Compradores chineses recusam pagar hipotecas de apartamentos inacabados (e o enorme problema que isso pode causar)

CNN , Laura He
21 jul, 08:00
Compradores chineses recusam-se a pagar hipotecas de apartamentos inacabados

A crise imobiliária na China está a aumentar, o que gera preocupações quanto aos riscos crescentes no sistema bancário.

Compradores desesperados de casas em dezenas de cidades estão a recusar pagar as hipotecas de casas inacabadas, segundo reportagens dos média estatais e os economistas de bancos internacionais.

Na China, as imobiliárias podem vender casas antes de estas estarem acabadas, e os clientes têm de começar a pagar as hipotecas antes de estarem na posse do imóvel. Esses fundos são usados ​​para financiar a construção.

O boicote ao pagamento acontece porque um número crescente de projetos foi adiado ou está paralisado devido a uma crise de liquidez que levou a gigante Evergrande a falhar o pagamento da dívida, no ano passado, e fez com que várias outras empresas procurassem a proteção face aos credores. Os preços das casas também estão a cair, o que significa que os compradores podem ficar presos a uma propriedade que vale agora menos do que aquilo que aceitaram pagar.

Os analistas temem que o boicote aos pagamentos entre os compradores de imóveis possa levar a mais incumprimentos por parte das construtoras, colocando uma pressão adicional sobre os bancos chineses num momento em que a segunda maior economia do mundo se debate para recuperar de uma forte desaceleração relacionada com a covid.

“As pré-vendas são a forma mais comum de vender casas na China, portanto, há muita coisa em risco”, disseram analistas da Nomura num relatório.

Pelo menos sete grandes credores, incluindo o Banco Industrial e Comercial da China (IDCBF), o Banco de Construção da China (CICHF) e o Banco Agrícola da China (ACGBF), disseram recentemente que acreditam que os riscos são controláveis, acrescentando que estão atentos à situação.

A Bloomberg informou que as autoridades chinesas estavam a realizar reuniões de emergência com os bancos.

Segundo vários relatórios dos média estatais e os dados compilados pela empresa de sondagens Sociedade de Informações Imobiliárias da China (CRIC), com sede em Xangai, os compradores de 18 províncias e 47 cidades pararam de fazer os pagamentos no final de junho.

A Tianmu News, um meio de comunicação digital estatal, disse que os compradores de casas de 100 ou mais projetos inacabados anunciaram em conjunto que deixariam de pagar as suas hipotecas. Esses projetos estão espalhados pelo centro, sul e leste da China. Um relatório dos média estima que só em 14 desses projetos estão envolvidos 46 000 compradores.

“O número continua a crescer”, diz o relatório da Tianmu, citando estatísticas que obteve de alguns compradores.

Os analistas da Nomura estimam que os construtores entregaram apenas cerca de 60% das casas que venderam entre 2013 e 2020, enquanto que os empréstimos hipotecários pendentes da China aumentaram 26,3 bilhões de yuans (3,9 bilhões de dólares) no mesmo período.

Os especialistas dizem que os problemas estavam a formar-se há algum tempo e podem levar a distúrbios financeiros e sociais.

O empreendimento residencial Fengming Haishang do Country Garden, em Xangai

Os analistas da Citi disseram que o boicote pode aumentar o crédito malparado ​​dos bancos chineses em 83 mil milhões de dólares e causar instabilidade social num momento em que o país já enfrenta protestos crescentes contra a deterioração financeira dos pequenos bancos das zonas rurais.

A economista da ANZ na China, Betty Wang, acredita que a dimensão do problema é muito maior. Ela estima que 1,5 bilhões de yuans (223 mil milhões de dólares) em empréstimos hipotecários, ou 4% do total de empréstimos hipotecários pendentes dos bancos, podem ser afetados por este movimento.

“O que nos preocupa é que, se mais compradores de imóveis deixarem de pagar, a tendência de disseminação passará a ameaçar não só a saúde do sistema financeiro, mas também criará problemas sociais nesta crise económica”, escreveu ela num relatório.

Os preços das casas novas em 70 cidades caíram pelo nono mês consecutivo, em maio, segundo dados recentes do Instituto Nacional de Estatísticas. As vendas de imóveis também caíram, à medida que os compradores se afastam do mercado devido à crescente incerteza sobre os seus empregos e rendimentos.

O problema no setor imobiliário da China começou em 2020, quando Pequim começou a apertar o cerco ao crédito fácil para as construtoras, o que resultou numa crise de liquidez para muitas destas grandes empresas.

A Evergrande, a imobiliária mais endividada do país, foi rotulada como incumpridora no outono passado e está a passar por uma reestruturação da dívida. A construtora ainda tem muitos projetos imobiliários por todo o país que ainda não foram concluídos, segundo os registos da empresa.

O setor imobiliário responde por até 30% do PIB da China.

Segundo o relatório da Tianmu, os compradores de um projeto da Evergrande em Jingdezhen, na província de Jiangxi, estiveram na origem do atual protesto de pagamentos.

“O projeto Longting da Evergrande, em Jingdezhen deve retomar totalmente os trabalhos antes de 20 de outubro de 2022”, escreveram numa carta aberta de 30 de junho, publicada na internet e amplamente divulgada pelos média. “Caso contrário, todos os proprietários que não pagaram os seus empréstimos deixarão de pagar a hipoteca”, dizia a carta, acrescentando que qualquer perda deve ser suportada pelos bancos, pelos governos locais e pela construtora.

Num editorial, o Securities Times, do estado, alertou que, se mais compradores suspenderem os pagamentos das hipotecas, o mercado imobiliário poderá sofrer outro golpe profundo e o sistema financeiro poderá sofrer uma crise sistémica.

“Temos de estar atentos ao risco que se espalha pela suspensão do pagamento dos imóveis inacabados”, disse o jornal.

Os compradores de casas são “os mais inocentes” porque estão desesperados e não têm saída, disse. Mas se o problema não for resolvido, causará mais danos.

“Embora as instituições financeiras tenham os imóveis como garantia, os projetos não entregues apenas se podem transformar em crédito malparado. Quando o crédito malparado ​​aumentar, pode causar riscos financeiros sistémicos”, acrescentou.

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