Com milhões de munições para vender, Kim Jong-un pode ser o novo melhor amigo de Vladimir Putin

7 set, 04:56
Kim Jong-un e Vladimir Putin

EUA confirmam que Moscovo se está a preparar para compras massivas de foguetes e munições de artilharia à Coreia do Norte, violando o embargo da ONU que a própria Rússia aprovou. Um sinal de desespero de Putin?

A Casa Branca confirmou nesta terça-feira que a Rússia pode estar prestes a comprar "literalmente milhões" de foguetes e ogivas de artilharia à Coreia do Norte, o que as autoridades norte-americanas e observadores internacionais interpretam como uma prova do “desespero” de Vladimir Putin, que não está a conseguir repor material de guerra por causa dos embargos decretados pelos EUA, UE e outras democracias aliadas da Ucrânia. Se concretizar estas compras, Putin estará a violar a proibição internacional de compra de armas à Coreia do Norte, que foi aprovada pelas Nações Unidas com o apoio da própria Rússia, que é membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.

Depois de o New York Times ter noticiado as compras de armamento que estarão a ser negociadas entre Moscovo e Pyongyang, citando relatórios dos serviços secretos norte-americanos, ontem tanto o Departamento de Estado dos EUA como a Casa Branca confirmaram a informação.

Segundo o porta-voz-adjunto do Departamento de Estado, Vedant Patel, a Rússia "está no processo de compra de milhões de foguetes e ogivas de artilharia da Coreia do Norte para uso na Ucrânia". Pouco depois, noutra conferência de imprensa, o porta-voz da Casa Branca para assuntos de Segurança Nacional, John Kirby, colocou algumas nuances na informação, falando de uma “potencial compra”. "Ainda não temos qualquer indicação de que a compra tenha realmente ocorrido, por isso é difícil dizer o que acabará por acontecer", disse Kirby.

Segundo o porta-voz de Biden para a Segurança Nacional, não há “indicações de que essa compra tivesse sido concluída e certamente [não há] indicações de que essas armas estivessem a ser utilizadas dentro da Ucrânia". Porém, Kirby confirmou que a Rússia estará a tentar fazer esse negócio com a Coreia do Norte. "A nossa perceção é que [a compra] poderia incluir literalmente milhões de munições, foguetes e cartuchos de artilharia da Coreia do Norte. É isso que a nossa informação nos diz - poderia ser a essa escala".

Coreia do Norte vende armas a quem quiser comprar

O embaixador da Rússia nas Nações Unidas, Vassily Nebenzia, desvalorizou as notícias, que se baseiam em informações dos serviços secretos norte-americanos recentemente desclassificadas. "Não o ouvi e penso que é outra falsificação que anda a circular por aí", disse aos repórteres. Os representantes da Coreia do Norte na ONU limitaram-se a ficar em silêncio perante as notícias e os pedidos de comentário.

Há anos sob sanções internacionais, por causa do seu programa nuclear e do constante desenvolvimento do seu programa de mísseis, a Coreia do Norte tem a sua economia de rastos e desespera por divisas internacionais. Especialistas sobre o país asseguram que Pyongyang está há muitos anos interessada em conseguir dinheiro através da venda de armas, para contrariar o impacto das sanções internacionais - mas são essas mesmas sanções que têm impedido outros países de bater à porta de Kim Jong-un para comprar material militar. Até agora. A Rússia, que no passado apoiou essas sanções enquanto membros permanente do Conselho de Segurança da ONU, estará agora disponível para comprar o que Pyongyang tiver para vender.

Segundo os peritos em Coreia do Norte, os arsenais do país estão bem recheados, e este é um mercado em que o país tem tentado fazer negócio. "Os norte-coreanos estão sempre a tentar vender armas a quem quer que ande por aí", diz Go Myung-hyun, investigador do Asan Institute for Policy Studies, de Seul.

Alastair Morgan, embaixador britânico na Coreia do Norte entre 2015 e 2018, e que foi também coordenador do Painel de Peritos da ONU que monitoriza a aplicação de sanções ao país, disse num webinar que não tem informações para verificar o relatório sobre as compras russas, mas acrescentou: "Se pudesse, tenho a certeza que [a Coreia do Norte] venderia armas a quem quer que as levasse".

Pyonyang tem “bastante” artilharia

Ao longo de décadas, o regime de Pyongyang recebeu armas e munições da União Soviética, seu aliado durante a Guerra Fria - uma relação que se manteve com a Rússia após o colapso da URSS. Igualmente com o apoio russo, e também chinês, os norte-coreanos desenvolveram igualmente a sua capacidade de produção de armamento e munições. E - boa notícia para Putin - trata-se de equipamento igual ao russo, ou compatível.

Embora a informação das secretas norte-americanas não detalhe que equipamento Putin estará a planear comprar à Coreia do Norte, tudo indica que estarão em causa diversos tipos de munições, ogivas de artilharia (nomeadamente de 152mm e 122mm) e foguetes. Tudo material que Kim Jong-un tem em grande quantidade, segundo os experts no país.

Segundo o investigador sul-coreano Go Myung-hyun, a Coreia do Norte é "mais ou menos auto-suficiente na produção de armas" e que tem "bastante" artilharia de 122mm e 152mm. Joost Oliemans, estudioso da capacidade militar norte-coreana, acrescenta que Pyongyang tem "grandes quantidades de munições mais antigas" e também pode produzir novas armas para exportação. "Se acabarem por entregar armamento, é de esperar que seja uma produção relativamente nova, feita por encomenda ou a partir dos seus stocks existentes, que são suficientemente grandes para acomodar grandes encomendas sem produção adicional para muitos tipos de armamento", disse Oliemans ao site especializado em notícias da Coreia do Norte NK News. "Se esta história for de facto verdadeira, podemos esperar ver vídeos a verificar a presença de munições norte-coreanas na Ucrânia durante os próximos meses".

Apesar de a Coreia do Norte ter uma capacidade robusta de fabrico de armamento, este não é conhecido por ser topo de gama ou pela sua sofisticação tecnológica. Segundo Oliemans, o material norte-coreano também é pouco avançado do ponto de vista de precisão. O que levanta uma questão: porque é que a Rússia está a tentar comprar à Coreia do Norte artilharia que, à partida, poderia produzir nas suas fábricas?

Mesmo que o esforço de guerra esteja a esgotar a capacidade de produção, os observadores notam que Moscovo deveria ter enormes quantidades de munições soviéticas antigas. Da mesma forma que tem mandado para a Ucrânia equipamento soviético do tempo de Guerra Fria, as munições guardadas desde essa época provavelmente não se esgotarão tão cedo. O que se passa?

“Indicação de quão desesperado Putin está a ficar”

A mesma questão já se havia colocado quando Moscovo se virou para o Irão, a quem comprou vastas quantidades de drones. Também Teerão não é reconhecido pela sofisticação, precisão ou fiabilidade do seu material de guerra. Apesar de tudo, os drones implicam peças, componentes e know-how a que a Rússia pode ter deixado de ter acesso devido às sanções dos EUA e dos seus aliados. Não é assim em relação a munições de artilharia.

A resposta pode ser simples: a Rússia compra a quem aceita vender-lhe. "A Rússia contactou um grande número de países aos quais forneceu estas munições no passado, para as adquirir [agora]", diz Jack Watling, do think tank britânico Royal United Services Institute. "E a Coreia do Norte utiliza muitos dos mesmos calibres para sistemas atuais e antigos, que os russos trouxeram de volta ao serviço".

John Kirby, em nome da Casa Branca, disse ontem que o eventual negócio com a Coreia do Norte  é "apenas mais uma indicação de quão desesperado Putin está a ficar... É uma indicação do quanto o seu complexo industrial de defesa está a sofrer em resultado desta guerra" e das sanções dos EUA e dos seus aliados.

A economia russa está a aguentar bem o impacto das sanções ocidentais, em boa medida graças ao aumento dos preços internacionais do petróleo e do gás, mas o mesmo não estará a acontecer com a indústria militar de Putin. A tecnologia eletrónica utilizada no armamento mais moderno é ocidental, e a Rússia deixou de poder comprar ou ter acesso a essa tecnologia - e não tem capacidade de a produzir internamente. Sem isso, reduz as hipóteses de repor armamento, que está a ser destruído a um ritmo muito intenso na frente de guerra. Após as primeiras semanas de ataque russo os serviços secretos ocidentais começaram a dar conta da escassez de equipamento de precisão nos arsenais russos - e essa escassez agravou-se e estará a estender-se a diversos tipos de material.

O facto de a China não ter, até ao momento, ajudado a Rússia a repor os seus arsenais é outra consequência da pressão ocidental. A ameaça norte-americana em relação à China foi clara e direta: se ajudar Putin a armar-se para a invasão da Ucrânia, a China deixará de ter acesso à eletrónica norte-americana, nomeadamente aos chips desenvolvidos nos EUA. Um corte que, a acontecer, não afetaria apenas a indústria de Defesa chinesa, mas toda a indústria de ponta do país.

Segundo responsáveis norte-americanos informados sobre os contactos entre Moscovo e Pyongyang, mesmo depois de se concretizar o negócio atualmente em negociação, são esperadas compras adicionais russas de equipamento militar norte-coreano. A Ucrânia lançou recentemente contra-ofensivas em vários locais dominados pela Rússia, no Leste e Sul do país, e, em preparação para esses ataques, bombardeou armazéns russos, incluindo instalações com artilharia e munições. Também a frota de veículos blindados russos tem sofrido grandes baixas. Há igualmente informações sobre dificuldades russas em renovar as tropas na frente de combate, tendo em conta as muitas baixas - por morte, ferimento ou deserção - que as forças do Kremlin registaram desde o início da invasão.

Os amigos são para as ocasiões

Desde o início da invasão russa da Ucrânia, a Coreia do Norte foi uma das vozes mais firmes do lado de Putin, acusando os EUA, a UE e a NATO de terem provocado a reação russa. Olhado como um pária entre as nações, o regime de Pyongyang tem procurado manter boas relações com os seus dois aliados tradicionais - Rússia e China - ao mesmo tempo que utiliza um tom cada vez mais beligerante em relação aos EUA, à Coreia do Sul e aos seus aliados.

Por outro lado, a fratura provocada na ONU pela invasão da Ucrânia, acabou por beneficiar Kim Jong-un, que tem acelerado o seu programa de teste de mísseis (incluíndo mísseis balísticos intercontinentais), sem que o Conselho de Segurança das Nações Unidas decrete novas sanções. Rússia e China têm vetado as iniciativas nesse sentido. Tudo indica que, mesmo que os norte-coreanos retomem o seu programa de ensaios nucleares, continuarão a gozar da proteção de Pequim e Moscovo no Conselho de Segurança.

Amor com amor se paga e a Coreia do Norte foi dos poucos países que reconheceu a independência das duas autoproclamadas “repúblicas populares” pró-russas do Donbass. Para além de ter reconhecido os alegados governos de Donetsk e Lugansk, Kim Jong-un disse estar disponível a enviar cem mil trabalhadores norte-coreanos para a reconstrução destes dois territórios. Kim também já se disponibilizou para enviar soldados para lutarem ao lado dos russos na Ucrânia.

No mês passado, no aniversário do Dia da Libertação da Coreia (que marca o fim da II Guerra Mundial), Vladimir Putin e Kim Jong-un trocaram cartas com juras de amizade e reforço da cooperação entre os dois países, nomeadamente ao nível militar. Putin escreveu a Kim que os seus países iriam expandir "relações bilaterais abrangentes e construtivas", enquanto Kim respondeu que a "cooperação, apoio e solidariedade estratégica e táctica" bilateral tinha atingido um novo nível num esforço comum para frustrar as forças militares hostis.

Ostracizado por quase todo o mundo, Kim tem pouco a perder ao apoiar a guerra de Putin, e vê benefícios na venda de material de guerra ao Kremlin. A moeda de troca podem ser dois bens de que a Coreia do Norte muito precisa: alimentos e energia. Jenny Town, do projeto de monitorização 38 Norte, com sede em Washington, disse à Reuters que "há relatos de fornecimentos russos de trigo e petróleo à Coreia do Norte, e certamente, os norte-coreanos não estão a receber fornecimentos gratuitos". Também têm circulado nos bastidores diplomáticos informações de que Moscovo estará a fornecer equipamentos industriais aos norte-coreanos.

A moeda de troca podem ser os foguetes e as munições de artilharia de que Putin precisa.

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