Mais de metade dos inquiridos em Portugal quer regresso do serviço militar obrigatório e criação de um exército único europeu, revela novo estudo

13 jul, 07:00
Militares

Investigadores da Universidade Lusófona concluiram que a guerra na Ucrânia está a ter impato na opinião dos portugueses sobre a defesa do país. Regresso ao serviço militar obrigatório tem muito apoio entre os mais velhos, enquanto o exército europeu é defendido pelos cidadãos politicamente mais ao centro

Mais de metade dos inquiridos estão a favor do regresso do serviço militar obrigatório (SMO) e da criação de um exército único europeu, revela um novo estudo feito por investigadores da Universidade Lusófona a que a CNN Portugal teve acesso em primeira mão. De acordo com a investigação, 52,35% dos inquiridos “concorda” ou “concorda totalmente” com o regresso do SMO, que vigorou em Portugal até 2004. Só 32,75% dos portugueses referiu “discordar” ou “discordar totalmente” deste tipo de decisão. 

Na mesma linha, revelaram-se as atitudes face à criação de um exército único europeu , com mais de metade dos portugueses (55.83%) a referir que a criação deste mecanismo ajudaria a União Europeia a reduzir significativamente a sua dependência relativamente aos Estados Unidos. Aliás, 73.94% dos portugueses considera que o exército único europeu contribuiria para uma maior afirmação da UE no mundo.

O estudo, feito pelos investigadores do Centro de Investigação em Ciência Política, Relações Internacionais e Segurança da Universidade Lusófona José Carochinho e Gonçalo Duarte Silva, analisou as respostas de 403 pessoas (267 homens e 136 mulheres)desde o eclodir da invasão russa à Ucrânia e chegou também à conclusão de que as gerações mais velhas têm uma maior predisposição para concordar com o regresso do SMO e com a criação do exército único europeu. 

Faixa etária e identificação política influenciam resultados

“Verificámos que, à medida que a faixa etária aumenta, a atitude sobre estas questões é melhor. As pessoas na casa dos 50 aos 60 anos que de alguma forma cumpriram o serviço militar obrigatório têm respostas mais positivas do que as gerações mais jovens”, explica José Carochinho, acrescentando que, no caso do regresso do SMO, não houve diferenças expressivas em função das tendência políticas dos inquiridos. “Todos eles têm atitude favorável, sendo que este valor é maior naqueles que se identificam com partidos mais à direita e que estão normalmente mais preocupados com valores securitários”.

A análise, segundo os investigadores, contou com a participação de portugueses de várias faixas etárias (com um mínimo de 18 e um máximo de 72 anos). A maioria é, porém, residente em meio urbano (88,1%) e tem licenciatura ou um grau académico superior.


Se o apoio ao serviço militar obrigatório varia com a idade, a defesa de um exército único europeu está mais relacionado com identificação política. Ou seja, a maior parte dos que apoiam a criação desse exército estão colocados ao centro no espectro político, revela Carochinho. “Nesta questão, há diferenças relativamente aos perfis de quem defende o SMO. Quem é de esquerda é contra e quem é de direita também, são os indivíduos colocados ao centro que são manifestamente a favor”. O investigador da Universidade Lusófona afirma também que as atitudes em torno da criação do mecanismo de defesa europeu mudaram por causa da guerra na Ucrânia. Isto porque em 2021 foi feito na mesma universidade um estudo face ao exército único europeu em que as atitudes “aproximavam-se, mas ainda não eram de total favorabilidade". "Naturalmente, que a guerra teve a sua influência”, refere.

Nos últimos meses o tema de um possível regresso ao serviço militar obrigatório foi posto na ordem do dia por causa da guerra na Ucrânia. Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa garantiram ambos que a questão não estava na mesa e a ministra da Defesa Nacional Helena Carreiras foi ao Parlmento esclarecer que a reinstituição do SMO “não tem sentido” e “não é oportuna para o Governo”. 

Associação assume regresso do serviço militar obrigatório

Contudo, na reunião que Helena Carreiras teve em maio com a Associação dos Oficiais das Forças Armadas, que se assume contra o regresso do serviço militar obrigatório, recebeu um aviso, segundo conta o presidente da AOFA, Tenente-Coronel António Costa Mota, à CNN Portugal. “Se continuarem a degradar as Forças Armadas e continuarem sem criar melhores condições para as pessoas entrarem e se manterem na carreira militar, então a única solução é o serviço militar obrigatório”. Costa Mota acrescenta que o país pode estar em risco de ter de tomar uma decisão difícil pela acentuada perda de efetivos nos últimos anos. “As condições continuam a defenhar de tal forma que, ou se deixa morrer as Forças Armadas, ou regressa o serviço militar obrigatório”.

Costa Mota assume também que o tema é divisor nas fileiras do Exército, Força Aérea e Marinha e, na mesma linha do estudo da Universidade Lusófona, “é a faixa etária mais velha que se tem mostrado mais favorável ao regresso do serviço militar obrigatório”. “Há um grupo muito grande de homens, que fizeram o SMO e que, tendo conhecimento das dificuldades que as Forças Armadas estão a passar, dizem que essa é a solução, como instinto de sobrevivência”.

Por outro lado, num momento em que a discussão tem corrido a Europa e que a Roménia, na semana passada, foi o último país a instaurar o serviço militar obrigatório por afirmar que existe uma ameaça direta ao país, o Major-Genral Agostinho Costa, Vice-Presidente da EuroDefense, garante que em países como Portugal, a “guerra é uma coisa demasiado séria para ser entregue aos amadores sem que esteja em causa um risco sério para o país”.

A ideia, explica, “não faz sentido nenhum”, também por causa da relação custo-benefício. É que, como explica Agostinho Costa, uma peça de artilharia CAESAR custa 7 milhões de euros. E colocar 7 milhões de euros a quem tem um treino de 4 meses de tropa, ou um carro de combate de centenas de milhares de euros a quem tem 3 meses de experiência, não é solução”.

O Major-General garante também que o regresso do serviço militar obrigatório tem sido propulsado para a discussão pública também por uma “ideia nostálgica que vê as Forças Armadas como complemento de educação”. “Já não é preciso ir para a tropa para aprender boas maneiras. As pessoas julgam que a tropa é uma casa de correção, mas não é. São fundamentalmente um grupo gregário que emprega a força de forma regulada pelo Estado de Direito. Pensar que são um complemento para a educação é uma desqualificação das famílias e da própria educação”, explica.

Exército único europeu pode implicar mudanças ao juramento de bandeira

Já relativamente ao exército único europeu, que 73.94% dos inquiridos do estudo da Universidade Lusófona considera ser essencial para a afirmação da União Europeia no teatro internacional, o Major-General diz ser um objetivo que deve estar no topo das prioridades de Ursula Von der Leyen. “Há uma percepção dentro dos países da comunidade que a União Europeia nunca se conseguirá afirmar como potência enquanto não tiver um músculo a montante”, refere o Major-General, garantindo, por outro lado, que a criação deste exército tem sido travada por uma “ideia soberanista na qual Portugal tem alinhado em pensar que, havendo um exército europeu, a soberania do país estaria em risco”. Agostinho Costa justifica ainda que a existência de um exército único europeu “não implica a extinção dos exércitos nacionais” e que as Forças Armadas continuariam a operar “no contexto dos seus interesses soberanos, como a fiscalização do espaço estratégico, tal como a vigilância marítima e aérea.

Já o tenente-coronel António Costa Mota reitera que, se o projeto para um exército único europeu acabar por avançar, “será um assunto extremamente fraturante” dentro das Forças Armadas. Segundo este militar, o próprio conceito deste exército pode levantar dúvidas e “implicar alterações ao juramento de bandeira” por deixar de se assumir apenas um compromisso de lealdade com o País, mas também com a UE. “Vai ser extremamente divisor, duvido que haja pessoas que estejam prontas a dar a vida por uma Europa, como hoje dão a vida pelo país”.

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