiras e equipamentos?

Devo dizer que não. Era difícil, mas dava. Eu não tinha, mas podíamos levar da escola. As [chuteiras] que eu usava eram da escola. Tínhamos uma grande relação com o treinador da escola e ele ajudou-nos sempre. A mim e a outros que não tinham chuteiras, o treinador ajudou-nos a ter isso tudo e íamos jogar.

O campo era longe de casa?

Penso que eram 45 a 50 minutos.

E até quando ficou mesmo no Asokwa?

Até ter 15 anos. Quando fomos ao Mundial, fui para os Países Baixos, quando tinha 16 anos.

E nesses sete/oito anos no Asokwa, como era a rotina?

Para mim, era difícil, porque para começar o treino precisávamos de estar lá pelas 5h30 da manhã.

5h30?

Sim. Começávamos às seis, por isso precisávamos de estar lá às 5h30. E acabávamos pelas 9h00. Depois precisava de apanhar o autocarro e ir para a escola, que era mais ou menos a 20 minutos. E depois da escola também tínhamos treino na escola.

Então acordava mesmo muito cedo…

Sim, sim. Normalmente às 3h50 mais ou menos, para estar na paragem, porque o autocarro saía pelas 4h/4h10. Se não apanhava o primeiro autocarro, o próximo era só pelas 7h, por isso ia falhar o treino. E quando chegava à escola normalmente as aulas já tinham começado.

Nota-se que fez vários esforços para tentar ser futebolista. Foi sempre o seu sonho? Os seus pais apoiavam-no?

Foi muito bom, porque a minha mãe não tinha nada. O meu pai também faleceu, por isso foi difícil. Eu consegui ajudar-me a mim mesmo. A minha mãe não tinha trabalho, mas tinha amigos que gostavam de futebol e queriam sempre apoiá-la e a mim.

Mas tinha alguma retaguarda familiar?

Na minha família, ninguém fez um esforço, para ser honesto. Penso que a minha mãe foi a única que me apoiou.

Agora que é futebolista de profissão, retribui-lhe isso?

Sim, claro que sim, ajudo-a. Dou-lhe tudo o que tenho, partilho tudo com ela, faço com que ela viva confortável agora. Ela está no Gana, com a minha avó. Vivem juntas.

Disse que o seu pai faleceu. Chegou a conhecê-lo?

Não, não.

Agora sim, a Europa: antes de chegar esteve no Mundial sub-20 pelo Gana.

Sim, em 2015. Só que alguns jogadores tinham de ficar nas bancadas e eu fiquei [ndr: foi pré-convocado]. Não tive a hipótese de jogar, mas estive lá.

Vai depois para a Eslovénia…

Sim. O meu agente levou-me lá, tinha mais hipóteses de jogar e de mostrar-me e tive depois a oportunidade de ir para a Alemanha.

Foi campeão e ganhou a Taça na Eslovénia com 19 anos. Dá depois esse salto para o Mainz já com 2018/19 em andamento, mas não corre bem. Faz apenas oito minutos, tem uma lesão…

Sim, tive uma lesão e depois eles mudaram de treinador. O treinador que me levou para lá saiu, o diretor desportivo também e foi difícil. Depois fui emprestado ao Utrecht [2019/20]. Depois voltei e fiz a pré-época com eles, a época [2020/21] começou, eu fiz três jogos e depois mudaram de treinador outra vez. Quando comecei a jogar, mudaram de treinador e nunca mais joguei. Fui para o Twente emprestado, o treinador disse que já tinha a equipa dele e que estavam bem, mas assegurou-me que podia jogar. Fui e fiz oito jogos. Estive lá cinco meses. Depois, voltei ao Mainz para a pré-época, não estava nos planos do novo treinador e por isso fui para a Croácia. Eu queria jogar mais e dar um bom passo. O meu agente falou-me da possibilidade de jogar na Croácia e foi bom. Jogámos bem, jogámos a Liga Conferência, joguei bem lá, o treinador acreditou em mim, dei o meu melhor.

Abass no Rijeka, onde fez uma das melhores épocas antes de chegar a Chaves, com 34 jogos e sete golos (Nikola Krstic/SNS Group via Getty Images)

No meio disto, em 2020 houve notícias que o vincularam ao Southampton. Foi mesmo uma possibilidade?

Sim, foi verdade. Eu tinha essa oferta, estava entre eles e o Mainz. Foi depois do meu primeiro nos Países Baixos [Utrecht]. Houve isso, mas o diretor [do Mainz] não quis. Eu queria dar esse grande passo, mas o clube quis que eu voltasse e voltei para recomeçar com eles. Mas o diretor saiu, mudaram de treinador... Foi uma desilusão.

Arrepende-se de ter ido para a Alemanha?

Não me arrependo, porque aprendi mais na Alemanha. Não só lá, como nos Países Baixos. Não atingi os objetivos como queria, mas não me arrependo. Eles foram bons para mim, não consegui foi mostrar realmente o que valia. Foi a diferença.

Já jogou na Eslovénia, Alemanha, Países Baixos e Croácia. Agora, Portugal. Que diferenças há entre essas ligas para a portuguesa?

O futebol alemão é mais físico, forte. Nos Países Baixos é só jogar, jogar, jogar, atacar. O que vejo aqui é parecido com a Alemanha, é forte.

E qual foi o adversário mais difícil que encontrou por aqui?

Ultimamente tenho sido suplente utilizado, mas quando fui titular na esquerda, na minha posição normal, penso que o Bah, do Benfica, é muito bom, é inteligente. Joguei contra ele e vi que era bom, mas não jogámos bem quando fomos lá [Luz].

Já jogou a Liga Conferência pelo Rijeka, mas já tinha jogado eliminatórias da Liga Europa na Eslovénia e um jogo na Liga dos Campeões em que se estreou com uma expulsão [num Olimpija-Qarabag]. Espera redimir-se e voltar à Champions um dia?

Claro, qualquer jogador sonha jogar a Liga dos Campeões ou Liga Europa. Vamos ver o que vai acontecer. Agora só estou focado na época, quem sabe se o Chaves se qualifica para a Liga Conferência e aí sim, possa jogar. Nunca se sabe.

E espera continuar na próxima época em Chaves? Já há conversas nesse sentido?

Por agora, só quero estar focado em jogar até ao final da época e depois vou ver o que vai acontecer. Agora estou no Chaves e quero dar tudo.

Está a cumprir agora o Ramadão.

Sim. Às vezes é um pouco difícil por causa do sol, mas penso que, se estás determinado a fazer algo, não importa se tens comida no corpo ou não. Às vezes é difícil, mas tens de o fazer.

Isso também aconteceu, por exemplo, no jogo com o Benfica, à tarde.

Sim. Tinha de comer até às 5h30. Às vezes é difícil, mas tens de gerir.

Que sonhos ainda tem no futebol? Já chegou a dizer que gostava de jogar no Liverpool um dia…

Sou um grande fã do Liverpool. E apoio-os porque tinham o Mané.

É internacional jovem. Ainda sonha ir à seleção principal?

Sim, sonho jogar na seleção nacional, mas às vezes, em África, a convocatória não é feita da melhor forma. Mas agora quero focar-me no clube, treinar e jogar. Nunca se sabe, mas agora quero focar-me e, se tiver a hipótese, vou mostrar-me.

E ultimamente sido um suplente precioso. O jogo com o Benfica foi prova disso. Espera agora ser titular nos últimos jogos?

Não sei. Para ser honesto, não sei porque é que não começo de início. Claro que cada treinador tem as suas razões, mas quando entrar, vou dar o meu melhor. Espero jogar mais e isso é o mais importante.

Como é o ambiente no balneário e a convivência com os colegas?

De vez em quando jantamos. Depois do treino quase toda a gente normalmente tem de ir para casa, mas no balneário falamos, brincamos muito.

Tem já passagens por vários países na Europa. A língua para si foi sendo um problema, apesar de falar inglês?

Não é um problema. Estou a tentar aprender. Não é fácil, requer algum tempo. Mas sei alguns palavrões (risos).

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