Está à procura de emprego? Estas são as áreas e os perfis profissionais com mais saída em 2023

8 fev, 22:00
Trabalhadores

Apesar da recente vaga de despedimentos nas grandes tecnológicas, este setor ainda se encontra a contratar, ainda que procure profissionais de perfil mais específico. Além do mais, também a banca e a indústria representam potenciais áreas a apostar em 2023

Marcado por um contexto de perspetivas de recessão, subida das taxas de juro e pela elevada inflação, o mercado de trabalho a nível mundial está a atravessar um período de mudança. As grandes tecnológicas, que até há poucos anos mantiveram um crescimento notável, lançam agora sucessivas vagas de despedimentos. Ainda assim, o setor tecnológico continua a crescer e representa apenas uma de variadas áreas resilientes ao atual clima de instabilidade.

Neste ambiente geral Portugal não é exceção e os dados do desemprego divulgados esta quarta-feira mostram isso mesmo. Apesar de em termos anuais a taxa de desemprego em 2022 se ter fixado em 6%, face aos 6,6% de 2021, a verdade é que os valores trimestrais mostram que ao longo do ano passado houve um aumento do desemprego: atingiu o seu valor mais baixo no segundo trimestre, com uma taxa de 5,7%, no terceiro trimestre foi de 5,8% e no último trimestre do ano atingiu os 6,3%.

Neste contexto, algumas das principais recrutadoras em Portugal explicaram à CNN Portugal quais os setores que deverão registar a maior procura de trabalhadores em 2023, quais seguem na direção oposta e que tendências laborais estão a emergir.

Visão da Hays

Mário Rocha, Senior Manager na Hays, revela que os perfis mais procurados ainda dizem respeito às tecnologias da informação (segundo 30% dos empregadores inquiridos pela empresa). A somarem-se à lista seguem também os engenheiros (28%), comerciais (26%) e administrativos/suporte (17%).

Na base destas conclusões estão os resultados do Guia Hays 2023, destaca o gestor, apontando também que os perfis administrativos e de suporte sobem este ano para 4.ª posição da tabela, ultrapassando o marketing e a comunicação.

Já perfis de caráter financeiro, logística e supply chain, assim como apoio ao cliente também se encontram “ligeiramente acima do último ano”, um aumento que pode ser justificado pelo facto de as empresas, com centros de serviços partilhados, terem intenções de recrutamento “muito superiores” às restantes, acrescenta.

No ramo das engenharias mais procuradas, a Hays destaca a engenharia e gestão industrial, engenharia eletrotécnica, civil, industrial e da qualidade. Por outro lado, também a engenharia ambiental entra este ano para o top 10 da tabela de preferências dos empregadores.

Visão da Multipessoal

A visão da Multipessoal também se alinha com as tendências apontadas pela Hays. Susana Dionísio, Sourcing Associate Director na Multipessoal, destaca igualmente a área de tecnologia da informação, indústria e logística, mas também o setor da banca e seguros.

No setor da tecnologia da informação a diretora na Multipessoal destaca que existe uma necessidade de recrutar profissionais dada a “transformação digital interna” das empresas. Na busca por uma maior eficiência, através de soluções de automação, as empresas deste ramo acabam por procurar profissionais como data analysts, gestores de produto ou developers, esclarece.

No que diz respeito à área da banca e seguros, o recrutamento tem como objetivo garantir a obtenção de informação por parte dos seus clientes, razão pela qual a Multipessoal regista um aumento na procura por assistentes de call center, seja em regime presencial ou remoto.

Por sua vez, na área da indústria e logística, dada a especificidade de trabalhos, “continuam a ser muito solicitados técnicos de armazém e operadores de produção”, sublinha a mesma responsável. Numa vertente mais especializada, as necessidades já passam por áreas como a manutenção, eletricistas e mecânicos.

Visão do ManpowerGroup

Pedro Amorim, Managing Director Experis e Corporate Clients Director do ManpowerGroup Portugal, salienta que o estudo Outlook da empresa identificou uma procura acrescida em áreas como a energia e utilities, tecnologias de informação, finanças e imobiliário, assim como nos serviços de comunicação.

A destacar-se da média nacional, em termos de “projeção para a criação líquida de emprego”, encontramos o setor da energia e utilities, com o referido indicador a projetar um crescimento de 43%. Já o setor tecnológico, por sua vez, regista um acréscimo projetado de 28%, ainda que este indicador tenha caído 10 pontos percentuais face ao trimestre anterior.

Por sua vez, o diretor no ManpowerGroup Portugal destaca igualmente o estudo da empresa, Talent Shortage, de onde se concluiu que as funções mais procuradas pelas empresas portuguesas estão relacionadas com tecnologia e data, “referidas por 26% dos empregadores nacionais”, explica.

A estas sucedem-se as funções relacionadas com a indústria e produção, identificadas por 21% dos empregadores, bem como as de operações e logísticas, com uma menção de 20%. O último lugar desta lista é ocupado pelas vendas e marketing e os recursos humanos, sendo apontados por 19% das empresas nacionais.

Soft Skills

Além do perfil profissional, as recrutadoras mostram, de forma geral, uma preocupação pelas chamadas soft skills dos trabalhadores. Para Susana Dionísio, as atuais oportunidades de mercado tendem a gerar uma procura por profissionais com algum nível de experiência. No entanto, dada a escassez geral de candidatos, os empregadores tendem a “apostar em candidatos que demonstrem potencial para aprenderem e evoluírem rapidamente, com o devido acompanhamento e formação”, refere.

Dentro das soft skills mais valorizadas encontramos a capacidade de resolução de problemas e de trabalho em equipa, bem como a resiliência, adaptabilidade e espírito crítico. Por outro lado, aspetos como a inteligência emocional também são valorizados pelos empregadores, de modo a assegurar relações profissionais estáveis, a gestão de pessoas e conflitos, ou ainda a gestão do stress e ansiedade.

Mário Rocha destaca ainda a ética, valores e a proatividade, seguindo-se a autonomia, orientação para objetivos e empatia. Pedro Amorim, por sua vez, além de abordar algumas das soft skills já referidas, destaca a existência de soft skills mais difíceis de encontrar, como a fiabilidade e autodisciplina.

Que áreas têm estado em queda?

Quando comparado o cenário atual com o sucedido nos últimos anos, Mário Rocha aponta não haver áreas com quebra significativa nas intenções de recrutamento. No entanto, esta não é uma visão consensual entre todos os recrutadores.

Para Susana Dionísio, desde 2020 que se verifica uma redução na procura por cargos relacionados com a indústria de fabrico de componentes e a sua respetiva comercialização, pelo que a profissional defende que uma das áreas com menor colocação diz respeito à do setor automóvel.

Já Pedro Amorim, aponta que o atual contexto macroeconómico está a levar a quebras nas intenções de contratação, sendo o setor mais penalizado, no primeiro trimestre, o referente aos bens e serviços de consumo, com uma “Projeção para a Criação Líquida de Emprego de -8%”, sublinha.

Face ao último trimestre, este setor já caiu 36 pontos percentuais, ou 48 face a igual período de 2022, afetando atividades como o retalho, hotelaria restauração ou indústria de bens de consumo. A alimentar esta evolução estão também as expectativas de abrandamento no consumo privado, turismo ou exportação de bens de consumo, acrescenta.

Os Transportes, Logística e Automoção também registam uma queda nas intenções de contratação, face às projeções de outubro-dezembro de 2022, ou face ao primeiro trimestre de 2022, com uma descida de 32 e 43 pontos percentuais, respetivamente. No entanto, os empregadores deste setor esperam um aumento do emprego na ordem dos 13%.

Por fim, existem ainda setores que, embora não estejam em 'queda', desaceleraram consideravelmente. No setor das finanças e imobiliário, a Projeção para a Criação Líquida de Emprego caiu 30 pontos percentuais para os +18%. Com uma margem “moderadamente otimista” segue a área da Saúde e Ciências da Vida, com uma projeção positiva de 6%. No entanto, este setor regista uma queda de 17 e 18 pontos percentuais, face ao trimestre anterior e ao período homólogo do ano passado.

Cargos emergentes

Embora haja funções com uma procura cada vez menor, o oposto também se verifica. Mário Rocha destaca que as empresas começam a fazer um maior investimento em áreas como a sustentabilidade, funções no setor energético e melhoria contínua.

Susana Dionísio, por sua vez, destaca que a crescente necessidade das empresas manterem uma gestão e monitorização constantes da sua situação financeira leva a um aumento da procura e recrutamento para cargos como Gestores Financeiros e Risk Controllers. Estas áreas têm ganho notoriedade ao longo dos últimos meses, pelo que deverão assumir cada vez mais relevância, destaca Susana.

Já Pedro Amorim, defende que as áreas onde mais têm surgido novas funções dizem respeito ao setor tecnológico, nomeadamente em cargos relacionados com inteligência artificial, análise de dados e cibersegurança. Nestas áreas, a “oferta de talento ainda não acompanha a necessidade”. A estas funções aliam-se outras dentro do setor das fintech (financeiras tecnológicas), relacionadas com as novas plataformas de transação.

Adicionalmente, existe ainda o cargo de Chief Happiness Officer, um responsável pela promoção da felicidade dos profissionais no interior das organizações. “Estes responsáveis podem igualmente ser responsáveis pelo desenvolvimento de estratégias que fomentem a saúde mental dentro das organizações”, um aspeto com uma relevância crescente nas agendas dos líderes de recursos humanos, garante Pedro Amorim.

Esta tendência, é comprovada pelo segundo relatório sobre o “Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho”, divulgado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. O documento revela que as empresas que reforçam a promoção da saúde e bem-estar na empresa podem ter ganhos de produtividade em até 30%.

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