Da Academia do Sporting à manutenção de escolas em onze anos

2 mai 2020, 10:20

Vivaldo Fernandes percorreu todos os escalões de formação do clube, jogou com futuros campeões da Europa como Rui Patrício, Cédric e Adrien e foi campeão de juniores em 2008. Não chegou aos escalões profissionais em Portugal, terminou a carreira com 28 anos e trabalha para a Câmara Municipal de Cascais desde 2019

«Depois do Adeus» é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como sobrevivem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para o email vhalvarenga@mediacapital.pt.

«Sporting: Rui Patrício, Cédric, Daniel Carriço, Marco Lança e Tiago Pinto; Adrien, Vivaldo e João Martins; Fábio Paim, Wallyson e Wilson Eduardo»

Vivaldo Fernandes não hesita perante o desafio do Maisfutebol: fazer um onze com os melhores jogadores que teve como companheiros de equipa ao longo de dez anos na formação do Sporting. Três deles foram campeões da Europa pela seleção de Portugal, em 2016. Por essa altura, Vivaldo já caminhava para o final precoce da carreira.

O antigo médio recorda um percurso atribulado depois de sair do clube leonino. Entrou no Sporting com 8 anos, em 1998, e percorreu todos os escalões de formação até chegar a sénior, em 2008. Pelo caminho, foi internacional sub-17 por Portugal. Despediu-se dos leões como campeão nacional de juniores, fez as malas e mudou-se para Espanha, seduzido por um convite do Bétis de Sevilha. Não foi feliz.

Bétis de Sevilha B, Ayia Napa (Chipre), Monsanto, Akritas Chiorakas (Chipre), Futebol Benfica, AE Koulion (Chipre), Vilafranquense e Costa do Sol (Moçambique). Em 2015, sem jogos nos escalões profissionais em Portugal mas com dois títulos como sénior no currículo - III Divisão em 2010/11 pelo Monsanto e Divisão de Honra da AF Lisboa em 2013/14 pelo Vilafranquense -, Vivaldo começa a sucumbir perante lesões. Primeiro o menisco, depois o tendão de Aquiles. Esteve perto de desistir. Em 2017, ainda esboçou um regresso aos relvados com a camisola do União de Santarém. Durou poucos meses.

Aos 28 anos, já depois de experimentar o futebol de praia pelo Estoril, arregaçou as mangas e começou a trabalhar. Esteve a ajudar um antigo colega da formação do Sporting num restaurante e dedicou-se em 2019 à manutenção de escolas para a Câmara Municipal de Cascais.

Esta é a história de Vivaldo Fernandes.

Maisfutebol – Vivaldo, em que momento da sua carreira é que sentiu que ia ter de pendurar as chuteiras?

Vivaldo Fernandes – Tive uma lesão no menisco no Vilafranquense, na época 2014/15, mas continuei a jogar com algumas limitações. A época acabou, fui para Moçambique, pensando que era uma lesão que podia ser tratada facilmente, mas não, o joelho inchava quando treinava, o joelho inchava quando jogava, aparecia líquido, foi quando se decidiu que eu tinha de voltar a Portugal para ser operado e acompanhado.

MF – O que aconteceu depois?

VF - Regressei a Portugal, fui operado e depois fui acompanhado pelos médicos do Rio Ave. Quando estava a fazer a recuperação da operação ao menisco, deu-se a rotura no tendão de Aquiles. Foi muito difícil psicologicamente. Na fase em que me sentia melhor, com 26/27 anos, foi quando começaram a surgir essas lesões. Mentalmente, não tinha forças para continuar.

MF – Mas ainda jogou pelo União de Santarém na época 2017/18. Sentiu-se melhor?

VF - Já estava um pouco desgastado devido às lesões que tinha tido anteriormente. Fisicamente senti-me bem, melhor do que pensava que estava. Mas derivado a pequenos problemas, mentalmente se calhar não estava preparado para voltar a jogar e acabei por ficar muito pouco tempo no União de Santarém.

MF – Depois experimentou o futebol de praia?

VF – Exato, joguei futebol de praia pelo Estoril, já depois do União de Santarém. Disputei a segunda divisão. Aquilo é muito diferente, até comentava com os meus companheiros de equipa que a minha praia é mesmo a relva. Mas depois desse verão fui trabalhar.

MF – Hoje em dia, arrepende-se dessa decisão?

VF - Arrependo-me porque acreditava que ainda podia dar muito mais. Aliás, ainda acredito, se tivesse um bom acompanhamento, uma boa recuperação, principalmente física e talvez mental, acredito que ainda fosse capaz de dar alguma coisa ao futebol. Gostava de voltar, mas para isso tinha de ser com pessoas que acreditassem em mim, que me ajudassem em vários aspetos, mentais e físicos, e que não me avaliassem pelo passado, que se calhar também foi culpa minha.

MF – Em que é que começou a trabalhar?

VF - Saí do União de Santarém, fiz o torneio de futebol de praia no verão pelo Estoril e depois arranjei um biscate com um amigo, também ex-jogador da formação do Sporting que abriu um restaurante. Depois, foi quando surgiu a oportunidade de entrar na Câmara Municipal de Cascais.

MF – Como foi a adaptação ao trabalho na manutenção de escolas?

VF - É muito complicado. Temos de ser fortes, estamos a fazer uma coisa completamente desconhecida, nova para nós. Não é fácil mas temos de nos adaptar, porque faz parte da vida. Faço manutenção de escolas e muitas das vezes sou motorista dos colegas que vão fazer essas manutenções, seja afixar janelas, arranjar o ar condicionado, aquecedores, enfim, fazemos tudo o que for preciso nessa área. Claro que eu não sabia fazer nada disso, eu até pensava que eram as contínuas que faziam tudo (risos)! É uma experiência nova e muito enriquecedora, serve para crescer e neste momento, é o meu ganha-pão, é desse trabalho que sobrevivo e não tenho vergonha nenhuma, pelo contrário.

MF – Com as escolas fechadas nesta altura, o que tem feito?

VF - Neste momento estou parado, muito raramente sou chamado e quando sou, é para desinfetar as escolas, todo equipado.

MF – Continua a ser reconhecido pelas pessoas?

VF – Sim, sim, nesta zona reconhecem-me muito. Há muita gente que ia ver os jogos da formação do Sporting, também das seleções jovens, que ainda me reconhece. É algo que me deixa muito contente, porque percebo que pouco ou muito, consegui fazer alguma coisa.

MF – E voltando atrás, a essa formação no Sporting. Quando é que começou?

VF - Entrei no Sporting com 8 anos. Eu apanhei a fase em que não tínhamos nada, em que íamos a vários campos para treinar, íamos à Encarnação, à Torre, depois a Pina Manique até chegarmos a Alcochete. Quando chegámos à Academia de Alcochete, parecia que estávamos a entrar no paraíso. Tudo relvinha...as pessoas se calhar não se lembram, mas na altura era quase tudo pelados.

MF - Como eram as viagens entre Lisboa e Alcochete?

VF - Fiquei a morar na Academia só um ano, de resto a viagem era sempre de Oeiras onde nasci, depois de Rio de Mouro, para onde me mudei, para Alcochete. Foi nessas viagens por exemplo que convivi quase diariamente com o Nani, íamos todos os dias de comboio juntos, também o Miguel Veloso, o Silvestre Varela, íamos todos de transportes. Naquela altura ninguém sabia quem ia lá chegar, estávamos todos no mesmo barco. Eram viagens fantásticas. Apanhei também o Rui Patrício, o Adrien, o João Moutinho, o Cédric, que era mais novo. O João Mário e o William Carvalho já são de outra geração, mas privei com todos.

MF – Com quem é que convivia mais nesses trajetos?

VF – Com o Nani, que é um pouco mais velho. O Nani era sempre o brincalhão, sempre a cantar. Posso contar uma história muito engraçada. O Nani ainda estava nos juniores e havia uma rapariga bonita que trabalhava no Metro, cruzávamo-nos quase todos os dias mas ela dava muito pouca confiança ao Nani. Quando ele chegou à equipa principal, ela veio-me perguntar se aquele número 18 era o moço que passava ali todos os dias, o Nani, e pediu-me o número de telefone dele. Mas aí o Nani disse: ‘Naaa, agora já não quero’. Já não precisava, já estava cheio delas (risos).

MF – E que jogadores podiam ter chegado ao topo mas ficaram pelo caminho?

VF – Acima de todos, o Fábio Paim, que é o meu melhor amigo. Aliás, até estou a dar esta entrevista a partir da casa dele. Depois, temos o Bruno Matias, que ainda chegou a jogar na II Liga mas que depois foi para o Luxemburgo, o Alisson Almeida, o João Martins, jogadores que podiam ter chegado mais alto. Fomos campeões de juniores contra o FC Porto, no meu segundo ano, com um golo do Diogo Rosado, outro jogador que podia ter chegado ao topo.

MF – Se tiver de fazer um onze de jogadores com quem jogou na formação do Sporting, qual seria?

VF - Rui Patrício na baliza, como é óbvio, depois o Cédric na direita, o Daniel Carriço e o Marco Lança no centro e o Tiago Pinto na esquerda. No meio-campo, metia o Adrien, eu como é óbvio (risos) e o João Martins. Na frente, Fábio Paim na esquerda, Wallyson na direita e Wilson Eduardo no centro.

MF – Quando chegou a sénior, saiu do Sporting e foi para o Bétis de Sevilha, onde acabou por jogar na equipa B. Como avalia essa mudança?

VF – Ir para o Bétis, mesmo sendo um grande clube de Espanha, para mim foi um choque. Estava habituado a uma Academia onde era protegido, onde estava há dez ou onze anos, e quando cheguei a Espanha senti-me desamparado, como quando um filho sai de casa dos pais, sem saber como vai ser o futuro. Senti-me sozinho e talvez por isso também as coisas não correram bem, porque não tive do Bétis um acompanhamento, principalmente psicológico, para poder evoluir.

MF – Acha que ir para Espanha, então, foi um erro?

VF - A decisão de ir para o Bétis se calhar não foi a mais correta. Foi mais por questões financeiras que desportivas, se calhar. Na altura, o treinador do Fátima, o Rui Vitória, já tinha falado com o Sporting, estava tudo acertado para o meu empréstimo, o Fátima subiu da II Divisão B à II Liga com vários colegas meus da seleção. Na altura, não tomei a decisão mais correta, foi se calhar o primeiro erro que cometi. Mas serviu de aprendizagem.

MF – Sente que essa fase de transição é decisiva para os jovens?

VF - É complicado para um jovem que sai de um grande clube, onde passa dez ou onze anos, em que se tem tudo do bom e do melhor, e depois chega a outros clubes, mesmo da Liga, que não têm as condições de um Sporting, Benfica ou FC Porto, ou neste momento também o Sp. Braga. Nesse momento é que os jovens precisam de acompanhamento, porque o choque é grande e é fácil um jovem perder a motivação.

MF – Será por isso que tantos jogadores jovens se perdem nessa altura?

VF - Havia uma frase que o Sr. Aurélio Pereira dizia sempre: os jogadores são todos iguais da cabeça para baixo, o que muda é a cabeça. Acredito muito nisso. A qualidade técnica e tática, isso são pormenores, o jogador tem principalmente de ser forte mentalmente. Essa frase ficou-me sempre gravada até hoje.

MF – Acha que o grande erro da sua carreira foi a mudança para o Bétis?

VF - O Bétis correu mal, foi uma decisão mal tomada na altura, mas depois ainda tive várias oportunidades. Estive em Chipre, por exemplo, onde até estive muito bem. Mais tarde apareceu o Vilafranquense, fiquei muito agradecido por tudo o que fizeram, mas depois as lesões também não ajudaram. Muito sinceramente, o momento que mais me custou foi quando tive a lesão no tendão de Aquiles, nesse momento estava muito bem, física e mentalmente, até porque estava a ter o apoio do Rio Ave. Quando me rebenta o tendão, é quando vem tudo abaixo.

MF – Para terminar, que balanço faz da sua carreira?

É um sabor agridoce. Fico feliz porque consegui cumprir alguns objetivos, viajei muito, conheci muitas pessoas, mas sei que podia ter dado um bocadinho mais. É claro que é um pouco difícil lidar com isso, mas faz parte, mais uma vez.



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