Os clássicos da vida deles: FC Porto-Benfica que marcam para sempre

20 out, 22:55
Clássico

Este é um daqueles jogos que está sempre à porta da história: qualquer pormenor pode torná-lo memorável e eterno. O que nos transforma a nós em testemunhas da lenda. Por isso viajámos com oito adeptos ao clássico da vida deles, para recordar grandes jogos e nos prepararmos para testemunhar mais história.

É sexta-feira no mundo e dia de clássico em Portugal.

Um FC Porto-Benfica é mais do que um jogo: é um pedaço de história à espera de ser escrita. É o passado transformado em presente: vive connosco para a eternidade, nas memórias que partilhamos com amigos à volta de uma mesa e muitas cervejas.

Poucos jogos estão sempre tão próximos de entrar na história do futebol como um clássico: basta um remate de Kelvin, dois golos de César Brito, um calcanhar de Falcao, um pontapé do meio da rua de Carlos Manuel para fazer daquele jogo um pedaço de lenda.

E nessa altura aquele clássico torna-se contemporâneo, nunca envelhece e transmite-nos a convicção de que fizemos parte de um acontecimento ao, simplesmente, testemunhá-lo.

Ora por isso, nesta sexta-feira no mundo, dia de clássico em Portugal, o Maisfutebol viaja pelos clássicos que marcaram alguém para sempre: na circunstância, quatro adeptos do FC Porto e quatro adeptos do Benfica, todos eles pessoas que gostam de refletir sobre o jogo e gritar ao mundo esta paixão em podcasts que todos ouvimos... que todos ouvimos.

Venha daí nesta viagem pelos clássicos da vida deles.

«Nesse dia senti pela primeira vez que o Benfica estava revoltado»

Manuel Neves, do Matraquilhos (Benfica)

«O clássico da minha vida é o 3-1, com golo de André Gomes. Para mim foi o jogo em que senti que o Benfica se tinha zangado com o FC Porto. Aliás, o que eu gostei mais nesse jogo foi que, ao fim de vários anos a levar com eles, sobretudo no ano anterior, com o golo do Kelvin e tudo isso, o Benfica se revoltasse. Intrigava-me que o Benfica entrasse em campo frente ao FC Porto a sentir que não tinha contas pendentes. E o que senti nesse jogo é que os onzes jogadores do Benfica, mais tarde dez, porque o Sequeira foi expulso muito cedo, e sobretudo os adeptos, estavam todos zangados com o FC Porto. Toda a gente puxava para o meu lado. Qualquer lançamento contra era contestado, qualquer alívio para a bancada era celebrado. Para mim foi muito marcante, por exemplo, quando o Benfica fez o 2-1. Sentiu-se o Estádio da Luz a afirmar que acreditava, apesar de estar com menos um e de precisar de mais um golo. Os adeptos da central, todos de pé, a gritar que acreditavam. Outra coisa fantástica é que depois do 3-1 não houve jogo. Largando a sua crónica inocência, o Benfica mostrou matreirice e não deixou que houvesse mais jogo. Foi a primeira vez que senti que o Benfica era capaz de vergar o FC Porto. Curiosamente, passado umas semanas o Benfica foi para umas meias-finais da Taça da Liga, no Dragão, ficou com dez também muito cedo e mais uma vez acreditou que podia ganhar. Isso marcou uma viragem na história do Benfica. sobretudo para a minha geração. Foi aí que começou a irreverência que nos levou ao tetra.»

 

«Foi o jogo que aprendi pelos ouvidos com o meu avô»

Paulo Silva, de A culpa é do Cavani (FC Porto)

«O facto é que não vi o ‘clássico da minha vida’. Se quiser ser honesto, de meu nesta memória tenho apenas uma vaga sensação de ansiedade no meu pai e uma alegria que o levaria às lágrimas, pela distância, pela incerteza, pela família enfiada num quarto de pensão na Duque d’Ávila. Sentindo-se culpado de, ainda assim, a Alma lhe celebrar um jogo de futebol. Lendo estas palavras, percebo que nem esta vaga sensação é minha, é apenas mais uma peça da construção de mim, demasiado tenro, à época, para saber tanto. O ‘clássico da minha vida’ não é meu, portanto. É do velho. Repetiu-me infinitamente, sentado num banco de fórmica, na nossa eterna varanda da Brandoa, um Kentucky assassino pendurado nos lábios. Os detalhes: o que terá dado ao Simões para se enganar na baliza? As bolas na trave a gozarem com um povo inteiro. A praia ali mesmo e o Zé havia de estar a coçar o boné, a ver que se morria antes de chegar. E depois o livre (e levantava-se), a bola pingona para ninguém (voava o mata-ratos varanda abaixo), o rebote (o pé, que pedira a um médico chinês que lhe cortasse porque lhe doía a gangrena, rasgava o ar), o grito todo da Nação na bota do brasileiro Ademir (goooooloooo do Porto, carago!). A história ensinou-nos que aquele dejejum fora apenas o prefácio de uma vida nova: a partir desse empate com cheiro a maio de 1978 nada mais foi igual. Foi um jogo que teve um minuto 92 primordial, mesmo que tenha sido aos 83. Mais do que tudo, foi o jogo que aprendi pelos ouvidos com o avô que, nesse dia, estava a milhares de quilómetros e me faltava. É por isso que o Porto deve ganhar todos os clássicos. Por todos os Alvarins do Mundo e da História, mas, sobretudo, pelo meu. Viva o Futebol Clube do Porto.»

 

«Foi uma coisa meio tribal, aquela união emocional antes do jogo»

João Tibério, de O Brinco do Baptista (Benfica)

«O clássico da minha vida é o de 2014-15, em que o Benfica ganhou com dois golos de Lima. Foi a minha primeira ida ao Dragão: curiosamente a primeira de duas e nunca perdemos. Na altura, o Benfica tinha umas viagens de comboio até Campanhã, depois íamos a pé escoltados até ao Dragão. Sou muito adepto do futebol positivo e, como se costuma dizer, o caminho é o mais importante. O que se tem antes do jogo, a união emocional com os outros adeptos, estar fechado com amigos num comboio, contarmos histórias, bebermos uns copos. Acho que mais pessoas deviam experimentar uma viagem destas, em vez de estar atrás de um teclado a espalhar agressividade. Vamos sempre buscar alguma coisa positiva ao convívio. É como ir ao estrangeiro com o Benfica, são sempre viagens incríveis. Aliás, também é isso que nos faz ir ao estádio. Naquele clássico foi uma coisa meio tribal, em que nos unimos, fomos à terra do adversário, correndo até riscos quanto baste. O jogo esteve longe de ser fácil, sobretudo porque o Benfica entra quase sempre derrotado no Dragão. Nesse dia ganhou. Portanto, estar lá com os amigos e vencer... foi inesquecível. Lembro-me da viagem para baixo, também de comboio, em total euforia. A viagem foi feita com algum policiamento, mas os agentes compreenderam a euforia dos adeptos, perante tudo o que tinha acabado de acontecer. Foi uma viagem com um espírito muito positivo.»

«

A era do dragão no fundo também era isso»

Miguel L. Pereira, do Fever Pitch (FC Porto)

«Não há como a primeira vez. Em 1994 fizeram-me sócio cativo do FC Porto e passei a peregrinar quinzenalmente ao velhinho estádio das Antas. Inevitavelmente para quem cresceu no fim dos anos 80, o jogo que mais expectativa gerava era o duelo contra o grande rival da Luz, que vinha de impedir o nosso primeiro Tri. Liderados pelo irrepetível Bobby Robson e com uma equipa muito ofensiva, o Porto caminhava seguro para o título quando a 5 de março de 1995 recebeu os encarnados. Foi um clássico no verdadeiro sentido da palavra. Campo encharcado, muita polémica, duas expulsões (justas) incluindo a de Secretário, para os que diziam que os jogadores portistas eram intocáveis. Ao golo madrugador de Zé Carlos com uma celebração icónica seguiu-se o empate do inevitável JVP. Isaías dava-me tanto pânico como Baía confiança e quando Drulovic marcou o golo da vitória senti que esta não podia escapar. Nem o penálti falhado de Aloísio me fez duvidar. A vitória marcou o início da conquista do Penta e desde então apenas vi o Benfica vencer por uma vez à minha frente. A era do dragão no fundo também era isso.»

 

«Vi toda a minha vida de adepto do Benfica a passar num flash»

Filipe Inglês, do Benfica FM (Benfica)

«Tudo nosso, nada deles» era o lema do FC Porto para essa época de 2013-14. E quanto mais a época do Benfica avançava em todas as competições, mais eu pensava nisso. «Tudo nosso, nada deles». Chegados a abril, já era óbvio que o Benfica ia ser campeão, mas eu queria mais. Depois do pesadelo que tínhamos passado naquele fatídico maio de 2013, merecíamos mais. Muito mais. Na semana desse Benfica-FC Porto para a segunda mão das meias-finais da Taça de Portugal, criou-se no estádio uma fila gigantesca para comprar bilhetes. Mas era para o jogo com o Olhanense, de consagração do campeonato. Só que eu fui à Luz para me colocar na fila menor, na dos que queriam receber o FC Porto e dizer o que nos ia na alma. «Agora é a nossa vez, o nosso momento: no campeonato, na Taça de Portugal, na Taça da Liga. Este ano vai ser tudo nosso e nada vosso». É por isso que posso dizer o seguinte: em trinta anos a ver jogos do Benfica no Estádio da Luz, aquele remate do André Gomes ao minuto 80 da partida de 16 de abril de 2014, com o Benfica reduzido a dez jogadores, foi o golo que mais festejei na vida. Não foi o apuramento para a final da Taça, foi o sentimento que terminava ali, naquele momento, a hegemonia azul que tinha ocupado boa parte da minha infância, adolescência e jovem vida adulta. Naqueles cinco segundos em que o André Gomes passa a bola por cima de Fernando, vi toda a minha vida de adepto do Benfica a passar num flash. E senti que nada voltaria a ser igual. Que pela primeira vez havia um Benfica a querer mais que o FC Porto, muito mais, e que não ia deixar nem uma migalha que fosse para agarrarem. E que daí para a frente o Glorioso voltava a uma posição de força e a discutir todos os títulos com o FC Porto até ao fim.»

 

«E eu era um deles, finalmente»

Jorge Bertocchini, de A culpa é do Cavani (FC Porto)

«Se há clássico que nunca se esquece é o primeiro e desflorei-me numa noite de nevoeiro, numas Antas plenas de gente e entusiasmo. As bancadas ainda eram de cimento e vi grande parte do jogo de pé - do pouco que vi - a tentar perceber o que raio se estaria a passar ali em baixo. Via-se pouco pela bruma, apenas uma curta faixa de relva que escondeu um golo falhado por um tal de Mostovoi que fez nome depois de passar pelo jovem Baía e atirar ao lado. Ouviam-se os gritos inconstantes das poucas pessoas que conseguiam vislumbrar alguma coisa, porque a incerteza em tempos de extrema tensão faz pouco por acalmar os nervos. Até que se levanta a neblina, por intervenção quase divina e piedosa para um par de amigos com longínquos 13 aninhos, no seu primeiro jogo como sócios do clube de coração, permitindo vislumbrar um tanque de nome Jorge Costa a romper a área do Benfica até ser rasteirado e conseguir um penalty marcado pelo romeno mais talentoso que vi jogar com as nossas cores. Era novembro de 1992. E gritei, desci várias filas aos saltos e abraços a estranhos que deixaram de o ser e evoluíram para companheiros de alma e de estádio. E eu era um deles, finalmente.»

 

«Apareci na capa de A Bola e tive alguns problemas laborais»

Sérgio Engrácia, de O Brinco do Baptista (Benfica)

«O clássico da minha vida é o clássico do Nuno Gomes. Eu tinha tido um acidente de trabalho e estava de baixa. Na altura trabalhava numa empresa de construções, muito conhecida, que até é do Norte, é de Campo, perto de Paços Ferreira. Tive um acidente de carrinha, fiquei encravado da coluna muito tempo e acabei por ir ao jogo. Nos festejos dos golos até fui comedido, não queria aparecer na televisão, mas curiosamente uma das fotografias na capa de A Bola no dia seguinte era eu no cortejo. O que me provocou alguns problemas laborais. O patrão ligou-me a dizer ‘Espero que o jogo tenha corrido bem em todos os sentidos’. Enfim, a verdade é que já conseguia fazer a minha vida, deslocar-me e tal, só não podia trabalhar porque implicava carregar colchões e cargas pesadas. Mas esse clássico foi especial também por outro motivo: o Nuno Gomes é uma pessoa de quem gosto muito e tenho uma boa relação com ele. Para a minha geração, que nunca viu César Brito, o Nuno Gomes foi marcante. Curiosamente foi o primeiro convidado de outro projeto que tive, Conversas à Benfica, no youtube, e estou muito grato por ele ter aceitado, numa altura em que era muito difícil levar nomes grandes a estas coisas. Já o convidei para outros projetos e ele sempre aceitou. A minha sogra é fanática pelo Nuno Gomes, tem o quarto todo forrado com posters dele e a primeira vez que ele foi a minha casa nem queria acreditar. Por isso a imagem dele a bisar, a celebrar apontando para as quinas de campeão, enfim, foi tudo inesquecível. Estas coisas que estão um bocadinho fora de campo são também o que transforma um jogo em especial.»

 

«Um clássico vibrante e um chapéu em câmara lenta daquele craque com as meias descidas»

Pedro Fragoso, do Matraquilhos

«É díficil pensar num só clássico entre FC Porto e Benfica, já que nos últimos 25 anos de estádio a oferta é grande e marcante. A goleada por 5-0, o golo de Kelvin, a primeira derrota – nunca te perdoarei, Nuno Gomes – ou até o primeiro jogo que vi ao vivo entre estas duas equipas, ainda nas Antas, com Jardel a bisar. Mas se é para escolher um, decido regressar a 10 de fevereiro de 2002, ao velhinho estádio. Foi o terceiro jogo da era Mourinho e a excitação em torno do novo técnico era grande, principalmente depois de meses cinzentos com Octávio Machado ao comando. Nessa noite, o FC Porto utilizou, vá-se lá saber porquê, o equipamento da época anterior e não aquela coisa estranha, à Stromp. E parece ter dado resultado: venceu por 3-2 e nas gavetas da minha memória ficarão para sempre o primeiro e o terceiro golos portistas. O primeiro é de Deco, num slalom gigante a meio campo, concluído com remate de fora da área. O terceiro é de Capucho e foi daqueles que só aquele craque com as meias descidas poderia fazer: um chapéu em câmara lenta ao incrível Robert Enke. Os golos de Simão e Mantorras só trouxeram emoção a um clássico vibrante e que serviu de aperitivo para as duas épocas seguintes.»

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