Penacova recupera "Enterro do Bacalhau", tradição proibida durante a ditadura

Agência Lusa , RL
8 abr, 11:44
Associação divulga "Enterro do Bacalhau", em Penacova

Cortejo satírico ocorre 90 anos depois da última celebração

Penacova celebra este ano o “Enterro do Bacalhau”, um cortejo satírico cuja festa acabou proibida durante o Estado Novo e que agora duas associações do concelho procuram recuperar, 90 anos depois da última celebração.

A associação cultural Partículas Soltas e o coro Vox et Communio retomam este ano, no Sábado de Aleluia (16 de abril), uma tradição de Penacova (e de outros pontos do país), que foi proibida pelo Estado Novo por ser vista como uma festa pagã, na qual se dava voz à sátira e à crítica social.

A tradição consiste num cortejo satírico, no qual populares, fartos de 40 dias a comer peixe por altura da Quaresma, decidem julgar o bacalhau (o peixe mais comido) e condená-lo à morte, explicou à agência Lusa a diretora artística da Partículas Soltas, Sandra Henriques.

A ideia surgiu depois de Sandra Henriques ter visto num jornal local crónicas do professor e profundo conhecedor da história de Penacova, David Almeida, que falava sobre o “Enterro do Bacalhau”.

Decidiu então investigar mais sobre o assunto e apercebeu-se que a tradição tinha sido interrompida em Penacova em 1932, por imposição do Estado Novo.

“Achámos que 90 anos depois já era tempo de se sair para a rua e brincar com isto”, vincou Sandra Henriques, referindo que estarão cerca de 50 pessoas envolvidas na encenação.

Com os mais ricos a poderem comer carne se pagassem a bula à Igreja, aquela manifestação popular, tida como espontânea, era encabeçada por gente mais pobre e também por “pessoas antissistema, que aproveitavam o cortejo para fazer uma espécie de manifestação”, aclarou.

A crítica social e a sátira voltarão a estar presentes no cortejo inicial, que vai arrancar junto à Câmara Municipal de Penacova, pelas 16:00, com um caixão enfeitado com cebolas e alhos.

“Depois, há o julgamento, em que recuperamos textos antigos, escritos em quadra, em que se condena o bacalhau porque cheira mal, porque vai sempre parar ao prato das pessoas. Há também quem defenda o bacalhau e quem chore por ele, como é o caso da Quaresma, do alho ou do azeite, mas o próprio tribunal quer condená-lo – é um tribunal pouco imparcial”, contou Sandra Henriques.

Após a condenação, segue-se um cortejo fúnebre, com o bacalhau a ser sepultado junto ao Cruzeiro de Penacova, acompanhado de um coro que vai fazer as vezes das carpideiras.

Sandra Henriques disse esperar que no futuro outras associações e pessoas de Penacova se juntem ao “Enterro do Bacalhau” para o ajudar a crescer.

“Queremos que o mesmo espírito se mantenha, que seja uma coisa espontânea e tosca, sem ser muito trabalhado”, salientou.

No julgamento, o próprio bacalhau terá também oportunidade de se defender, argumentando que “entra em qualquer casa” e que tanto está num banquete como acompanha a pinga da taberna, mas acaba por ser condenado.

“Foram 40 dias muito longos”, brincou Sandra Henriques, notando que, ainda assim, haverá populares a defendê-lo, que mesmo com 40 dias seguidos a comer bacalhau, há muitas formas de o arranjar.

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