Se a luz que foi abaixo e o elefante de peluche foram as piadas da noite, o negacionismo nem por isso: o debate dos partidos sem assento parlamentar

19 jan, 01:12

Houve uma interrupção forçada porque a eletricidade falhou e esse será sempre um dos momentos coloridos de um debate que juntou partidos e representantes desses partidos muito distintos - desde as ideias até à preparação argumentativa. Mas o negacionismo apareceu - sem provas mas apareceu. Aliança, ADN, Ergue-te, JPP, MAS, MPT, Nós Cidadãos, PCTP-MRPP, PTP, PPM, RIR e Volt. foram os protagonistas

Aos 25 minutos de debate a luz apagou-se. Estava Élvio Sousa, candidato do partido madeirense JPP - Juntos pelo Povo, a falar sobre o custo da energia e a necessidade de se reduzir o IVA da eletricidade quando houve uma falha de luz no Teatro Capitólio, em Lisboa, e o debate teve de ser interrompido por alguns minutos.

Na escuridão, ouviu-se uma voz a ironizar: "Querem-nos calar". A piada fazia sentido neste debate que juntou os representantes de 11 partidos que estão a tentar pela primeira vez chegar à Assembleia da República e que, por isso mesmo, têm muito poucas oportunidades para fazerem ouvir a sua voz na comunicação social. E todos eles fizeram questão de sublinhar a raridade do momento: "Estamos aqui porque a democracia não pode estar inclinada" como um campo de futebol inclinado e que dá sempre a vantagem aos mesmos jogadores, disse Vitorino de Silva, provavelmente o rosto mais conhecido dos onze. Para o líder do RIR - Reagir, Incluir e Reciclar, "não há partidos grandes", pois se houvesse partidos grandes "não havia 50% de portugueses que não votam".

É sobretudo para esses que o RIR e os outros "pequenos partidos" falam, para todos aqueles que não se reveem nos partidos que já estão no Parlamento ou que não se reveem nas regras do sistema, como é o caso do Nós Cidadãos, um partido que não queria ser um partido - só o é porque essa é a única maneira de se candidatar à Assembleia: "A nossa principal bandeira tem sido, a partir de vários movimentos cívicos independentes, sem filiação partidária, quebrar o ciclo de corrupção que existe à volta do Parlamento", explicou Joaquim Rocha Afonso. "Qualquer cidadão independente pode ser eleito a qualquer cargo mas não pode ser deputado, nós defendemos que grupos de cidadãos possam concorrer ao Parlamento. Para isso é necessário uma reforma eleitoral e constitucional."

A pandemia no meio da sala

Antes do corte de energia, já tinha havido um momento insólito quando Bruno Fialho, da ADN - Alternativa Democrática Nacional, estava a criticar os debates anteriores: "Durante dois anos só falámos sobre pandemia, agora na campanha ninguém fala sobre o elefante na sala: porquê?". A seguir sacou de um elefante de peluche. A partir daí, o elefante, ou melhor, a covid, dominou a discussão. Bruno Fialho participou no debate por videoconferência porque se recusou a fazer o teste covid para entrar no estúdio."Eu não preciso de fazer teste para andar de transportes públicos mas preciso de teste para ir à RTP. Considero que é inadmissível solicitarem medidas ilegais para que candidatos estejam juntos, portanto mantive a minha convicção e a minha esperança de que conseguimos mudar Portugal. Somos um partido que mantém a palavra mesmo sofrendo segregacionismo." Mais tarde disse que morreram 152 pessoas de covid em Portugal e não 19 mil. O moderador contrapôs: "Onde está a prova?" "Basta ir ao Google", respondeu o candidato.

O ADN não foi o único partido negacionista neste debate. Na opinião de José Pinto Coelho estamos a viver "uma grande farsa num manicómio a céu aberto, em que as pessoas comem tudo o que a televisão lhes impinge e há uma política de medo". O líder do Ergue-te garantiu que se for eleito a Assembleia da República terá "um deputado sem máscara a promover a desobediência civil - que é necessária". Jorge Pinto Coelho apresentou o Ergue-te como "o único partido que não sufraga este regime de Abril e que está assumidamente contra este regime (...) ao lado dos resistentes pela luta pela liberdade contra esta fraude que é pandemia da covid".

Cidália Guerreiro, do PCTP-MRPP, duvida dos números oficiais de mortos provocados pela pandemia: são 19 mil segundo a DGS, serão outros de acordo com o PCTP-MRPP - que tem mais críticas a fazer. "A pandemia foi utilizada para introduzir determinadas medidas ilegais, repressivas, intimidatórias.". Afirmando que "a pandemia foi mal gerida, não houve rigor, não houve planeamento", a candidata do PCTP-MRPP criticou medidas-  que considerou excessivas - como os "confinamentos, a paralisação do sector económico e os estados de emergência".

Menos radicais, muitos dos outros também criticaram a gestão da pandemia. "A pandemia foi a melhor coisa que aconteceu ao governo, não faz mais nada, só fala de pandemia", disse Amândio Madaleno, do PPT - Partido Trabalhista Português. Neste tema, as vozes mais moderadas foram as de Vitorino Silva e Élvio Sousa: "Nenhum governo tinha um manual de sobrevivência para uma pandemia", disse o líder do JPP - Juntos Pelo Povo, admitindo que teria sido difícil fazer melhor.

Mais à esquerda e mais à direita

"O Parlamento implodiu, precisa de se reconfigurar. E novas medidas precisam de novas alianças", disse Cidália Guerreiro, do PCTP-MRPP, que dirigiu as suas críticas sobretudo ao PCP e ao Bloco Central, os dois partidos que "apoiaram um governo durante seis anos e agora ficaram perplexos porque este governo se desfez". 

Já o Aliança, pela voz de Jorge Nuno Sá, diz-se "o coração da direita". Ou seja, "a direita que inclui, que não segrega, isso distingue-nos da extrema direita"."Também nos afastamos da direita puramente liberal porque acreditamos num Estado que assegure os pilares fundamentais - que são a educação, o apoio social e a saúde -, de forma a que o elevador social funcione e as pessoas possam singrar. Não somos uma direita confessional, fechada numa sacristia qualquer. E estamos longe das negociatas."

O MPT - Movimento Partido da Terra garante que traz "uma agenda política verdadeiramente ecologista e humanista". Para dizer ao que vem, Pedro Soares Pimenta deixou implícita críticas aos Verdes e ao PAN:  "Não somos apêndices de ninguém e não somos radicalistas", disse, sublinhando que para ele o mais importante são as pessoas - e só depois os animais.

O PTP- Partido Trabalhista Português, tem no seu símbolo dois golfinhos que protegem o povo dos tubarões. Os tubarões, explicou Amândio Madaleno, são José Sócrates e António Costa. E chamou a atenção para um outro tubarão em crescimento - André Ventura - e que é preciso parar. 

Renata Cambra defendeu as ideias do MAS - Movimento Alternativa Socialista e trouxe para o debate temas nem sempre muito discutidos nesta campanha: as dificuldades dos jovens, nomeadamente no que toca à precariedade e ao acesso à habitação; as carreiras dos professores (e a necessidade de recuperar o tempo de serviço); a exploração do lítio e o modo como vai "afetar negativamente" a vidas das populações nos locais onde isso acontece mas também os efeitos ambientais mais gerais. Estes são os temas que gostaria de ver debatidos nesta campanha em vez de "perdermos tempo a falar de coisas completamente anacrónicas como a prisão perpétua".

O Volt é um partido europeísta e transnacional e o discurso de Tiago Matos Gomes centrou-se precisamente na necessidade de a união europeia ser mais federalista: "Devem ser os cidadãos e não os governos a escolher os seus representantes europeus".

Qual a sua prioridade se chegar ao Parlamento?

Esta foi a questão colocada a todos os candidatos no final do debate. E estas foram as respostas:

Jorge Nuno Sá, Aliança:
"Assumimos o compromisso do descongelamento da carreira dos enfermeiros. Queremos acabar com o regime de caracol às costas quer dos professores quer dos polícias e de outras classes profissionais."

Cidália Guerreiro, PCTP-MRPP
"Queremos a recuperação da independência económica e financeira do país, bem como da sua soberania orçamental, fiscal, aduaneira e monetária. Também revogar o código de trabalho fascista que ainda contém medidas da troika e o fim da caducidade dos contratos coletivos, implementar as 35 horas de trabalho semanais e a fixação da reforma aos 60 anos ou aos 35 anos de trabalho remunerado."

Vitorino Silva, RIR
"Aliviar a carga fiscal."

José Pinto Coelho, Ergue-te
"Lutar sempre pelos valores da nossa cultura cristã, ocidental, pelo valor da vida, desde a sua conceção até à morte natural, pela família, pelas pequenas e médias empresas. Mudar a lei da nacionalidade - é português quem é filho de português e não quem recebe um papel a dizer que o é."

Pedro Soares Pimenta, MPT
"Dar mais atenção à diáspora portuguesa e reduzir os impostos."

Joaquim Rocha Afonso, Nós Cidadãos
"Maior coesão territorial, repor os benefícios fiscais no interior e criar pólos universitários nas cidades do interior."

Bruno Fialho, ADN
"Decretar o fim do pandemia para dar sustentabilidade aos pequenos e médios empresários e libertar os hospitais para as pessoas; aproximar o interior das grandes cidades."

Élvio Sousa, JPP
"Redução de impostos para as empresas; emagrecer a despesa do Estado; subida progressiva do salário mínimo sustentado; manutenção da Segurança Social para assegurar pensões e reformas."

Amândio Madaleno, PTP
"Devolver às famílias as casas que lhes foram retiradas pelos bancos, extinguir imediatamente o IHRU - Instituto de Reabilitação Urbana; melhorar salários e colocar o salário mínimo para mil euros".

Renata Cambra, MAS
"A prisão e confisco dos bens de quem roubou o país para aumentar salários e pensões; o fim das offshores para se investir esse dinheiro nos serviços públicos e descongelar carreiras; revogar os 14 contratos de exploração mineira; revogação das leis laborais da troika, implementar a semana de trabalho de quatro dias e acabar com as empresas de trabalho temporário."

Tiago Matos Gomes, Volt Portugal
"Uma das nossas preocupações é a habitação, nomeadamente garantir a habitação para os professores e os estudantes; a regionalização para termos um país coeso".

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