Túlio Oliveira, investigador luso-brasileiro, descobriu a variante Ómicron: "Se não a identificássemos tão rapidamente, o mundo não se tinha conseguido preparar"

29 jan, 19:24

A CNN Portugal esteve na Universidade de Medicina Stellenbosch, na Cidade do Cabo, e conversou com o investigador que identificou a Ómicron. Túlio Oliveira conta as ameaças de morte que recebeu, a chamada decisiva com o presidente sul-africano e o que diferencia esta nova variante da covid-19

Trinta e seis horas depois de ter identificado a Ómicron - ainda não se chamava assim em novembro de 2021 - o investigador luso-brasileiro Túlio Oliveira estava a conversar diretamente com o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, sublinhando que tinha más notícias. A esse telefonema seguiram-se outros dez, conta o professor da Universidade de Medicina Stellenbosch à CNN Portugal. “Nem sempre ele está feliz por falar comigo, muitas vezes diz ‘não, de novo não’”, recorda, sorrindo.

Esse telefonema precipitou consequências tanto na África do Sul, como em todo o mundo. Mas antes, o que se registou, foi um “trabalho em rede muito eficaz”, sem o qual, argumenta, teria sido impossível o laboratório da Universidade dar uma resposta tão rápida. 

O processo de deteção foi complexo e passou por várias etapas. “Primeiro foram identificados 8 genomas idênticos”, conta o investigador, destacando que o segundo passo por um contacto com “os maiores laboratórios em Joanesburgo”.  “Pedi para que selecionassem centenas de amostras, no mínimo de 50 a 60 clínicas diferentes”, afirma, explicando que os dados pedidos teriam de ter sido recolhidos nas 48 horas anteriores.

Ao pedido, seguiu-se rapidamente uma resposta. “Em menos de seis horas, recebemos centenas de amostras de Joanesburgo”. Para atravessar os 800 quilómetros que separam as duas cidades, as amostras foram enviadas através de um avião privado. Uma logística que permitiu que, “em menos de 24 horas”, a equipa científica de Túlio Oliveira tenha conseguido analisar todos os genomas recebidos.

A partir daí, explica à CNN Portugal, a sua equipa da Universidade apercebeu-se de que tinha algo inédito. “Tínhamos centenas de genomas de várias clínicas, com centenas de quilómetros de diferença, aí tivemos a certeza que esta variante estava em todos os lugares, no país inteiro”. 

Se não tivéssemos identificado tão rapidamente, o mundo não teria conseguido preparar-se para a nova variante com doses de reforço da vacinação e aumentando a rede de hospitalização. Essa preparação ajuda muito a impedir a mortalidade da nova variante”, indica Túlio Oliveira.

Túlio Oliveira conta ainda que recebeu “muitas ameaças de morte por ter identificado a nova variante”. No entanto, na África do Sul, a animosidade diminuiu um pouco, já que, explica, o Governo ficou do seu lado e soube “reagir rápido à Ómicron”. 

Apesar da rápida propagação da variante globalmente, o investigador Túlio Oliveira esclarece que a Ómicron é menos mortal quando comparada, por exemplo, com a Delta. Isto acontece por três razões, enumera. “Primeiro, as infeções antigas e as vacinas protegem e preparam o sistema imunológico para atacar o vírus, depois os médicos e os hospitais sabem tratar os pacientes de forma muito mais eficiente”. 

Finalmente, explica, a baixa mortalidade acontece por causa das características inerentes à Ómicron. “Infeta mais a zona nasal, não tanto a zona abaixo do pulmão”. Túlio Oliveira destaca que este facto faz com que a estirpe do SARS-CoV-2 tenha “uma carga viral muito mais alta na zona do nariz e da boca, tornando-a mais transmissível, mas causando menos sintomas graves”.


“Restringir viagens só funciona quando se restringe o mundo inteiro”

A 26 de novembro de 2021, precisamente dois dias depois do primeiro caso da variante Ómicron ter sido descoberto na África do Sul, a União Europeia tomou uma decisão: suspender os voos da África Austral - a zona Sul de África banhada pelo oceano Índico e pelo Atlântico. 

À União Europeia, juntaram-se vários países, incluindo o Reino Unido, Singapura e Estados Unidos. Foram medidas, explica Túlio Oliveira, que prejudicaram o trabalho científico na África do Sul - “Ficámos sem reagentes com o impedimento de voos para a África do Sul, faltaram medicamentos”, afirma - e incentivaram os países que venham a descobrir novas variantes a não reportarem os factos. 

Restringir viagens só funciona quando se restringe o mundo inteiro. Não teve efeito nenhum restringir a zona da África Austral”, afirma, definindo que esta reação causou uma diminuição das vacinas disponíveis no continente africano. O resultado é que “muitos países quando identificarem novas variantes vão ficar quietos, porque são penalizados por identificar vírus”. 

“Entrámos numa fase global muito perigosa, com o mundo a tratar mal países e cientistas”, afirma Túlio Oliveira. Alertando para a desigualdade da distribuição da vacinas no mundo, o investigador diz que “as vacinas não chegaram à África” e que esse facto é “praticamente criminoso”.

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