Câmara de Lisboa não ofereceu bilhetes do Rock in Rio a sem-abrigo para não "potenciar situações de consumos". As polémicas palavras de Laurinda Alves

22 jun, 14:36
As imagens do primeiro dia do festival Rock In Rio Lisboa (José Sena Goulão/Lusa)

Laurinda Alves, vereadora dos Direitos Humanos e Sociais, revelou que a Câmara de Lisboa não ofereceu bilhetes a sem-abrigo para o Rock in Rio porque "há que ter cuidado e preservar muito estas pessoas"

A vereadora dos Direitos Humanos e Sociais da Câmara de Lisboa, Laurinda Alves, revelou, na última reunião da Assembleia Municipal, que a organização do Rock in Rio fez um convite direto a um grupo de jovens refugiados para assistirem ao festival e que a vereação considerara convidar também "as pessoas em situação de sem-abrigo", mas a ideia acabou por ser colocada de parte porque, segundo a vereadora, "ficava complicado, nomeadamente porque há situações de consumos que poderíamos estar a potenciar". 

Após estas declarações, a polémica estalou no Twitter: Vasco Barata, deputado municipal do Bloco de Esquerda em Lisboa, divulgou as imagens da reunião da Assembleia Municipal no momento em que falava Laurinda Alves, vereadora dos Direitos Humanos e Sociais, sobre a possibilidade de levar pessoas em situação de sem-abrigo ao Rock in Rio. 

"Há que ter cuidado e preservar muito estas pessoas e protegê-las muito", acrescentou Laurinda Alves em seguida, ainda na reunião que ocorreu no âmbito do balanço apresentado pelo presidente da autarquia, Carlos Moedas (PSD), sobre o trabalho do executivo camarário nos últimos dois meses.

"É difícil de acreditar", escreveu Vasco Barata no Twitter, perante as declarações da vereadora com o pelouro dos Direitos Humanos e Sociais. As respostas não tardaram e, na rede social, sucederam-se comentários como "que estupidez", "tanta hipocrisia" ou outros mais irónicos, que consideraram a "ideia boa" porque "uma das principais carências dos sem-abrigo são os passes para festivais". 

Laurinda Alves intervinha na sequência de uma questão colocada pela deputada municipal do Bloco de Esquerda Joana Teixeira, a propósito do acolhimento de refugiados e sobre a “disparidade de 97 pessoas” entre as recebidas no centro de acolhimento de emergência e as que foram encaminhadas para uma resposta de alojamento. Segundo a representante da autarquia, estão nesta altura cerca de 60 jovens no centro de acolhimento de emergência para apoio aos refugiados da guerra na Ucrânia, a maioria de origem não ucraniana, mas que estava naquele país a frequentar cursos superiores, interrompidos devido à invasão russa. 

A CNN Portugal questionou a vereadora Laurinda Alves, que remeteu esclarecimentos para a assessoria da Câmara Municipal de Lisboa. Até ao momento da publicação deste artigo, não obtivemos resposta. 

Questionado pela CNN Portugal, o Bloco de Esquerda começou por dizer que as declarações de Laurinda Alves "não deviam ter lugar no pelouro dos Direitos Humanos e Sociais", considerando que "as pessoas em situação de sem-abrigo, que encontram-se numa situação de grande vulnerabilidade social, não precisam que a vereadora dos direitos sociais reitere o estigma e o preconceito que existe sobre elas".

"As pessoas em situação de refúgio precisam de muito mais do que uma ida ao Rock in Rio. Tornou-se evidente que faltam respostas estruturais e transversais que ultrapassem os preconceitos e o racismo, e garantam equidade no acolhimento. Medidas que garantam o direito a ser acolhido, que assegurem que a possibilidade de reconstrução das suas vidas não fica limitada uma cama de campanha num pavilhão", argumentou o Bloco, em resposta escrita, sublinhando que "são necessárias mais respostas de habitação para as pessoas em situação de refúgio".

Em declarações à TSF, Inês Drummond, vereadora do PS na Câmara Municipal de Lisboa, lamentou as declarações "absolutamente inacreditáveis" e "infelizes" de Laurinda Alves. "Quero acreditar que a vereadora não pensou naquilo que disse", frisou a vereadora socialista. "Contribuir para os estereótipos não é, seguramente, a missão de uma vereadora dos Direitos Humanos e Sociais", acrescentou.

"Não podemos achar que uma população fragilizada como os sem-abrigo são todos alcoólicos e toxicodependentes", referiu ainda Inês Drummond.

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