Don Alfredo, o adeus que é também português a um imortal

29 jan, 09:52
Alfredo Di Stéfano (EPA)

Memórias de Di Stéfano, no dia em que se despediu deste mundo

Este é um fim de semana especial. A MF Total chega à edição mil: um número redondo e sintomático da importância que a revista tem assumido na história do Maisfutebol. Para celebrar esta data, viajámos no tempo. Oito jornalistas escolheram a reportagem que mais os encantou escrever. Esta é a escolha de Berta Rodrigues, foi publicada a 8 de julho de 2014 e viaja às memórias do genial Di Stefano que se cruzam com Portugal.

Boas leituras.

No meio de homenagens sem fim no dia que viu partir Alfredo Di Stéfano, uma memória com 52 anos, que diz tanto. Amesterdão, 2 de maio de 1962, final do Benfica-Real Madrid. Eusébio acabava de se tornar campeão europeu, mas não era nisso que pensava. Só uma ideia o movia: conseguir a camisola dele. Don Alfredo, a lenda.

«A taça não me dizia nada, o que eu queria era a camisola do Di Stefano. Era mais importante para mim, ele estava noutro patamar. Havia muitos outros grandes jogadores, mas ele era o maior», contou Eusébio em várias ocasiões, nesta ao Maisfutebol: «Pedi ao Coluna, que já o conhecia, para lhe pedir a camisola. No final tirei a minha e corri para ele. Os outros corriam para a taça, eu corria para a camisola.»

Depois daquela final, uma espécie de passagem de testemunho para a lenda, a admiração tornou-se recíproca. Evoluiu para uma amizade, feita de respeito. Eusébio definia Di Stéfano como o jogador mais completo que já viu.

Não era apenas Eusébio quem o via assim. É desse modo que o definem muitos dos que o viram jogar. Também José Augusto, que fazia parte daquela equipa do Benfica. Mais velho e mais experiente, recorda ao Maisfutebol como partilhava com o então jovem Eusébio a admiração pelo gigante do Real Madrid.

«O Eusébio, que não o tinha visto jogar tantas vezes como eu, ficava extasiado com o que lhe contava», recorda José Augusto, sem dúvidas: «O Di Stéfano foi o jogador mais completo que vi.»

«Tinha tudo. Condição morfológica, visão de jogo, capacidade técnica, jogava extremamente bem de cabeça. Era sem dúvida um jogador cerebral. Resolvia, defendia, marcava e organizava», embala: «Era um avançado que jogava com o número 9, mas que percorria todas as zonas do terreno. Iniciava ataques e contribuía para a finalização do Puskas. Hoje não há um jogador como foi Di Stéfano. Don Alfredo, como eu lhe chamava.» 

 
Uma amostra:
 

Alfredo Di Stefano é memória coletiva. É da Argentina, da Colômbia e de Espanha, do River Plate e do Boca Juniors, do Millonarios e do Real Madrid. Um bocadinho de Portugal também, ele que chegou a estar em Lisboa no verão de 1974 para treinar o Sporting. Já lá vamos a essa história.

Di Stéfano é do mundo e está acima dele, como só os grandes. A notícia da morte de Don Alfredo, 88 anos acabados de fazer, chegou a meio da tarde desta segunda-feira. No sábado sentiu-se mal e foi internado, a seguir a um almoço para comemorar o seu aniversário, perto do Santiago Bernabéu, o estádio do clube de que foi a grande referência histórica, o Real Madrid.

As reações chegaram de todo o mundo. Diego Simeone, o treinador do At. Madrid, despediu-se assim dele, poesia como só os argentinos sabem dizer:


Que nunca falte a Don Alfredo uma bola, a sua amiga de sempre. Foi a ela, a bola, que Di Stéfano dedicou a sua biografia. O título era «Gracias, vieja», o nome carinhoso que chamava àquela a quem dizia dever tudo.

E tudo foi tanto, na carreira incrível daquele a quem chamaram a «Saeta Rubia», «Flecha Loira». Di Stéfano nasceu na Argentina a 4 de julho de 1926, cresceu para o futebol no River Plate, tornou-se grande no Millonarios da Colômbia e depois mudou-se para Espanha. Esteve para ser do Barcelona, foi do Real Madrid. Chegou a Espanha em 1953.

Foi com ele e com a grande equipa que formou naqueles anos que o Real Madrid atingiu a dimensão global que tem hoje. Foi cinco vezes campeão europeu com a camisola branca, tornou-se símbolo do clube. Presidente honorário, para sempre.

Vestiu as camisolas das seleções dos três países, nunca chegou a jogar um Campeonato do Mundo. É talvez o maior jogador de sempre que nunca passou por um Mundial.

Acabou a carreira de jogador no Espanhol, em 1966, aos 40 anos. Tornou-se treinador. Começou pelo Elche, depois voltou à Argentina, para treinar o Boca Juniors. Seria campeão com os xeneizes, também viria a sê-lo com o River Plate. A sua experiência mais marcante como treinador aconteceu no Valência, por duas vezes. Foi campeão de Espanha em 1971 e ganhou a Taça das Taças em 1980.

Treinou duas vezes o seu Real Madrid, foi lá que se despediu de vez do futebol ativo, em 1990/91, quando substituiu John Toshack e orientou a equipa ao lado de Jose Antonio Camacho.

De Benidorm para o Sporting, sem chegar a assinar

Pelo meio, o seu caminho cruzou-se com o Sporting. Foi no verão de 1974. Di Stéfano tinha deixado o Valência e João Rocha, então presidente dos «leões», chegou a acordo com ele. Saiu depois do primeiro jogo oficial da época, sem ter chegado a assinar contrato.

Augusto Inácio, então com 19 anos, dava os primeiros passos nessa equipa. «Tenho a ideia de que a contratação do treinador naquela ano foi um bocado conturbada», conta o agora diretor dos leões ao Maisfutebol: «Falou-se que o João Rocha tinha ido a Benidorm para contratar o Di Stéfano.»

Di Stéfano chegou mesmo e fez a reta final da pré-temporada com a equipa. Fernando Tomé, jogador do Sporting nessa altura, partilhou nesta segunda-feira uma recordação dessa digressão.

 

 

Ao Maisfutebol, Tomé deixa a sua impressão sobre aquelas semanas. «Os treinos eram bons, eram ótimos. Ele foi construindo uma ideia sobre o que era a equipa. E queria reforçá-la. Penso que foi aí que começaram os problemas. Queria um «portero», como ele dizia, mas nós tínhamos o Damas e o Botelho. Também queria um lateral-esquerdo, mas estavam lá o Carlos Pereira, o Baltazar e o Inácio, que tinha sido promovido à primeira equipa. E queria um avançado, quando tínhamos o Yazalde, o Dé, o Dinis. Houve alguma confusão e algum desentendimento entre ele o presidente.»

No campo as coisas também não correram bem. Logo no Brasil. «Fomos a um torneio internacional em Belo Horizonte, tivemos dois jogos. Um com o At. Mineiro, que empatámos 2-2, depois perdemos 6-0 com o Cruzeiro. Quando chegámos ao hotel houve uma divergência entre Di Stéfano e João Rocha», recorda Tomé.

Não ficou por aí. «Depois fomos ao Torneio Internacional de Sevilha, que não correu favoravelmente, perdemos com o Bétis e o Sevilha. Ainda fizemos um torneio em Faro, acabámos por perder com o Farense nos penáltis.»

Chegou o início do campeonto. Di Stéfano não foi para o banco na primeira jornada frente ao Olhanense, explica Tomé, «porque não tinha contrato assinado e não estava legalizado para se apresentar como treinador». Foi Osvaldo Silva quem se sentou no banco, num jogo que os leões perderam, a primeira derrota de sempre frente ao Olhanense. Fernando Tomé acredita que foi essa a gota de água para a ruptura entre João Rocha e Di Stéfano.

Inácio, por seu lado, diz que nunca percebeu bem o que se passou. «Não sei se partiu do Sporting, se partiu dele. Havia quem dissesse que o Sporting não gostou da forma dele trabalhar, outros que foi ele que não gostou da forma como se trabalhava com o Sporting.»

Foi pouco tempo, Inácio não tem recordações marcantes dessa passagem de Di Stéfano por Alvalade: «Daquele mês e qualquer coisa não deu para perceber que tipo de treinador era.»
Quanto a Tomé, recorda o entusiasmo de ser treinado por um dos seus ídolos de menino: «A minha infância foi passada a vê-lo e àqueles grandes jogadores. Só o facto de ele estar na minha frente para mim era algo extraordinário. É um dos mitos do futebol.»

Di Stéfano é um dos poucos que chegou a esse patamar, o dos mitos imortais. «Como o nosso Eusébio. Como Pelé, ou como Cruijff, por quem tenho uma grande admiração», diz Tomé. Inácio completa: «Há jogadores que marcam uma época e ficam para a eternidade. Di Stéfano foi um deles, tornou-se um mito.»

As reações à morte de Di Stéfano dizem tudo. Clubes, jogadores, treinadores, anónimos, o mundo a lembrar a lenda. Hashtags como #DEPDonAlfredo, #HastaSiempreDonAlfredo foram tendência no Twitter ao longo do dia. Chegaram de todo o lado.

Ídolos de hoje, como Messi ou Cristiano Ronaldo, que foi apadrinhado por Don Alfredo, ao lado de Eusébio, no dia em que chegou ao Real Madrid. E ídolos de sempre.

Pelé


Maradona
 
 


Cruijff
 
Lembraram a lenda e também o homem. «Um homem maravilhoso», chamou-lhe José Mourinho. Até ao fim com «curiosidade de menino», como dizia ao Maisfutebol há dois anos, numa entrevista a propósito do Euro 2012. Espirituoso, muitas das suas ideias e tiradas fazem parte do imaginário do futebol. Como esta: «Marcar golos é como fazer amor. Todo o mundo sabe como se faz, mas ninguém o faz como eu.» Ou esta: «Nenhum jogador é tão bom como todos juntos.»

«Era um homem extraordinário, de uma gentileza extraordinária», completa José Augusto, aproveitando para contar uma provocação de Di Stéfano do tempo da revolução em Portugal: «Em maio de 1974 a FIFA tinha-me convidado para ir a Paris ver um jogo entre o Milan e o Real Madrid. Eu já só jogava no torneio do CIF, mas no fim de semana anterior parti o nariz. Fui ao médico mas disse que não queria ser operado, porque tinha que ir para Paris. Puseram-me um penso e fui. O Don Alfredo, quando me viu, atirou-me: «Foram os comunistas que te fizeram isso?»

José Augusto, que este ano já viu partir Eusébio e Mário Coluna, dois antigos companheiros que estão lá, entre os grandes,  agarra-se às memórias. «Que Don Alfredo esteja em paz. Para nós fica o imaginário e as recordações. Essas ninguém as tira.» 
 
Para nós, todos os outros, ficam as lendas. Agora também a de Di Stéfano. Gracias, Viejo.

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