Ronaldo nunca se viu nesta situação, e isso pode ser um bom sinal para Portugal

23 nov, 23:55
Cristiano Ronaldo (Getty Images)

O astro português está desempregado, no pior momento da carreira e mergulhado num mar de desconfiança. Por isso o Maisfutebol falou com três especialistas em performance desportiva para tentar compreender que jogador podemos esperar neste Mundial. Acima de tudo, há uma opinião unânime: a rescisão com o Manchester United foi a melhor coisa que lhe podia acontecer. A partir daqui, a cabeça de Ronaldo estará limpa e pronta para levar o corpo a procurar o que sempre quis. Superar-se a cada jogo.

Para a generalidade dos portugueses, Cristiano Ronaldo não tem muitos segredos. Sabemos o que o motiva, do que gosta, o que o irrita, como reage perante determinadas situações, enfim, conhecemos genericamente o perfil dele.

Afinal de contas, e como dizia o portista Lisandro Lopez há uns anos, em Portugal vê-se Ronaldo até na sopa.

Este Mundial, porém, coloca-nos perante uma situação nova e desconhecida.

Pela primeira vez, Cristiano Ronaldo está desempregado e a precisar de provar que merece um clube grande. Está também a querer mostrar que Ten Hag cometeu um erro quando o deixou tantas vezes no banco. E está, por fim, obrigado a confirmar que ainda é capaz de fazer a diferença, numa altura em que atravessa o pior momento da carreira.

Perante tudo isto, a dúvida é só uma: que Ronaldo esperar?

Ora para tentar perceber que jogador podemos ter frente ao Gana, a partir do muito que já conhecemos dele, o Maisfutebol falou com três especialistas habituados a estudar o que se passa na cabeça dos atletas, que é onde verdadeiramente se joga grande parte do futebol neste nível de intensidade.

Ana Bispo Ramires, por exemplo, diz que os sinais apontam para um planeamento bem delineado por parte da equipa que acompanha Cristiano Ronaldo.

«Nós não sabemos, mas o que se percebe é que as coisas estão a seguir uma estratégia, estão a ter um propósito que nós desconhecemos. O Cristiano Ronaldo começou por dar aquela entrevista, que conduziu a este desfecho de rescisão amigável do contrato», refere.

«Permanecer no contexto em que estava é que, sim, podia colocá-lo em risco»

A antiga psicóloga do Benfica, e atual coordenadora do Grupo de Atuação em Psicologia e Performance, adianta aliás que estar sem clube não parece uma ameaça para Ronaldo.

«Nós estamos a falar de um atleta que tem uma fortuna inimaginável, que tem uma estrutura à sua volta muito robusta, portanto o futuro dele não está minimamente em risco. Provavelmente, permanecer no contexto em que estava é que, sim, podia colocá-lo em risco, até do ponto de vista da saúde mental: podia ficar frustrado, triste e deprimido por não gostar de estar naquele clube», acrescenta.

«O que acontece é que, neste momento, a situação dele está resolvida e ainda bem que está resolvida. O passo que deu agora pode ser uma alavanca para estar mais em paz e totalmente concentrado na seleção. Portanto esta notícia de que o contrato seria rescindido num acordo de cavalheiros foi provavelmente a melhor notícia que ele podia ter neste momento.»

João Lameiras, psicólogo do desporto e da performance, tem a mesma opinião.

«É expectável que a rescisão amigável possa contribuir para uma diminuição da ansiedade e dos stress»

O especialista aponta, no entanto, para uma ressalva que é importante considerar: não será positivo se Cristiano Ronaldo enfrentar este mundial com um espírito de vingança pelo que Ten Hag lhe fez durante os últimos seis meses no clube.

«Pelo que é do domínio público, parece notório que a situação vivida pelo jogador no Manchester United estaria a ser indutora de ansiedade e stress, pelo que é expectável que a sua conclusão possa contribuir para uma diminuição destes estados emocionais, algo que pode ser facilitador de uma performance ao nível do potencial atual do atleta», refere.

«Apesar da situação e do Mundial poderem ser um fator suplementar de motivação, estes só o serão se perspetivados como desafios à superação individual do Cristiano Ronaldo, apelando à sua motivação intrínseca, e não como motivos de revanche ou de procura pela validação externa da sua competência.»

Até porque, acrescenta, Cristiano Ronaldo deixou há muito de ter de mostrar o que quer que fosse: o internacional português só tem a pressão de se superar a ele próprio a cada jogo.

«Enfrentar este Mundial como uma oportunidade para provar valor a alguém poderia converter-se em fonte de pressão e, consequentemente, em bloqueio do seu desempenho.» 

«Este tipo de atletas vai sempre para campo numa lógica de superação»

Ana Bispo Ramires não acredita que isso aconteça, de resto, porque diz que essa não é a matriz de perfil destes jogadores de exceção.

«No caso em questão, e nunca tendo trabalhado com este jogador, mas conhecendo bem o tipo de perfil, o que ressalta como mais evidente é que estes atletas vão sempre para campo numa lógica de superação. Independentemente do que seja que estiver à volta dele», sublinha.

«Quando vão para dentro de campo é sempre para que possa fazer melhor do que era a sua perceção anterior. Isso significa que muito frequentemente se blindam ao que externamente está a acontecer à sua volta. Neste caso em particular, e conhecendo as competências do atleta para gerir este tipo de pressão, pode resultar com que ele esteja muito mais focado no jogo.»

Luís Carvalho, psicólogo do desporto, acrescenta outro detalhe que pode ser muito importante: Ronaldo fez do treino mental um pilar da sua extraordinária carreira.

Foi a disciplina, a motivação, a capacidade de se querer ultrapassar em todos os jogos que o trouxe à posição de um dos melhores jogadores da história.

Por isso conseguiu superar-se em momentos fundamentais: os grandes clássicos com o Barcelona ou os os play-offs da Seleção Nacional de acesso a grandes competições internacionais, por exemplo.

«Acredito que após a decisão que tomou na semana passada, relativamente ao Manchester United, nada vai afetar o seu desempenho nas quatros linhas contra o Gana. O foco sempre foi a sua principal estratégia, juntamente com a autoconfiança, e essas competências vão estar seguramente na sua mente, exatamente como têm estado ao longo da carreira», refere.

«Acresce ainda que é um atleta/jogador que sabe lidar muito bem com as pressões externas. Nunca permite que afetem as suas capacidades, nomeadamente ao nível da competitividade e da concentração.»

«O treino mental tem sido uma ‘ferramenta fundamental’ para o sucesso de Ronaldo»

Depois, claro, há o resto: nós conhecemos Ronaldo e sabemos como ele reage. Lembrámo-nos do que fez, por exemplo, naquele jogo em Solna frente à Suécia antes do Mundial 2014.

«O treino mental tem sido uma ‘ferramenta fundamental’ para o seu rendimento e sucesso. É isso que o tem feito atingir excelentes resultados.»

No fundo, portanto, Ana Bispo Ramires, João Lameiras e Luís Carvalho convergem no essencial. Ainda que a situação seja nova, não é negativa: pelo contrário. Cristiano Ronaldo pode estar desempregado, sim, mas isso nesta altura só o vai deixar mais leve para se concentrar na que sempre foi a sua maior virtude: a capacidade de querer superar-se todos os dias.

O que significa que na cabeça do craque deverá estar tudo bem. Agora que venha o resto.

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