Esquivos, dissimulados, cruéis: 7 dos criminosos mais procurados do mundo

8 dez 2021, 07:00
Ruja Ignatova (Facebook OneCoin)
Ruja Ignatova (Facebook OneCoin)

Desde traficantes de droga a terroristas, passando por hackers e esquemas ponzi, o mal assume muitas formas

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O ANTIDISCRETO: MAKSIM YAKUBETS
Começamos por um hacker que, ao contrário da maioria dos presentes nesta lista, não necessita de viver escondido. Já lá chegaremos.

Maksim Yakubets (FBI)
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Segundo o FBI, Yakubets é responsável pelo roubo de centenas de milhões de dólares na Europa e América do Norte através de um vasto arsenal de malwares.

No final da década de 2000, o jovem excêntrico russo esteve envolvido na distribuição do Zeus, um vírus usado para capturar as informações bancárias das vítimas. Nos Estados Unidos, este malware afetou municípios, bancos, organizações sem fins lucrativos e até uma congregação religiosa, tendo conseguido roubar 70 milhões de dólares, cerca de 60 milhões de euros.

De acordo com o Departamento de Justiça norte-americano numa acusação feita em 2019, Yakubets, que na altura usava a alcunha ‘aqua’, era o responsável por arranjar “mulas de dinheiro e credenciais bancárias de modo a facilitar os movimentos de dinheiro roubado às contas das vítimas através de meios fraudulentos”.

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Contudo, o salto para a fama deu-se em 2009, quando fundou a Evil Corp, um dos grupos de hackers mais reputados de sempre, responsável pela criação do ‘trojan’ Bugat, também conhecido como Dridex ou Cridex.

Yakubets, afirma o FBI, foi o responsável pelo “desenvolvimento, manutenção e distribuição do vírus”, tendo sido formalmente acusado em novembro de 2019 nos EUA de conspiração, conspiração para cometer fraude, fraude por correspondência, fraude bancária e dano intencional a computador.

Na mesma altura, o Departamento de Estado norte-americano anunciou que ofereceria uma recompensa de mais de 4 milhões de euros a quem fornecesse informações que conduziriam ao paradeiro de Yakubets.

Perante as acusações e a quantia generosa providenciada pelas autoridades americanas, seria de esperar que o hacker se resguardasse e tentasse viver de modo mais discreto. Contudo, não é esse o caso.

Yakubets aparenta levar uma vida de influencer. Numa série de tweets publicados pela National Crime Agency (NCA), do Reino Unido, é possível ver o hacker a brincar com um leão bebé, a falar calmamente com um polícia nas ruas de Moscovo e a conduzir um Lamborghini com uma matrícula personalizada com a palavra “ladrão”. 

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Segundo o governo norte-americano, Maksim Yakubets começou a trabalhar para os serviços secretos russos, o FSB, em 2017. No ano seguinte estava em processo de obter uma licença para aceder a informações confidenciais da instituição.

O seu luxuoso casamento, que terá custado 300 mil euros, fez aumentar as suspeitas da sua ligação à agência russa. De acordo com a Bloomberg, o pai da sua noiva, Eduard Bendersky, detém várias empresas ligadas ao FSB.

“Se Maksim Yakubets deixar a segurança da Rússia, será imediatamente detido e extraditado para os Estados Unidos”, garantiu a NCA. Como as coisas estão, tem todos os motivos para não o fazer.

UM GENOCIDA SEM REMORSOS: PROTAIS MPIRANYA
Durante cerca de duas décadas, o homem mais procurado entre os envolvidos no genocídio do Ruanda foi Félicien Kabuga. Com a detenção em 2020, em Paris, do financiador da atrocidade, já na idade avançada de 87 anos, as atenções das autoridades internacionais voltaram-se para outro homem: Protais Mpiranya.

De acordo com o Tribunal Penal Internacional para o Ruanda (ICTR), extinto em 2015, Mpiranya começou a preparar o genocídio dos tutsis no início da guerra civil no país, no final de 1990, armando e treinando a Interhamwe e outras milícias paramilitares hutus.

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A paz entre governo hutu, liderado por Juvénal Habiyarimana, e as forças tutsis da Frente Patriótica Ruandesa, assinada nos Acordos de Arusha em 1993, não convenceu os mais extremistas de ambos os lados, incluindo Mpiranya, que nesse ano ascendeu a comandante da Guarda Presidencial das Forças Armadas do Ruanda.

O assassinato da Habiyarimana a 6 de julho de 1994, em circunstâncias não totalmente apuradas, foi o catalisador do genocídio e espoletou o início das violentas ofensivas de Protais Mpiranya contra tutsis e hutus moderados.

Protais Mpiranya (Departamento de Estado dos EUA)

No dia seguinte à morte do presidente, ele e mais dois oficiais do exército ordenaram aos seus subordinados que procurassem e matassem a primeira-ministra Agathe Uwilingiyimana, a chefe de Estado provisória do Ruanda.

Além de ter sido brutalmente assassinada, Uwilingiyimana foi violada e o seu corpo deixado descoberto no meio da rua. Mas as mortes não pararam aí. Os homens de Mpiranya tiraram também a vida a dez soldados belgas da Nações Unidas responsáveis pela proteção da primeira-minsitra, ao presidente do Tribunal Constitucional e a vários membros do Governo e políticos ruandeses.

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A vitória da Frente Patriótica Ruandesa, que pôs fim ao genocídio, obrigou Mpiranya ao exílio. Numa primeira fase rumou à República Democrática do Congo, onde terá combatido ao lado das forças congolesas contra o exército do Ruanda nas várias guerras que assolaram o país no final da década de 1990 e início do novo milénio.

Em 2002 foi formalmente acusado pelo ICTR de genocídio, crimes contra a Humanidade e crimes de guerra. Por volta dessa altura, as autoridades suspeitam que terá rumado ao sul de África, mais concretamente para o Zimbabwe, onde terá estabelecido contactos com oficiais do país para garantir a sua proteção. Mpiranya terá também estado envolvido na compra e tráfico de armas para o exército do país, então liderado por Robert Mugabe.

Com a extinção do ICTR, cabe ao Mecanismo Internacional para Tribunais Penais (MICT) “caçar” o fugitivo ruandês. Serge Brammertz, procurador do organismo, acredita que Mpiranya ainda está vivo.

“Dado o seu histórico militar, é bem possível que ainda disponha de proteção de oficiais seniores do exército [do Zimbabwe]. Pensamos que ele continua ativo, a fazer negócios e, até muito recentemente, continuava a movimentar-se pelo centro e sul de África, possivelmente entre o Zimbabwe, a República Democrática do Congo e a África do Sul”, afirmou Brammertz, em declarações ao “Guardian”.

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Contudo, a falta de cooperação destes países constitui um entrave ao MICT. Com a deposição de Robert Mugabe em novembro de 2017, as autoridades esperavam mais colaboração do novo regime do Zimbabwe, algo que não veio a acontecer. Atualmente, Protais Mpiranya continua em fuga.

DE DELINQUENTE LOCAL A TERRORISTA: DAWOOD IBRAHIM
É bem normal que este nome não diga nada aos leitores ocidentais. Contudo, para quem é de Bombaim, só ouvir o nome Dawood Ibrahim é suficiente para despertar um medo e raiva paralisantes.

Muçulmano e filho de um polícia, Ibrahim iniciou a sua carreira no mundo do crime como muitos outros, roubando lojas e trabalhando para os mafiosos locais. No início dos anos 80, após a morte do seu irmão e parceiro, formou o seu próprio gangue, ao qual a imprensa indiana veio a chamar D-Company.

Dawood Ibrahim (AP)

Durante essa década, o grupo fez da maior cidade indiana o seu recreio. Tráfico de droga, apostas ilegais, comércio de eletrodomésticos, tudo era controlado pela D-Company. Pequenos e grandes comerciantes e até a polícia eram extorquidos pelo gangue. Para escapar a eventuais acusações, Ibrahim fugiu para o Dubai em 1986, de onde continuou a comandar a organização. Mas o grande golpe estava para vir.

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Em 1992, extremistas hindus destruíram a mesquita de Babri, construída no séc. XVI no local sagrado onde terá nascido Rama, uma das mais importantes divindades do hinduísmo. Durante os protestos que se seguiram, em Bombaim, mais de 500 muçulmanos perderam a vida. Para Ibrahim, a violência perpetrada contra os seus era o pretexto perfeito para reforçar a sua autoridade.

A 12 de março do ano seguinte, uma violência sem precedentes assolou Bombaim. 13 bombas explodiram em locais como a Bolsa da cidade, a sede da Air India e as instalações do Shiv Sena, partido de extrema-direita hindu considerado um dos grandes instigadores da destruição da mesquita. 257 pessoas morreram e cerca de 800 ficaram feridas. A D-Company, além de ser uma importante peça do mundo financeiro, passou a ser um temível ator político.

Naturalmente, a ‘caça’ a um dos homens mais procurados da Ásia passou a ser levada com muito maior afinco. Dado o Dubai e a maioria dos países do Golfo Pérsico ter acordos de extradição com a Índia, Ibrahim rumou ao Paquistão, mais concretamente para a cidade de Karachi, algo que as autoridades do país negaram.

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Lá, além de continuar a gerir as operações da D-Company, terá desenvolvido ligações, financiado e armado grupos terroristas, designadamente a Al-Qaeda e a rede Lashkar-e-Taiba, esta última responsável por novos ataques em Bombaim, no ano de 2008, que vitimaram 175 pessoas.

O seu maior envolvimento em atividades terroristas despertou a atenção das autoridades internacionais. Em 2011, chegou mesmo a estar na lista de mais procurados do país e mantém-se como um dos mais procurados pela Interpol. Entretanto, no país natal, a recompensa por informações que levem à sua captura ascendeu a 22 milhões de euros.

Rescaldo dos ataques de 1993 em Bombaim (AP)

No Paquistão, Ibrahim viverá “como um rei”, descreveu o jornalista Ghulam Hasnain, raptado em 2002 após uma série de artigos sobre a vida e os negócios do terrorista. “Vive num palácio com cinco mil metros quadrados, com piscina, campos de ténis, sala de snooker e ginásio e conduz vários Mercedes topo de gama”, afirmou.

Contudo, nada será como em casa. “Bombaim era Bombaim. Lá tínhamos tudo. Aqui não podemos ter a vida e a diversão que tínhamos na Índia”, afirmou um dos seus associados, citado pela BBC.

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Afastado da maioria dos familiares, Dawood Ibrahim continua, no entanto, em contacto com os que ficaram na Índia. Em 2016, assistiu via Skype ao casamento do seu sobrinho, evento altamente monitorizado pelas autoridades do país.

No ano passado, o Paquistão finalmente admitiu que Ibrahim se encontrava a viver no país, publicando o seu nome numa lista de terroristas alvo de sanções. Apesar disso, e de na lista constar a sua morada, nenhuma ação foi levada a cabo para o deter. Dawood Ibrahim continua livre e a gerir os seus negócios.

O GRANDE COMPANHEIRO DE BIN LADEN: AYMAN AL-ZAWAHIRI
Ayman al-Zawahiri nasceu no seio de uma família abastada do Cairo, filho de um médico e neto de vários intelectuais islâmicos. Descrito pelo tio como um “bom muçulmano, sempre disposto a ir rezar para a mesquita”, juntou-se à Irmandade Muçulmana com apenas 14 anos, inspirado por um dos membros mais proeminentes da organização, Sayyid Qutb.

Ayman al-Zawahiri (AP)

Com a execução deste em 1966, por ter planeado o assassinato do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, al-Zawahiri fundou, juntamente com outros estudantes, uma célula dedicada a derrubar o governo do país e a estabelecer uma sociedade islâmica. Esta célula, como algumas outras, acabou por se juntar à jihad islâmica, grupo que veio a liderar mais tarde.

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A década de 1980 foi decisiva para o médico-cirurgião. Nos anos seguintes a ter saído da prisão, numa detenção relacionada com o assassinato de Anwar Sadat, presidente egípcio que negociou a paz com Israel, al-Zahawiri rumou ao Afeganistão, onde combateu ao lado dos mujahideen contra a União Soviética. Foi também a década durante a qual conheceu o futuro parceiro no terror, Osama bin Laden.

A sua liderança da jihad islâmica foi marcada por derrotas. Apesar de ter conseguido atacar a embaixada egípcia em Islamabad, matando 16 pessoas, a organização falhou três atentados contra líderes políticos, incluindo um à presidência do seu país natal, liderada por Hosni Mubarak.

A fama internacional chegou em 1998. A fusão com a Al-Qaeda provou-se frutífera e os grupos atentaram com sucesso contra duas embaixadas americanas na África Oriental, em Dar es Salaam, na Tanzânia, e na capital queniana, Nairobi, provocando a morte a 224 pessoas. O nome de al-Zawahiri foi pela primeira vez falado nos Estados Unidos e bin Laden foi colocado na lista dos mais procurados do FBI.

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Baixa de Nairóbi após o ataque terrorista da Al-Qaeda em 1998 (AP)

A retaliação americana aos atentados do 11 de Setembro devastou a família do terrorista. Em dezembro de 2001, um ataque norte-americano no Afeganistão matou a sua primeira mulher e três dos seus filhos. al-Zawahiri, cuja recompensa do Departamento de Estado dos EUA pela sua captura passou a estar cifrada nos 22 milhões de euros, foi obrigado a refugiar-se.

Pouco se falou do egípcio até 2011, quando foi apontado como líder da Al-Qaeda após o assassinato de bin Laden às mãos dos Navy Seals americanos. A morte do fundador e líder eterno enfraqueceu o grupo e, com exceção dos ataques ao Charlie Hebdo, levados a cabo pelo seu satélite da Península Arábica, a Al-Qaeda tem sido incapaz de atacar o mundo ocidental.

Olhando para a vida de al-Zahawiri, subsistem mais dúvidas que certezas. O seu alegado envolvimento com os serviços secretos russos, denunciado pelo malogrado Alexander Litvinenko, e as ligações ao regime iraniano, no pós-Revolução de 1979, carecem de corroboração. Não só é o seu paradeiro desconhecido, como também se teoriza que pode já ter falecido. Até haver confirmação da sua morte, al-Zahawiri será um dos mais procurados do mundo.

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A RAINHA DAS CRIPTOMOEDAS: RUJA IGNATOVA
Tendo estudado em Oxford e obtido um doutoramento em Direito Privado Europeu pela Universidade de Kontanz, na Alemanha, não será de estranhar que a única mulher desta lista tenha encontrado o sucesso. Os meios com que o alcançou são, contudo, para lá de dúbios.

Ruja Ignatova (Facebook)

Em 2014 criou a OneCoin, uma suposta criptomoeda que rivalizaria com a original e mais conhecida Bitcoin. O negócio prometia aos investidores retornos astronómicos e Ignatova, num dos muitos eventos de promoção do esquema, garantiu que em dois anos “ninguém iria ouvir falar em Bitcoins”.

A OneCoin foi um sucesso instantâneo. Milhares de investidores de mais de 170 países “despejaram” dinheiro na moeda através da compra de cursos online sobre criptomoedas e tokens - estes últimos podiam ser usados para minerar OneCoins.

Apesar de múltiplos alertas por parte de autoridades financeiras e bancos nacionais para o facto de a OneCoin ser um esquema de Ponzi, o negócio foi de vento em popa. Entre 2014 e 2016 a plataforma terá gerado lucros de 3,5 mil milhões de euros.

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Todo este dinheiro fez de Ignatova uma mulher muito rica. Podia ser vista a frequentar os restaurantes mais caros e a comprar as roupas e joias mais extravagantes nas lojas mais exclusivas de Londres. Na sua penthouse de 16 milhões de euros na capital inglesa, várias obras de arte de artistas como Andy Warhol e Michael Mobius decoravam as vastas paredes.

Mas, como todos os esquemas ponzi, a OneCoin foi eventualmente desmascarada. O dinheiro era feito pela angariação de novos clientes e não pela valorização da moeda. O trading fora da plataforma não era possível, pelo que, quando esta encerrou, em janeiro de 2017, milhares ficaram sem acesso ao dinheiro que depositaram.

Talvez o aspeto mais curioso de toda esta história seja o facto de nem sequer haver uma criptomoeda. A plataforma não dispunha de um blockchain, ferramenta indispensável para uma criptomoeda credível. A mineração de moedas era, de igual modo, falsa.

Escritório da OneCoin em Sófia (Ronny Martin Junnilainen)

Com a esquema a ser destapado, o cerco a Ignatova apertou. Em outubro de 2017, pouco após ser emitido um mandado para a sua detenção pelas autoridades americanas, Ignatova embarcou num voo da Ryanair de Sófia para Atenas. Desde então, o seu paradeiro é desconhecido.

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Alemanha, Grécia, Dubai e Rússia são alguns dos locais onde testemunhas e pessoas familiarizadas com o caso dizem que a búlgara passa a maior parte do tempo. A burlona terá também feito uma operação plástica, podendo passar despercebida no dia-a-dia.

Há quatro anos a monte, Ignatova será a última grande figura da OneCoin ainda não capturada. O cofundador, Sebastian Greenwood, foi detido na Tailândia em 2018 e, no ano seguinte, o irmão de Ignatova, Konstantin Ignatov, foi apanhado pelo FBI em Los Angeles, onde enfrenta 90 anos de cadeia.

Para melhor conhecer este caso, recomenda-se vivamente o podcast da BBC “The Missing Cryptoqueen”, de Jamie Bartlett, que conta em grande pormenor todos os detalhes do escândalo. Caso queira algo mais leve, pode sempre esperar pelo lançamento do filme “Fake!”, baseado nos eventos aqui descritos, e que terá Kate Winslet no papel principal.

UM TRAFICANTE “ABENÇOADO” PELA JUSTIÇA: RAFAEL CARO QUINTERO
De origens humildes, o mexicano chegou a ser um dos mais poderosos traficantes do mundo após criar e liderar o Cartel de Guadalajara. Segundo as autoridades americanas, a fortuna de Rafael Caro Quintero ultrapassou os 440 milhões de euros durante o seu auge. Contudo, alguns excessos ditaram uma queda ainda mais abrupta que a ascensão.

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Em janeiro de 1985, John Clay Walker e Albert Radelat, dois cidadãos americanos a residir em Guadalajara, foram brutalmente assassinados às mãos dos homens de Quintero, que suspeitava que ambos fossem agentes secretos ao serviço da DEA, a agência norte-americana de combate ao tráfico de droga.

Uma semana depois, Quintero acertou mesmo, ao raptar, torturar e matar Enrique Camarena, operativo da DEA responsável por uma rusga a um rancho do Cartel de Guadalajara, que valeu prejuízos de 140 milhões de euros à organização.

Rafael Caro Quintero em 2016 (FBI)

Sob forte pressão americana, a caça ao homem não parou até Quintero ser detido, em abril do mesmo ano, em San José, capital da Costa Rica, e extraditado para o México, onde lhe foi aplicada a sentença máxima na altura: 40 anos de cadeia.

Com a detenção, o Cartel de Guadalajara enfraqueceu e viria a dar origem a três outros grupos. Um desses é o Cartel de Sinaloa, amplamente considerado o mais poderoso da América no século XXI.

Numa reviravolta que desagradou à administração de Barack Obama, Quintero foi libertado em 2013, após um tribunal ter considerado ilegal o julgamento que o condenou.

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Pouco se sabe da vida do traficante mexicano desde então. Numa entrevista ao Huffington Post em 2018, Quintero, então com 65 anos de idade, negou as acusações de que lidera o Cartel de Sinaloa, garantindo “estar longe” da vida que o levou à prisão.

Apesar disso, as autoridades americanas continuam em busca do “Príncipe”, como é chamado, principalmente pelo assassinato do Camarena. Faz parte da lista dos 10 mais procurados do FBI, que oferece uma recompensa de quase 18 milhões de euros por informações que levem à sua captura, uma das mais altas oferecidas pelas entidades estatais do país.

O MAFIOSO IMPLACÁVEL: MATTEO MESSINA DENARO
Filho de pai mafioso, seria de esperar que Messina Denaro enveredasse pela mesma vida. Com apenas 18 anos cometeu o seu primeiro homicídio, ao qual terá juntado mais cerca de 50. “Consegui encher um cemitério sozinho” é a citação mais famosa atribuída a si, perfeita para ilustrar a crueldade singular do siciliano.

Conhecido como “Diabolik”, foi ascendendo muito jovem pela hierarquia da Cosa Nostra, ao “encostar” os mais velhos e eliminando potenciais competidores. Nos anos 90, contudo, a sua dureza transbordou os redutos da organização.

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Matteo Messina Denaro (Europol)

Giovanni Falcone e Paolo Borsellino eram dois juízes de Palermo. Atingiram o pico da notoriedade no final da década de 80 com o denominado Maxiprocesso, o maior julgamento de elementos associados à máfia até então realizado em Itália. No total, 338 pessoas foram condenadas.

Alguns anos volvidos, em 1992, foram ambos brutalmente assassinados, juntamente com familiares, em dois ataques à bomba. As autoridades acreditam que, apesar de não os ter ordenado, Messina Denaro foi fundamental no planeamento e execução dos atentados.

No ano seguinte, a detenção de Salvatore Riina, o capo dei capi à época, provocou uma resposta feroz de Messina Denaro, então tornado líder indiscutível da máfia siciliana. Uma série de explosões em Florença, Milão e Roma, já por ele diretamente orquestrada, vitimou 10 pessoas.

Foi já foragido da justiça, no entanto, que terá ordenado o assassínio mais brutal do seu reinado, em retaliação ao antigo fratello tornando informante Santino di Matteo. Como moeda de troca por ter prestado declarações às autoridades, mandou raptar o filho de di Matteo, Giuseppe, de apenas 12 anos.

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Após negociações falhadas e um longo cativeiro de 779 dias, Giuseppe foi morto e o seu corpo dissolvido em ácido, uma prática apelidada “lupara bianca.

Ao contrário da maioria dos listados, não há certezas quanto aos locais que Messina Denaro possa frequentar. Sim, a Sicília é a sua casa e é lá que tem o “negócio”. Mas as suas alegadas ligações a outras organizações criminosas podem permitir que circule por todo o mundo sem deixar rasto.

De facto, é notória a forma como tem conseguido escapar aos braços da lei, mesmo após sócios, amigos próximos e familiares, incluindo a irmã, terem sido detidos e condenados. Seja sorte ou astúcia, uma coisa é certa: o legado de Messina Denaro será difícil de superar.

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