Estado de alerta coloca cereais em risco. Governo quer ceifa de manhã, mas agricultores dizem que é impossível

19 jul, 12:16
Plantação de trigo (Lusa/Nuno Veiga)

Estados de contingência e de alerta devido ao risco de incêndio afetam época crítica da apanha de cereais

Foi com alguma estupefação que os produtores de cereais ouviram a última conferência de imprensa do Ministro da Administração Interna sobre os incêndios, que anunciou a passagem do estado de contingência para o menos grave estado de alerta.

Depois de uma semana com as colheitas proibidas durante o estado de contingência, numa época fundamental para este tipo de culturas, o Governo autorizou o uso de máquinas ceifeiras debulhadoras, esta segunda e terça-feira, entre as 6 e as 10 da manhã e entre as 19 e as 22 horas, durante o estado de alerta, "desde que sejam adotadas medidas de mitigação do risco de incêndio rural e comunicada a sua realização ao Serviço Municipal de Proteção Civil territorialmente competente".

Esta janela de oportunidade, como lhe chamou o ministro José Luís Carneiro, pode acabar já quarta-feira se o país regressar ao estado de contingência com a anunciada subida das temperaturas, algo que ainda é incerto.

O problema, explicam os agricultores, é que os dois dias já assegurados não chegam e na parte da manhã, por questões técnicas, é impossível ceifar tão cedo.

Rui Garrido, presidente da Federação de Agricultores do Baixo Alentejo, detalha que "tirando os dias de extraordinário calor, como aqueles que existiram na última semana [quando era totalmente proibido ceifar], de manhã, antes das 9:00 ou 9:30, não se consegue debulhar. Com a humidade a ceifeira não consegue extrair bem o grão da espiga".

Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), confirma o problema e acrescenta que a decisão só revela que o ministro da Administração Interna "não tem conhecimentos sobre agricultura": "os horários que propôs revelam isso mesmo pois basta haver alguma humidade matinal para que não seja possível fazer a colheita de cereais."

Com esta limitação natural, resta aos agricultores colherem os cereais nas três horas autorizadas à tarde, algo que segundo os agricultores é manifestamente insuficiente, numa altura em que, sublinham, as temperaturas já desceram para valores considerados normais nesta época.

A CAP defende que não faz sentido manter estas limitações. "Nós sempre fizemos as ceifas acima dos 30 graus", recorda o presidente da Federação de Agricultores do Baixo Alentejo.

Relacionados

Economia

Mais Economia

Patrocinados