TAP suspeita de vários crimes da ex-CEO em negócios com o marido

ECO - Parceiro CNN Portugal , Ana Petronilho e Alberto Teixeira
16 jan, 12:02
Christine Ourmières-Widener, presidente executiva da TAP (Getty Images)

TAP suspeita de três crimes quando o marido da ex-CEO tentou vender produtos da Zamna à companhia e aponta datas coincidentes da contratação de Floyd Widener com o cargo da gestora francesa

A TAP suspeita de crimes como “tráfico de influência, de oferta indevida de vantagem ou mesmo de corrupção” quando o marido da ex-CEO, Floyd Murray Widener, tentou vender à transportadora os serviços da empresa israelita para a qual trabalhava, a Zamna Technologies, como diretor comercial em regime de part time.

Em causa estava a compra de uma “solução tecnológica que permitia a validação de dados dos passageiros”, sendo que “um mês depois” de a ex-CEO ter tomado posse, o marido já tinha apresentado na TAP os serviços da Zamna. E em dezembro de 2021 “havia já um projeto piloto em curso” deste programa tecnológico “à revelia do conselho de administração” da TAP. Ou seja, “sem que os restantes administradores” da transportadora “se tenham apercebido”, lê-se na contestação submetida pela defesa da TAP, a que o ECO teve acesso, no processo em que a gestora francesa reclama uma indemnização de quase seis milhões de euros pela forma como foi despedida da transportadora.

Além disso, a TAP levanta suspeitas sobre as datas coincidentes da contratação de Floyd Murray Widener pela Zamna com o período em que Christine Ourmières-Widener ocupou o cargo de CEO na companhia. A gestora francesa começou a exercer funções na TAP em junho de 2021 “ao passo que o seu marido começa a exercer funções na Zamna em setembro de 2021”. E Christine Ourmières-Widener “cessou o vínculo com a TAP em março de 2023”, sendo que o marido sai da empresa “em fevereiro de 2023”, lê-se no documento. Frisa que “custa a crer que se trata de uma mera coincidência”, acreditando que Floyd Wieder foi contratado pela empresa por Christine Ourmières-Widener ser, à data, CEO da TAP.

A TAP salienta ainda que há “alguma intimidade” entre a ex-CEO e a fundadora da Zamna, Irra Ariella Khi, apresentando nos documentos submetidos ao tribunal comentários a um post na rede social Linkedin.

Por tudo isto a TAP diz que Christine Ourmières-Widener – que “necessariamente sabia” que o marido tinha começado a trabalhar na Zamna – permitiu uma situação de “manifesto conflito de interesses” ao não ter impedido a apresentação e tentativa de venda dos serviços da empresa israelita à transportadora. Situação que a TAP diz ser “inadmissível” e que provocou “graves riscos reputacionais” à companhia.

A Zamna foi fundada em 2016 e, à data, tinha nove trabalhadores. Em 2020 tinha apresentado prejuízos que ultrapassavam os “dois milhões de euros”. Antes de ocupar o cargo de diretor comercial na Zamna, Floyd Widener “trabalhava numa empresa de aluguer de espaços para eventos”, segundo os documentos da contestação da defesa da TAP, a que o ECO teve acesso.

A contratação dos serviços da Zamna foi travada por Alexandra Reis – tal como foi dito na comissão parlamentar de inquérito -, sendo este um dos dois episódios que levaram à “animosidade pessoal” da ex-CEO com a ex-administradora com o pelouro da área de compras, diz a TAP. Além do conflito de interesses identificado por Alexandra Reis, a compra dos serviços à Zamna “não estava orçamentada, nem prevista e nem sequer correspondia a uma necessidade da TAP”, refere o documento.

Uso dos motoristas para “idas ao cinema e jantares a restaurantes”

O segundo motivo apontado pela TAP que terá levado à saída de Alexandra Reis da companhia envolveu a tentativa de Christine Ourmières-Widener de despedir um dos três motoristas do conselho de administração.

A tentativa de despedimento aconteceu depois de o trabalhador ter dado a conhecer ao presidente do Conselho de Administração da TAP, Manuel Beja, que os motoristas estariam a ser utilizados “sucessivamente” para “satisfazer propósitos pessoais” da ex-CEO e dos seus “familiares”. Por exemplo, fazer deslocações do marido, Floyd Widener e onde “se incluíam, por exemplo, idas ao cinema, jantares em restaurantes”, refere a contestação da TAP.

Depois de confirmar estas deslocações nos “registos das deslocações” dos motoristas, Manuel Beja confrontou a ex-CEO “com a utilização indevida das viaturas” e impôs a regra que “os motoristas, e respetivos veículos, apenas poderiam ser utilizados para motivos profissionais”.

Foi então que, ainda segundo os documentos da TAP, em “manifesto ato de retaliação”, a ex-CEO comunicou a Alexandra Reis, que tinha o pelouro dos recursos humanos, que o motorista devia ser despedido, alegando que não estava vacinado contra a Covid-19. Alexandra Reis disse que “não o iria despedir, até porque legalmente não era obrigatório estar vacinado pelo que isso nunca seria fundamento de despedimento”.

Mais tarde, a ex-CEO terá insistido que o motorista devia ser despedido, apresentando uma outra razão: “porque era cunhado do presidente do sindicato dos pilotos da aviação civil (SPAC), acusando o motorista de estar a passar informações ao presidente do SPAC, sem, no entanto, ter qualquer prova ou suspeita legítima”, lê-se ainda nos documentos submetidos a tribunal pela TAP.

A demissão de Christine Ourmières-Widener aconteceu na sequência da polémica indemnização de 500 mil euros brutos paga à antiga administradora executiva Alexandra Reis para renunciar ao cargo na TAP, que foi considerada ilegal pela Inspeção-Geral de Finanças (IGF). O anúncio foi feito a 6 de março pelos ministros das Finanças e das Infraestruturas, Fernando Medina e João Galamba (que, entretanto, se demitiu), em conferência de imprensa.

O Ministério das Finanças justificou a demissão com a “violação grave, por ação ou por omissão, da lei ou dos estatutos da empresa”, conforme previsto no artigo 25.º do Estatuto do Gestor Público. O que não dá direito a receber qualquer indemnização.

Uma acusação sustentada nas conclusões da auditoria da IGF, que considerou “nulo” o acordo celebrado entre a companhia aérea e Alexandra Reis, por o Estatuto do Gestor Público não prever “a figura formalmente utilizada de ‘renúncia por acordo’ e a renúncia ao cargo contemplada naquele Estatuto não conferir direito a indemnização”, concluindo “que a compensação auferida pela cessação de funções enquanto administradora carece de fundamento legal”.

O mandato da ex-CEO terminou formalmente a 12 de abril, quase 22 meses depois de tomar posse. Além de Christine Ourmières-Widener, também foi demitido o presidente do conselho de administração, Manuel Beja. Alexandra Reis teve de devolver a maior parte da indemnização.

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