Exportações em queda, produção de Iphones em risco, mas China reafirma política de 'covid zero'

7 nov, 04:52
Porto de Qinzhou, na China

A China regista o maior número de novos casos do último semestre, e as restrições e isolamentos estão de volta. A moeda chinesa está a ressentir-se, as exportações e importações caíram em outubro e a produção de Iphones está em risco

A China regista por estes dias os valores mais elevados de novos casos de covid-19 nos últimos seis meses, o que está a provocar novas restrições à mobilidade e atividades em diversos pontos do país. Com a indústria a ressentir-se - a primeira vítima é o Iphone 14, cuja produção está seriamente afetada -, a moeda chinesa está a cair e o comércio externo sofreu uma inesperada contração.

Esta segunda-feira foram comunicados mais 5.496 novos casos diários, o valor mais alto desde 2 de Maio, quando a capital comercial do país, Xangai, foi colocada sob rigoroso lockdown. No domingo, as autoridades já haviam reportado 4.420 novas infeções, o valor mais alto desde 6 de maio. 

Em abril e maio a China sofreu a maior vaga de covid, quando o país chegou a um pico de 29 mil casos diários, com Xangai no centro das atenções. Agora, a China parece ir a caminho de um novo pico, que já representa a segunda vaga com mais casos desde o início da pandemia - com as autoridades a reafirmar que se vão manter fieis à política de “covid zero” ditada pelo presidente Xi Jinping, o que significa que vem aí mais uma fase de confinamento de populações e de encerramento de atividades económicas.

Menos de 4 casos por milhão de habitantes

Os mais de 5 mil casos diários agora divulgados representam menos de 4 casos por cada milhão de habitantes. Portugal, por exemplo, está oficialmente com cerca de 250 casos por milhão de habitantes. Mas, ao contrário de Portugal e da generalidade dos outros países, que já retomaram a vida normal e aprenderam a conviver com o vírus, a China continua a seguir os mesmos procedimentos de isolamento de pessoas, considerando que cada caso é um caso a mais do que seria admissível. Aparentemente o objetivo das autoridades chinesas continua a ser erradicar o vírus, algo que a própria Organização Mundial de Saúde considera ser impossível e insustentável. Para mais, quando as atuais variantes são mais contagiosas, mas menos violentas, e existem vacinas que previnem a doença grave.

Em conferência de imprensa, um dos responsáveis do Centro de Controlo de Doenças chinês fez questão de desmentir notícias que davam conta de um possível alívio nas políticas anti-pandemia - notícias essas que permitiram, na semana passada, uma pequena explosão de euforia nas bolsas chinesas. As medidas anti-covid adotadas pela China são "completamente corretas, as que têm menos custos económicos e as mais eficazes", disse Hu Xiang. "Devemos aderir ao princípio de colocar as pessoas e as vidas em primeiro lugar, e [aderir] à estratégia mais ampla de impedir a importação [de novos casos que provoquem] novas vagas no país".

Apesar deste anúncio, este domingo realizou-se a maratona de Pequim, numa decisão que baralho muitos observadores. As medidas de controlo anti-covid foram muito rigorosas, mas apesar disso a corrida aconteceu, pela primeira vez desde 2019.

Comércio externo cai, moeda desvaloriza

Segundo a agência Reuters, os analistas do Goldman Sachs disseram que o anúncio de sábado mostrou que "o governo ainda precisa de manter a sua política de ‘covid zero’ até que todos os preparativos estejam terminados [para uma maior abertura]. Isto pode levar alguns meses" - a expetativa "de base" do gigante financeiro aponta para alguma reabertura da China ao mundo no segundo trimestre de 2023.

O entusiasmo na negociação de ações chinesas na sexta-feira, acompanhado por alguma recuperação do yuan face ao dólar, chocou de frente com as informações do fim de semana, o que já se refletiu na cotação da moeda chinesa. Esta segunda-feira, no arranque da negociação nos mercados asiáticos, o dólar subiu 0,9% face ao yuan.

A apreensão face ao desempenho chinês e às medidas impostas pelo governo de Xi Jinping ficou reforçada com a divulgação, ao final da manhã (hora de Pequim), dos dados sobre o comércio externo da China em outubro. Era esperado um abrandamento das exportações, mas os números são bastante mais negativos do que as previsões.

Tanto as exportações como as importações da China tiveram uma contração em Outubro, a primeira quebra simultânea dos dois indicadores desde maio de 2020, quando o país “fechou” por causa do primeiro impacto do novo coronavírus. No mês passado, as vendas chinesas para o exterior diminuíram 0,3% em relação ao período homólogo (outubro de 2021), o que marca uma forte inversão da tendência dos últimos meses - em setembro as exportações haviam crescido 5,7%. No pior cenário, os analistas admitiam que o crescimento das exportações se ficasse pelos 4,3% - afinal, não houve qualquer aumento, mas contração, naquele que foi o pior desempenho desde maio de 2020.

As importações diminuíram 0,7%, o que compara com um crescimento de 0,3% em setembro (os analistas apostavam num aumento ligeiro, de apenas 0,1%). este é o pior desempenho das importações desde agosto de 2020.

Na análise dos dados desta segunda-feira, os especialistas notaram que o comércio externo da China não foi, sequer, capaz de capitalizar a depreciação do yuan, facto que torna as exportações chinesas mais competitivas. A proximidade das festividades do natal e fim do ano também não valeu aos exportadores chineses, que costumam ter nesta quadra um dos seus melhores períodos anuais de vendas.

O arrefecimento da economia chinesa acompanha a tendência dos seus principais mercados - Estados Unidos e Europa -, com a inflação e a incerteza generalizada face à economia e à guerra na Ucrânia a ensombrar a confiança dos agentes económicos. Um cenário global que, no caso da China, é agravado pelas persistentes interrupções da atividade industrial por causa das medidas impostas pela política de “covid zero”. 

Fabricante do Iphone impõe mais restrições

O ressurgimento da pandemia na China já está a afetar a indústria, e o iPhone é a primeira vítima desta nova vaga. A Foxconn, fabricante dos telemóveis da Apple, teve de reforçar este fim de semana as medidas para conter os surtos que têm atingido as suas unidades de produção. 

A marca de Taiwan, que tem boa parte da sua produção na China, assumiu no domingo que terá de reforçar as medidas de confinamento na sua fábrica em Zhengzhou. Segundo a agência Reuters, as decisões incluem a implementação de um sistema que envolve a deslocação de todos os trabalhadores para três dormitórios.

A fábrica de Zhenghou é central para a produção dos novos modelos do iPhone 14. Reagindo ao anúncio da Foxconn, a Apple já comunicou que terá menos unidades para vender neste natal devido aos problemas nesta fábrica chinesa, cujos trabalhadores chegaram a fugir, para escaparem ao lockdown ditado pelas autoridades.

Entre o risco de recessão global, as ameaças de implosão do mercado imobiliário chinês e a persistência das restrições por causa da pandemia, as autoridades chinesas enfrentam muitos desafios para reanimar a sua economia, que atravessa o momento mais delicado das últimas quatro décadas.

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